Na rede

quarta-feira, outubro 25, 2006

Rumo ao Fórum de Governança da Internet - IGF / Atenas 2006

Estou neste momento me preparando para embarcar para Atenas, Grécia, para o Fórum de Governança da Internet. A impossibilidade do Ministro Gil em se ausentar do País no momento determinou que a incumbência de participar deste evento que inaugura o IGF caísse por sobre este blogueiro. Não vou poder votar no Lula no domingo, mas espero bem cumprir minha missão e conto com o apoio da blogosfera.

O evento marcará a inauguração do Fórum de Governança da Internet, que é uma iniciativa da ONU em resposta às demandas de maior participação global nos assuntos que dizem respeito às diretrizes e políticas que determinam o funcionamento da grande rede mundial. Até hoje esta tarefa foi tocada pelo ICAAN (Internet Corporation for Assigned Names and Numbers, ou Corporação da Internet para Nomes e Números Designados), entidade sem fins lucrativos ligada ao Departamento de Comércio americano. Tal configuração institucional, apesar de ter realizado até agora um trabalho digno de reconhecimento, começa a experimentar dificuldades em responder às atuais demandas de representatividade e transparência na formulação e condução das políticas de uso e também nas definições técnicas de infra-estrutura que afetam a todos os usuários de forma compulsória.

Há que se considerar que a rede tornou-se instrumento imprescindível para a prestação de serviços públicos por governos e um exemplo que ilustra bem a situação é a declaração de imposto de renda pela Internet, que no Brasil chega a atender a mais de 80% dos casos. Por outro lado é perceptível a tendência da rede em ser 'formatada' por organizações e empresas que atuam na vanguarda da tecnologia, em muitos casos movimentando enormes volumes de capital. É portanto justificável a preocupação da sociedade civil -- e dos indivíduos, governos, e organizações intergovernamentais -- em checar se esta formatação está sendo conduzida de acordo com o bem comum e a universalização dos benefícios trazidos pela hiperconexão.

O coordenador do comitê da ONU que assessora a realização do IGF, o indiano Nitin Desai, em seminário preparatório recentemente ocorrido em Londres (mp3) afirmou que existem tensões sobre a regulação da rede no futuro e também na questão do gerenciamento dos domínios. Em cinco anos existirão muito mais usuários da rede na Ásia do que na Europa ou América, mais páginas em chinês do que em inglês, e o uso da rede nestes locais pode diferir bastante do que hoje ocorre nos países ocidentais. É justo, por exemplo, que estas culturas desejem grafar seus domínios nos caracteres das línguas locais, e no entanto, ao mesmo tempo, parece ser importante para todos que não haja uma balcanização da Internet. Por outro lado, o ataque das teles ao princípio de neutralidade da rede (net neutrality) nos EUA põe em risco a integridade da Internet que nos acostumamos a usar.

É certo que os geeks norte-americanos, aqueles que realmente colocaram a rede para funcionar, temem que a Internet possa algum dia estar subordinada à lógica de governos, e talvez por isso o IGF enquanto evento da ONU seja solenemente ignorado pelos blogosfera nos EUA. Entretanto, para nós aqui no hemisfério sul e ainda toda a turma do continente asiático, não tem a menor graça ter a governança da Internet nossa de cada dia subordinada ao cenário político norte-americano. Especialmente em função da influência exacerbada que o lobby das teles e da indústria cultural (hollywood) tem operado sobre o congresso, de onde saem sérios ataques aos princípios de liberdade da rede.

Nitin Desai avisa que o IGF é um exercício para os atores (stakeholders) deste novíssimo cenário de convergência, e que o evento é "uma porta aberta, uma assembléia onde todas as visões são bemvindas", mas que não se trata de um fórum de decisões. Me parece uma aposta na possibilidade de se criar um modelo de desenolvimento de consensos sobre normas legais para a Internet atraves de um processo deliberativo aberto e informal, no qual o papel da socieade civil não está subordinado a governos. De fato, trata-se de um evento aberto que não privilegia a presença de autoridades governamentais.

