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terça-feira, novembro 19, 2002

WWW novamente: Wi-Fi, Weblogs e Webservices renovam a utopia humanista da web

Decentralização é a palavra. Quando a Internet parecia sufocada pelo aparente fracasso da Nova Economia (um mito?), sob o ataque dos economistas conservadores do mercado, eis que surge um novo trio de Ws para recolocar o princípio básico de volta ao eixo central da revolução da web. Decentralização (veja Kevin Werbach). Mas a proposta não era esta desde o princípio? O que aconteceu no caminho?

Algumas perguntas podem ajudar-nos a compreender a questão: quais os setores da indústria sãos os "big players" da infraestrutura da rede? Tecnologia, telecomunicações e mídia, certo? E qual ideologia organizacional norteou a entrada desta turma no negócio da rede? A premissa de que poderosas estruturas centrais iriam dominar no desenvolvimeno deste espaço. Como resultado, na (a) TI empresarial tornam-se padrão os grandes servidores centrais operando com aplicações monolíticas, nas (b) telecomunicações vemos as operadoras em dificuldades por terem investido em enormes (e caras) infra-estruturas proprietárias (G3, por exemplo), e na (c) mídia vemos os proprietários de conteúdo brigando com seus clientes (chamando-os de ladrões) no intuito de aumentar o controle central sobre os canais de distribuição de conteúdo.

De acordo com este quadro, se a Nova Economia falhou foi por incapacidade destes setores da Velha Economia em compreender a dinâmica da Ecologia Digital. Ideologias centralizadoras irão falhar neste ambiente por 3 motivos: (1) dificuldade em crescer na escala que a web propõe, (2) dificuldade em se adaptar ao mundo real diferenciado, (3) dificuldade em perceber os efeitos da liberdade viabilizada pela fenômeno da web na consciência humana. A complexidade da equação "diverso + extenso + humano" inviabiliza sistemas centralizados atuando em redes na escala planetária.

A teconologia Wi-Fi (veja o timeline) talvez seja o melhor exemplo para demonstrar o que está dito acima (veja artigo NYTimes). Assim como a web, que floresceu sobre os padrões de comunicação livremente acessíveis da Internet, o padrão Wi-Fi tornou-se possível pelo fato do governo americano ter configurado uma porção de frequências de rádio para serem abertamente compartilhadas por qualquer pessoa que seguisse um conjunto simples de regras (especificação 802.11b).

Esta tecnologia revoluciona ao trazer a facilidade e omnipresença da conexão à rede em velocidades comparáveis às mais rápidas linhas de telefone digital ou cable modem, e desmonta estratégias gananciosas de operadoras que sonhavam oferecer este serviço proprietariamente.

Falaremos sobre os dois outros novos Ws
(Weblogs e Webservices) na sequência. Da análise acima fica a idéia de que o elemento que tem mantido a pressão por soluções decentralizadas é o fator humano na rede. As pessoas
vem percebendo que podem buscar novas formas de comunicar e colaborar além dos limites artificiais das organizações e da geografia, e que podem acessar a sua própria música, em seus próprios termos, da mesma forma como querem poder estar online de qualquer lugar, a qualquer hora.

" O processo de decentralização não é automático nem absoluto. O desafio é encontrar o ponto de equilíbrio - o tamanho ótimo dos grupos, os modelos viáveis e os compromissos sociais apropriados."
Kevin Werbach - (Tech's Big Challenge: Decentralization)

O importante, no âmbito da Ecologia Digital, é estarmos abertos à reorganização dos conceitos para não ficarmos falando bobagem, desperdiçando recursos, ou nos conformando com soluções limitadoras.

Decentralize, cause the Web is for the World, and it's Wide.
WWW again.

quarta-feira, agosto 14, 2002

Defcon reúne 'hackers', 'geeks' e 'coders' em Las Vegas: Evento consagra os novos conceitos que fundem o ativismo digital no concreto

Dando um descanso para o tema das ameaças ciberbéticas (voltaremos oportunamente a elas), vamos falar um pouco sobre os "cerébros" da resistência libertária na rede - hackers, os legítimos - e de seu "braço armado": a comunidade geek.

*Geek = alguém que faz uso social do seu computador (chat, multiuser games, grupos, blogs, sites etc.). Quem só trabalha com computador não é Geek.

E o momento é propício pois aconteceu em Las Vegas, entre os dias 2 e 4 deste mês, o Def Con 10, conhecido como "o maior encontro underground de segurança na Internet do planeta". Algo assim como a convenção internacional dos hackers.

