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quarta-feira, junho 16, 2004

O Brasil Tem Direito de Escolher... e se defender do ataque do monopolista

Era só o que faltava. O desespero começa a tomar conta da galera montada nos dólares microsoftianos, e o ataque vai direto na pessoa de Sérgio Amadeu, diretor-presidente do ITI. O "Pedido de Explicações" apresentado pela monopolista na 3.ª Vara Judicial de Barueri (SP), tendo como base a Lei de Imprensa, se deve a declarações de Amadeu contidas em entrevista à revista Carta Capital - onde afirmou que a empresa reproduz "prática de traficante" ao oferecer software grátis a governos para projetos de inclusão digital.

Não há muito o que dizer sobre isto. É preciso apenas manter a mobilização e a atenção, e apoiar amplamente o campanha em solidariedade a Sergio Amadeu. De quebra, apenas uma citação estratégica, via corporatewatch.org:

"Existe uma fácil analogia entre alguns desenvolvedores de software e os traficantes de drogas. Ambos fazem doações de versões iniciais de seu produto, seja na forma de presentes explícitos ou tratando de criar segurança insuficiente contra a pirataria. Havendo estabelecido a dependência entre os usuários do produto, passam a elevar os preços e reforçar os controles sobre propriedade intelectual.

Chris Williams, Diretor de Desenvolvimento de Produto da Microsoft explicou sua atitude à pirataria de software na Ásia: 'Estamos inundando o mercado com cópias... o objetivo é... que quando as pessoas tiverem que comprar o software, já conheçam o nosso produto e tenham que comprá-lo quando as leis forem aprovadas. Estamos basicamente adquirindo fatias do mercado. Tão logo comecemos a obter retorno neste investimento, será gigantesco'."
(‘Microsoft Secrets’ by Michael A Cusumano & Richard W. Selby (1995), p284-5).

E para não deixar nosso colega Sergio falando sozinho, vamos se ligar nos movimentos de apoio, que estão começando com a formação de uma comunidade no Orkut. O Brasil Tem o Direito de Escolher!

UPDATE: Veja abaixo assinado no PetitionOnline.
IMPERDÍVEL: Leia "A Eucaristia Digital"(com follow-up do caso) de Pedro Rezende, e Linus, We Love You: A Report from the 5th International Free Software Forum, in Linux Journal.

UPDATE 2 (19/06): Agora pegou!! Deu no Lessig, e no Slashdot, e no Phipps, e até no Scoble (o Microsoft blogger). Também News Forge e Inquirer.

terça-feira, outubro 21, 2003

Bons sinais para o ambiente digital nacional: Sérgio Amadeu e Gilberto Gil rumo à digitalização tropicalizada

Comentários de Sérgio Amadeu (ao lado), Diretor-Presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação - ITI, em sua apresentação na 1ª Oficina de Software Livre do Ministério de Ciência e Tecnologia, que está sendo transmitida ao vivo pelo site do MCT:

"O Governo brasileiro (ainda) não segue o mercado."
Sobre o grande uso de aplicativos gerados na plataforma asp nos órgãos publicos, o que impede a utilização do servidor Apache, o qual é utilizado por 66,8% dos servidores web no mundo.

"Não temos nenhum interesse em olhar o código, se ele permance fechado."
Sobre a oferta da Microsoft de permitir que governos revisem o código fonte do Windows para apaziguar questões de segurança envolvendo o sistema operacional.

"Estamos pensando, talvez, em um novo artigo na lei de software
brasileira, do ponto de vista dos direitos do consumidor, para assegurar o suporte aos softwares oriundos de comunidades de desenvolvimento."

Sobre as preocupações do governo em criar o ambiente ideal para o florescimento de um novo mercado baseado em software livre.

Enquanto isso, no blog de Lawrence Lessig sai o anúncio das novas licensas Creative Commons para casos de sampling (reprocessamento de áudio com uso de sampler), que foram inspiradas diretamente pelo nosso ministro Gilberto Gil (ao lado, na memorável jam com Kofi Annan) em parceria com o Direito da FGV. O desenvolvimento da idéia geral foi gestado em lista de discussão.

Como anteriormente destacado no EcoDigital, a utilização dos samplers já influencia diretamente a maioria dos novos estilos musicais criados pelos jovens nas diversas regiões do Brasil (a cibermúsica?), e portanto uma nova abordagem na questão dos direitos autorais é condição fundamental para o florescimento da cultura digital.

Também os arquivos musicais brasileiros estão na mira da estratégia do ministro Gil, pois a execução de títulos com base nas licenças CC no âmbito internacional teria como resultado certo uma ampliação de mercado para música e músicos nacionais. Dá gosto acompanhar algumas iniciativas do governo Lula, principalmente ao perceber na estratégia governamental relacionada às TICs e ao ambiente digital uma posição ideológica consistente, que demonstra consciência da importância do domínio público do código, e de novos conceitos para o gerenciamento da propriedade intelectual.

Os avanços concretos deixam claro que não existem muitas concessões a serem feitas às concepções proprietárias no novo paradigma das TICs nacionais, infra-estrutura primordial de nossa sociedade da informação tupiniquim - devidamente tropicalizada.

sábado, junho 21, 2003

Colaboração: A chave da era da informação é o éter do ambiente digital

A Microsoft se deu conta de que algo mudou no Brasil, e saiu correndo atrás do prejuízo. A notícia da diretriz para que 80% de todos os computadores do governo brasileiro rodem software livre (open source) explodiu há uma semana no Slashdot (e no LinuxToday), e gerou um baita thread sobre a eficiência da obrigatoriedade. Não há como negar o princípio ideológico subjacente à decisão, mas também há que se considerar as características específicas do momento de transição da era industrial para a era da informação, que demanda visão ampla e coragem para a implementação de estratégias definidas. Compras governamentais são ferramentas cruciais para implementação de políticas.