Minha missão em Atenas é representar o Gil na Oficina de criação da "Carta dos Direitos da Internet". Trata-se de um movimento iniciado na Cúpula da Sociedade da Informação (WSIS) em Tunis pelo senador 'verde' italiano Fiorello Cortiana que contou com o apoio direto de Gil, além de Lawrence Lessig e Richard Stallman. Ao propor uma abordagem ao nível de princípios e conceitos, a reflexão sobre a 'Carta' pode facilitar o exercicio de consensos sobre o que seria desejável em termos de direitos e obrigações para os usuários do ambiente web.

O site da oficina (tem também um wiki) apresenta algumas questões estruturantes para orientar o debate sobre direitos e obrigações dos usuários da rede, e o site do MinC convida interessados a manifestarem suas apreciações sobre o tema. Estarei reportando direto de Atenas sempre que possível, aqui no ecodigital ou na seção específica no Cultura Digital. Aos interessados vale checar os links e referências sobre o tema.

quarta-feira, agosto 23, 2006

A TV digital do Brasil, e outras TVs possíveis

Tv digitalEm meio a tanto trabalho e absoluta falta de tempo, tenho que voltar ao ecodigital para desovar um post que está encruado faz tempo. Desde a assinatura do decreto da TV digital (29/Jun) que os colegas de ativismo estiveram me contactando para que eu postasse algo aqui sobre o tema, e aí na época comecei este post com o objetivo de compor uma comunicação pertinente ao momento. E ficou no rascunho até hoje... e o momento se transformou. O que segue é o rascunho adaptado e atualizado, que me fez refletir sobre tudo o que pode acontecer em apenas 2 meses nesta fantástica rede global.

Várias podem ser as razões que dificultaram a finalização deste post no final de junho, mas o fato é que não consegui elaborar um posicionamento sobre o debate local específico, e traduzo esta falta de inspiração como decorrente do descompasso que observo entre a discussão da TV digital no país, e a movimentação global decorrente da explosão do vídeo na rede. Esta revolução e seus efeitos colaterais me parecem muito mais pertinentes e conseqüentes à formulação do futuro digital brasileiro do que propriamente a escolha do padrão de modulação.

No médio prazo, não consigo deixar de ver a TV Digital como suporte e infraestrutura à dinâmica que hoje acontece na web, que na prática já permite ao usuário definir a própria 'grade de programação' através de playlists. No entanto, observo que todo o debate relativo à implementação da TV digital no Brasil está centrado na perspectiva da TV como a conhecemos hoje, segundo a ótica de 'canais' que acabam adquirindo grande poder e influência na cultura local exatamente pela concessão que têm em 'programar' o que vai ser assistido. Esta abordagem, a meu ver, não tem levado em consideração a transformação que os efeitos do paradigma digitalização / hiper-conectividade tem operado na ecologia da mídia audiovisual. Estamos assistindo (pela Internet) a revolução da auto-determinação dos usuários / cidadãos.

É fácil enxergar o motivo das operadoras (incumbents) de TV formatarem a discussão em torno do padrão de modulação -- de certa forma mantém o debate em terreno conhecido. Mais difícil é perceber qual o ativismo efetivo para o ambientalismo digital, neste momento em que as principais referências no tema sofrem evoluções conceituais radicais em questão de semanas.

Uma dica interessante pode estar na recente criação do Partido Pirata na Suécia, em resposta ao ataque do governo local ao Pirate Bay -- os reis do Bittorrent na rede. Vale à pena se inteirar dessa história, e para isso nada melhor que ver este vídeo (via Thiago Novaes, em expedição pelo velho mundo). Parece claro que a batalha é política, e que faz todo sentido ao movimento ambientalista digital aparelhar-se devidamente para atuar neste contexto. Algumas conversas interessantes -- ativadas por simpáticos narizes vermelhos -- ocorridas durante o iSummit no Rio já indicavam este caminho, e desde então coisas interessantes vêm acontecendo.