Vários temas na pauta, desde a possibilidade de tranformar um Dreamcast (console de videogame) numa ferramenta para invasão de sistemas corporativos, apresentada por Chris Davies, da RedSiren Technologies, até a discussão ética sobre possíveis "contra-ataques" cibernéticos a servidores que emitem vírus através de seus protocolos de e-mail, promovida por Timothy Mullen, da AnchorIS.

Desafiando o FBI, que no ano passado neste mesmo evento, e por muito menos, "grampeou" o nosso simpático russo Sklyarov, Adam Bresson mostrou ao público como fazer cópias caseiras de DVDs e vídeos com um aparelho chamado Canopus. A mensagem é a mesma: todos têm direito de fazer cópias de trabalhos que adquiram legalmente, e este direito está sendo ameaçado pelas proteções que estão sendo desenvolvidas pelas corporações do entretenimento. A palestra foi devidamente gravada por Adam e seus advogados para uso em possível ação judicial.

Mas o assunto do momento, na Def Con e nos sites da comunidade "geek", são mesmo as redes sem fio (Wi-Fi) que operam com base no padrão 802.11b. Esta tecnologia tornou-se muito competitiva em termos de preço nos últimos meses (Cheap Residential Gateways), e na pressa de se livrarem dos cabos de conxão, empresas, indivíduos, e seus respectivos ambientes de rede estão se tornando vulneráveis a um novo tipo de intrusão. O fato é que o novo contexto tem criado novos comportamentos, e todo mundo mundo só fala em "war driving", "warchalking" e "redes públicas de Wi-Fi". O que é isso? Aí vai uma pequena atualização para os que ainda não estão familiarizados com os conceitos.

Ao transitar por qualquer cidade relativamente bem aparelhada em termos tecnológicos, e neste caso estamos falando principalmente de Estados Unidos e Europa, você estará entrando e saindo das chamadas "bolhas" de conectividade. Se você entrar em algumas dessas "bolhas" e estiver portando um PDA ou um notebook equipado com um cartão Wi-Fi (conexão sem fio), um pequeno ícone irá aparecer em algum lugar da sua tela informando que, epa!, você está conectado à rede - e de graça!

Mas afinal, porque estas bolhas de conectividade estão dando sopa? As bolhas são projetadas por pontos de acesso Wi-Fi nos prédios ao redor, e são ocasionadas por dois tipos de administrador de sistemas:

  1. o relapso, que foi incapaz de configurar a capacidade do ponto de acesso em eliminar o acesso não-autorizado, e
  2. o altruísta, que acredita na "distribuição da riqueza" e por vezes instala potentes antenas para aumentar o raio de alcance de sua própria bolha, e assim disponibilizar acesso gratuito a mais gente.

E aí chegamos em "war driving", derivado de "war dialing" - que consiste na ultrapassada estratégia hacker de programar o sistema para chamar milhares de números de telefones em busca de conexões dial-up desprotegidas. WarDriving, termo cunhado por Peter Shipley, é circular pelas ruas da cidade de notebook com cartão de conexão Wi-Fi ligado a uma antena Lucent, e um receptor GPSanexo para anotação das coordenadas - em poucas horas este kit hacker pode localizar mais de 80 redes abertas para conexão numa cidade como San Francisco.

A Def Con 10, como não poderia deixar de ser, promoveu um concurso de WarDriving paralelo aos Foruns e às (famosas) FESTAS (foto ao lado) que caracterizam o evento. Os resultados assinalando os locais e as características das redes detectadas, os quais ainda serão consolidados para melhor divulgação, já podem ser acessados na rede. Não passou desapercebida aos simpáticos contraventores inscritos no concurso de WarDriving a tentativa do FBI em monitorar seus passos - interceptaram mensagem de um agente alertando a corporação sobre o plano da turma.

E a novidade agora é WarChalking, pois melhor seria se estas bolhas de alguma forma se tornassem visíveis aos usuários. E se de repente, andando pela rua, você encontra sinais marcados em giz (chalk) lhe dando todas as dicas sobre como conectar a rede ali disponível? Warchalking (www.warchalking.org) é um movimento para mobilizar a comunidade "geek" a decidir uma iconografia padrão para a "rede Wi-Fi pública". Partindo da iconografia hobo, que marcou época nos EUA como meio informal de comunicação para viajantes, a turma do WarChalking já está mapeando a "rede pública" e gratuita de acesso à Internet de posse dos cartões (modelo ao lado) que são disponibilizados em arquivo pdf.

Não estamos realmente diante de um novo meio ambiente? No caso do WarChalking, a esfera digital se confunde com o concreto e manifesta a a sua virtualidade nas paredes e muros das grandes cidades. Sinais do futuro?