"O que faz o Linux diferente não é só o aspecto técnico. O Linux é um produto da era da informação, onde a construção do conhecimento é feita sobre o conhecimento anterior. Liberdade para modificar, criar, aumentar e diminuir. O linux é a ponta do Iceberg de um novo mundo. Nosso projeto quer provocar a catalisação das inteligências, de forma descentralizada. Através da integração e interatividade provocada pela internet. Propomos uma aprendizagem transversal, e de baixo para cima e para os lados. Comunidades desenvolvendo seus conteúdos. Pessoas recriando suas próprias vozes."
"Hernani Dimantas - Marcketing Hacker"

A atuação das corporações neste novo espaço parece comprometida. A implosão da "nova economia" trouxe uma nova consciência sobre as particularidades do ambiente digital. "Linux é a ponta do iceberg", mas traz em si o significado da colaboração como princípio fundamental do novo contrato - "Ecologia Digital".

"A bolha das dotcom foi causada em grande parte pela crença idiota de que o mecanismo de "branding" iria continuar funcionando tão bem na Era da Informação quanto o fez na Era Industrial que a precedeu. O Venture Capital estava enebriado por "branding" quando depositou bilhões de dólares em companhias sem nenhum valor mandando-as queimar a grana no mercado. Queimando dinheiro, os VCs pensaram, era a única forma de criar "valor de
marca" (brand value).

Mas a Internet mudou o mundo completamente. Foi uma receita de asteróide a dinossauros. Mas ao invés de tirar proveito das novas condições criadas pelas rede, os VCs e seus beneficiários decidiram estimular a menos viável condição dos dinossauros: tamanho e dominância. Pior, pensaram que a Nova Economia significava o lado deles do mercado - que era uma questão de oferta e não de demanda. Então se tornaram obcecados com "desintermediação" e "cadeias de valor" mais curtas. Tomaram-se de luxúria pela preposição "to", e queimaram incontáveis bilhões de dólares em opções de empresas com um "2" no meio. Entretanto, os clientes se tornaram mais ariscos do que nunca. As escolhas continuaram a crescer ao ponto deles mesmos desenvolverem suas próprias "soluções" para todos os problemas que os fornecedores obcecados por "branding" falharam em solucionar.

Os tecnólogos estão na liderança deste movimento oferecendo, e escolhendo, mais coisas que simplesmente realizam o serviço melhor do que outras coisas - ou coisas que fazem o serviço tão bem e por menos dinheiro.

A bolha do "branding" está explodindo. Talvez, depois de tudo, o penguin vai merecer algum crédito"
"Doc Searls - Linux SuitWatch - June 19"

Update: "O conceito de éter na história da ciência"

quinta-feira, setembro 26, 2002

Após um mês... Retornando a atividade blog... e lembrando

Depois de um mês de retiro para avaliação, retoma a atividade bloguística o Ecologia Digital. Depois das primeiras blogadas fez-se urgente esta parada para tomar pé da situação, e quem sabe, redirecionar algumas diretrizes editoriais.

O fato de ter alcançado o número #1 no Google na busca do termo "Ecologia Digital" me fez pensar que o espaço merecia algo mais do que escrita experimental. Por outro lado, as características específicas da edição blog facilitam uma liberdade de expressão que nos afugenta da objetividade e personaliza o discurso, e assim acabamos ficando demasiadamente honestos na manifestação. Os resultados começam a ficar um tanto imprevisíveis...

Empacado nesta encruzilhada, eis que vejo a notícia do passamento de Bob Wallace, uma grande figura a quem conheci fortuitamente em Manaus 1996, no Congresso Internacional de Psicologia Transpessoal. Ele me foi apresentado como o dono da Mind Books, editora especializada na literatura psicodélica, e fundador da Promind Foundation, dedicada à pesquisa e a educação no tema das substâncias psicoativas. E o contexto de nosso encontro foi uma cerimônia do Santo Daime realizada como atividade paralela para os participantes do Congresso.

Após a (fantástica) sessão, tivemos a oportunidade de uma conversa sobre a beleza do cenário (a floresta amazônica) e a força do sagrado avivada pelo ritual, e desde então tenho acompanhado suas postagens para a ayahuasca mailing list, e assim sempre mantive viva a sua lembrança. Para minha surpresa, ao ver seu obituário no New York Times (!), e no Seattle Times, descubro que Mr. Wallace foi um dos fundadores da gigante Microsoft!!!.

E não só isso! Foi o primeiro dos fundadores da empresa a abandonar o barco - saiu com 400 ações que depois vieram a valer 15 milhões de dólares(!). Mais tarde em uma entrevista sobre sua saída, comentou que sua filosofia era "trabalhar para ganhar a vida, e não a morte" ("I want to make a living, not a killing"). E tem mais! Foi o criador do conceito "shareware", significando software distribuído de graça no qual usuários voluntáriamente pagam posteriormente se aprovam o produto. A empresa que fundou com base nesta filosofia, a Quicksoft, tem hoje receita de mais de 2 milhões de dólares ao ano. Que grande ativista da ecologia digital!

Perceber o significado e a influência de uma personalidade como Bob Wallace em ambos os universos, concreto e digital, trouxe-me alguma reflexão crítica sobre o conceito de Ecologia Digital. Tê-lo conhecido da forma como o conheci e acompanhar sua atuação no ambiente digital da comunidade psicodélica foi um prazer. Saber de sua importância histórica na indústria do software foi uma surpresa e trouxe-me uma constatação: a expansão da consciência está intimamente ligada ao rompimento de paradigmas.

A partir daqui, Ecologia Digital expande um pouco mais a sua temática...