[Em nome da transparência blogueira, neste ponto devo declarar aqui que trabalho no Ministério da Cultura, coordenando a infra-estrutura web, e que minha avaliação em relação às posições do 'chefe' Gil podem estar influenciadas. Mas a meu ver, como de costume, foi ele quem enxergou mais longe ao reverberar sabiamente (de dentro do governo) a noção de que para o bem de todos, decisões sobre TV digital não deveriam ser tomadas em ano eleitoral.]

A novidade que volta a animar o debate da TV digital no Brasil é a Ação Civil do Ministério Público Federal questionando a legalidade do decreto que pretendeu implantar o SBTVD optando pelo padrão japonês de modulação. Trata-se de fruto da articulação eficiente dos coletivos de comunicação social no país, e a iniciativa me parece um caminho interessante para questionar a adequação do procedimento efetuado pelo executivo. Será que já estaríamos em plena reforma política? Daqui torcemos (e trabalhamos) por um debate nacional -- sobre a cadeia do audiovisual digital e principalmente sobre infra-estrutura pública de banda-larga -- amplo e livre de influências oportunistas.

Falando de iSummit, ação política, vídeo na rede, e narizes vermelhos, não poderia deixar de registrar um feliz encontro ocorrido no evento no Rio, onde tive a oportunidade de conversar com John Perry Barlow e Steven Starr (foto). O Barlow todo mundo conhece -- um dos meus ídolos na net desde sempre --, e o Steve é o cara do Revver, um Youtube alternativo que apresenta proposta extremamente ecológica de disponibilização de vídeo na rede -- que o FFF descreve bem:

Revver é um serviço fantástico, do qual o Tupi já tinha me falado. Conversei bastante com o Steve, fundador e CEO do sistema, que antes de tudo é ativista ligado ao indymedia e um monte de outros projetos interessantes. A idéia é a seguinte: eu pego os vídeos que faço e mando pro sistema deles, que vai publicar o vídeo, mas com um espaço para anúncios no final. O interessante é que o criador controla todo o processo: quais anúncios aparecem, quantas pessoas assistem ao vídeo, quantas pessoas clicam no anúncio. Da mesma forma que sistemas como o adsense e text link ads, cada clique gera alguns trocados para o autor. A grana é dividida meio a meio. Interessante, principalmente no sentido em que propõe um outro ciclo econômico pra produção audiovisual."
iSummit - FFF

Enquanto a turma do estúdio livre agitava os corredores demonstrando o potencial das ferramentas de produção multimídia dos pontos de cultura, pude relatar ao Barlow e ao Steve um pouco da minha experiência como morador de uma comunidade do Santo Daime em Brasília. O debate sobre o uso socialmente integrado de substâncias psicoativas e a proposta comunitária em torno de princípios pan-ecológicos embalou longo e animado intercâmbio, e ao final tive a promessa de receber visitas ilustres lá no Céu do Planalto.

E por fim os narizes vermelhos, que chegaram a motivar alguns narizes torcidos no iSummit, acredito terem motivado reflexões e atualizações coletivas. Espontaneamente foram reconhecidos pelos participantes estrangeiros no evento como símbolo da abordagem tropical à subversão que o ambiente digital tem provocado nos poderes estabelecidos. Para o ativismo digital brazuca, no meu entendimento, o nariz de palhaço pode simbolizar o início de uma convergência e de uma articulação política que precisa se consolidar e se organizar o quanto antes, em prol da real promoção do equilíbrio ambiental na rede.

sexta-feira, junho 23, 2006

iSummit 06: Gilberto Gil reúne Microsoft e Creative Commons

Um dos lançamentos previstos para acontecer no iSummit 06 no Rio é o do 'Creative Commons Add-in for Microsoft Office', um plugin que instala nos aplicativos do Office (Word, Excel, etc, por agora somente na versão XP ou 2003) uma funcionalidade de registro de direito autoral que facilmente adiciona licenças Creative Commons aos trabalhos criados nestas ferramentas.

O primeiro documento a ser originado com esta licença é precisamente o arquivo word do texto da conferência que o Ministro Gil irá apresentar amanhã no evento, do qual selecionamos um trecho que consideramos pertinente:

"Ingenuidade minha? Sei muito bem do outro lado da moeda, das terríveis relações de poder que fazem desaparecer originalidades culturais todos os dias e impõem padrões de consumo em escala planetária visando apenas o lucro fácil. Mas quero encarar de frente o desafio que a indústria cultural global nos propõe, tanto que até hoje também trabalhei dentro dessa indústria, tentando usar seu poder para meus objetivos artísticos. Não sei se consegui criar o meu espaço dentro de suas leis. Mesmo assim continuo cultivando esse estranho e provocador gosto de juntar conceitos que pareciam estar destinados ficarem eternamente separados. Como parabólica e camará. Gosto de ver o mundo ecoando como uma cabaça de berimbau. Gosto de juntar diferenças."
Gilberto Gil - Ministro da Cultura - Conferência - iSummit 06 Rio
Não sabemos ao certo o grau de responsabilidade que a inspiração do ministro tem com este interessante encontro entre uma potência do mundo corporativo -- Microsoft -- e um movimento de valorização do 'comum' -- Creative Commons. Em outros tempos, o agora quase aposentado Bill Gates referiu-se ao movimento copyleft como "uma versão moderna de comunismo" (creative commies) que pretendia eliminar o ganha pão de músicos, cineastas e desenvolvedores de software. Seu sucessor indicado, Ray Ozzie, vem demonstrando intenções bem diferenciadas e já saúda a cooperação da Microsoft com Lawrence Lessig, que assim blogou a caminho do Rio para o iSummit:
"Antes de entrar no avião ontem, eu estive em alguns encontros com a imprensa sobre o anúncio. Muitos estavam surpresos que Creative Commons e Microsoft iriam colaborar em um projeto. Em minha ingenuidade de professor de direito, me surpreendo com esta surpresa. O Office é uma ferramenta de criação. Dar ao criador maior controle sobre sua criatividade é uma forma de tornar a plataforma Office mais valiosa para os criadores. E ao incorporar as licenças CC, estará tornando-a mais valiosa para o público em geral."
A CC plug-in for MSFT Office - Lawrence Lessig

Estarão presentes ao evento outros 'ingênuos' como os Wikipedians, as turmas do Software Livre, os garotos da Cultura Livre, heróis do livre acesso ao conhecimento e outros, compartilhando experiências sobre as implementações que cada um tem conseguido realizar no ambiente digital, sintonizando colaborações e articulando parcerias para além do imaginado.

A Ecologia Digital estará realizando alguma cobertura, reportando neste blog ou em algum outro ponto da blogosfera. Inté...

BlogBlogs.Com.Br

quarta-feira, maio 17, 2006

Overturma faz o dever de casa

Estiveram reunidos no Rio, nos dias 15 e 16 deste maio, overmanos, overmanas e demais overpitaqueiros para avaliar detalhadamente e em conjunto os vários aspectos dos primeiros meses de funcionamento do Overmundo -- novo coletivo virtual e promissor canal alternativo de expressão da cultura brasileira. Hermano Vianna, Ronaldo Lemos e cia. ativaram o debate entre os 27 overmanos (mistura de blogueiro, jornalista, produtor cultural, artista e filósofo) que compõem a rede representando todos os cantos da federação. Dentre o universo de assuntos que pintaram, destaco a busca de melhor interface para o site, idéias sobre os procedimentos da inovadora 'sala de edição' virtual, novas formas de intervenção analógica (não-digital) nas ações da cultura local, estratégias de difusão dos conceitos da cultura digital, e também alternativas de sustentabilidade para o projeto no futuro.

Na minha perspectiva, o projeto Overmundo é um laboratório único para avaliar os problemas e os desafios que a implementação de um verdadeiro projeto de 'jornalismo cidadão' a nível nacional podem apresentar, e para mim foi uma oportunidade ótima poder acompanhar o debate. Um aspecto fundamental do projeto é o foco na difusão pragmática das novas formas de licensiamento de conteúdo e gerenciamento de direitos autorais (Creative Commons). Durante o evento Ronaldo Lemos apresentou um 'discurso padrão' a ser apropriado pelos overmanos, e por quem mais quiser, para contextualizar e disseminar a utilização prática das novas licensas. Disponibilizamos aqui o áudio em mp3 e a apresentação (alguém aí sabe sincronizar um ppt com um mp3 num arquivo mpg?).

Recentemente houve algum ruído na blogosfera sobre o fato do Overmundo ser um projeto viabilizado por captação de recursos através da lei de incentivo cultural, e também por assemelhar-se ao digg. Entende-se o sentimento dos blogueiros, adeptos do 'do it yoursef', sobre a alavancagem de um volume alto de recursos para se montar um site. Afinal, aprendemos todos que basta uma idéia na cabeça e um blog gratuito na web para que coisas interessantes comecem a acontecer. Mas o ataque à turma que vislumbrou algo mais adiante, se mobilizou, montou o projeto, conquistou os recursos, e agora está trabalhando duro para que a idéia de uma rede colaborativa de âmbito nacional dê certo, cheira a 'dor de cotovelo' mal resolvida.

"Fazer site colaborativo com drupal? Claro, monto um em menos de uma hora, cheio de recursos interessantes. Mas sempre falta alguma coisa, porque eu não tenho grana pra contratar equipe, não tenho tempo pra me dedicar, porque um módulo específico ainda não está à altura do que eu preciso. E, com exceção de casos como o próprio china, o site vai ser fatalmente abandonado depois de alguns meses, por falta de saco. Já passei por essa situação meia dúzia de vezes, e fiquei realmente feliz de ter visto o overmundo encontrar uma maneira de trilhar outro rumo. ... não acho que desqualificar o primeiro site que conseguiu articular um caminho viável seja uma boa estratégia. É tiro no pé. É dar razão pra quem acha que o estado não deve investir em cultura, que produção colaborativa é coisa de cumuna, e que dinheiro da Petrobras tem é que sustentar barretão e companhia. Meu inimigo está em outra parte, e a guerra é outra, maior do que se imagina."
Felipe Fonseca - comment no BR.BR-101.org
Como bem colocado pelo FF, todos os que já se viram engajados em projetos colaborativos na rede sabem por experiência própria que falta neste contexto modelos inovadores de financiamento que possam viabilizar o constante aperfeiçoamento tecnológico, e o impulso à rápida replicação e implementação dos conceitos e atitudes pertinentes na ecologia analógica -- ou seja, nas interações do mundo real. Afinal, quem poderia patrocinar tal iniciativa? As empresas de mídia no Brasil ainda não conseguem enxergar a tendência mundial da rede, e portanto cabe ao estado induzir iniciativas que julgue pertinentes para alavancar inovação em setores estratégicos. Veja a dica do Sílvio Meira (de blog novo) na questão:

"ron bloom, fundador do podshow, aposta que em cinco anos 50% do conteúdo será gerado pelo público e não pelas produtoras e artistas “clássicos”. pode até ser que sites como overmundo, “coletivos virtuaiscapazes de manter viva uma discussão sobre rock na amazônia por 45 dias, sejam arautos de novos modelos de criação e propagação de conteúdo cultural"
em 5 anos, 50% - blog. meira.com

O Overmundo não é um site. Quem o enxerga dessa forma reducionista perde a visão do contexto maior onde se insere esta movimentação, e basta alguma interação com os overmanos para sacar o diferencial. O Overmundo é um coletivo aberto, uma rede colaborativa de difusão cultural, e talvez a única iniciativa relevante de jornalismo cidadão no país. Vale à pena acompanhar e colaborar com esta turma.

UPDATE: Não deixem de conferir a apresentação do Ronaldo Lemos (slides + áudio) 'Conteúdo Colaborativo: uma crise, uma novidade, e a questão do controle'.

sábado, maio 06, 2006

Sobre a 'desconferência' da gangue da identidade digital

A delicada questão da identidade digital foi 'especialmente' debatida esta semana no Internet Identity Workshop 2006, que ocorreu no Computer Hisotry Museum em Mountain View - California. O evento teuniu luminares do tema - blogueiros da A-list, conhecidos figurões das grandes empresas e experts das fronteiras da inovação no campo do gerenciamento de identidade. Entretanto, e esta é a característica 'especial' do evento, nenhum deles estava lá para apresentar conferências, não havia palco - todos falaram, escutaram, tiraram dúvidas e responderam a questionamentos, numa configuração interativa com hierarquia plana.

O novo formato de interação é chamado 'Unconference' (desconferência?), e foi desenhado em sua forma atual por Dave Winer, o criador (entre outras coisas) do RSS. O workshop foi realizado no âmbito do coletivo 'Identity Gang', que é patrocinado pelo Berkman Center e reúne indivíduos e organizações que mobilizam esforços em torno de uma missão em comum: 'Apoiar a contínua conversação sobre o que é necessário para o desenvolvimento de um 'metassistema' de identidade que possa atender a todo o mercado, especialmente aos indivíduos'.

De acordo com a ampla e positiva cobertura que o evento alcançou na blogosfera, os sinais de que já estão ocorrendo as necessárias mudanças para a correta abordagem do tema foram claramente percebidos nas seções de 'desconferência' no evento. A principal responsável pelo sucesso da implementação do espaço aberto de debate foi a 'Identity Woman' Kaliya Hamlin (foto), que juntamente com Phill Wendley conseguiu criar o ambiente adequado para a inédita troca aberta de informações.

Parece não haver mais qualquer dúvida de que é necessária a adoção de uma meta-narrativa na condução dos debates sobre a identidade digital, e de que a missão neste momento é descobrir como convergir os vários projetos em desenvolvimento. Tais esforços partiram de variados contextos de uso e demanda, e foram iniciados com objetivos extremamente heterogêneos, o que vinha causando enorme divisão e competição até então. Mas desta vez foi perceptível a intenção coletiva de 'pular no barco', e o movimento de cada grupo em introduzir seus objetivos específicos na matriz cronológica e de especificações construída colaborativamente como resultado das 'desconferências'.Recentemente o Sílvio Meira(que finalmente! colocou RSS em seu blog) fez um bom diagnóstico do que vinha acontecendo no debate sobre o identidade na rede:

"... os atores apropriados não estão se sentando nas mesmas mesas e tendo as longas conversas que deveriam... o que os leva a disparar salvos contra os outros com muita freqüência, como se “um” lado fosse ganhar a disputa e o “outro”, desaparecer. A experiência da internet deveria ensinar que “o” lado que ganha a disputa é o do usuário, que está à procura de uma experiência simples, rica, eficiente, eficaz e, ainda por cima, que justifique os reais que custa. Simples. Mas até chegarmos, todos, a este entendimento, veremos muita gente boa vivendo, em público, a crise de identidade de não saberem o que são, num mundo convergente... simplesmente por não entenderem o que ele, de fato, é."
Crise de Identidade - Meira.com

Será que o clima está mudando? Estarei em Recife na próxima semana e espero re-encontrar o Sílvio e poder trocar boas idéias. Quem sabe gravar um podcast. Alô Síííllllvio!!

UPDATE: Tom Maddox disponibiliza em seu blog vários podcasts sobre o Internet Identity Workshop 2006. Os dois com Doc Searls são especialmente interessantes -- Doc indica que a junção da identidade digital com um mecanismo como o Creative Commons poderia criar um ambiente de mercado completamente revolucionário - a economia da intenção.

terça-feira, maio 02, 2006

O mundo pergunta: "Mídia da Crise ou Crise da Mídia?"

O Seminário 'Crise da Mídia ou Mídia da Crise?', realizado nos dias 26, 27 e 28 de abril pela Escola de Comunicação da UFRJ em parceria com a Rede Universidade Nômade e com o apoio da Secretaria de Políticas Culturais do Ministério da Cultura e da RNP para a transmissão ao vivo pela web, terá uma oportuna continuidade no âmbito internacional.

Nos próximos dias 3 e 4 de maio acontecerá em Londres o evento 'We Media Global Forum', organizado pelo 'The Media Center' -- unidade do 'American Press Institute - API' dedicado à pesquisa sobre a mídia e seus novos formatos, e com o patrocínio das agências internacionais BBC e Reuters.

O evento irá reunir a vanguarda da sociedade conectada -- pensadores, inovadores, investidores, executivos e ativistas que buscam realizar o potencial das redes digitais em conectar todos, em todos os lugares. O objetivo principal será captar as perspectivas dos líderes da indústria e dos príncipais ativistas em relação à questão mobilizadora introduzida pela organização do fórum, e que é colocada tanto em relação à mídia tradicional como também frente ao nascente 'jornalismo cidadão':

Nós confiamos na mídia?
(Do we trust the media?)

O evento começa amanhã, mas pode ser acompanhado desde já no site específico, nos blogs do 'media center', da BBC e da Reuters, e em outros locais da blogosfera.

Como o tema do forum é 'confiança', os principais patrocinadores (BBC e Reuters) estão realizando uma pesquisa online para avaliar a 'atitude das pessoas em relação à confiança e mídia'. Os resultados da pesquisa só serão anunciados oficialmente no primeiro dia do forum, mas alguns indícios coletados já estão disponíveis online. Interessante observar em quais instituições os cidadãos depositam maior confiança no sentido de realizar as ações necessárias para a construção do bem comum (abaixo).


E, por falar em 'mídia' e 'confiança', não posso deixar de destacar uma passagem na recente apresentação de Paulo Henrique Amorim no seminário 'Mídia da Crise ou Crise da Mídia?', onde ele descreve a preleção de Carlos Augusto Montenegro, diretor do Ibope, no Fórum Empresarial realizado em Comandatuba no fim de semana anterior.

"...convocado para uma das preleções previstas pelo programa, falou de pesquisas e fez observações interessantes a respeito das próximas eleições, mas seu pronunciamento passou em branca nuvem nas páginas impressas e no vídeo. Arrisquemos um palpite: desta feita Montenegro não agradou à mídia e seus patrões. Exibiu números que confirmam o favoritismo de Lula e admitiu a chance de sua vitória já no primeiro turno, caso o PMDB não apresente candidato. E Montenegro dobrou a dose, e esclareceu que o próximo pleito se apresenta como confronto entre ricos e pobres, e estes estão, organicamente, com Lula."
Mino Carta - 'Os pobres contra os ricos' - Carta Capital

Ou seja, dados que anunciam o favoritismo e a radical mudança na composição do eleitorado de Lula para as eleições presidenciais de 2006 são apresentados para cerca de '320 CEOs de grandes empresas nacionais e multinacionais, dois Ministros de Estado, além de governadores, deputados e senadores' (composição do público em Comandatuba), entre eles certamente os principais dirigentes das maiores corporações de mídia, e mesmo assim tais informações continuam restritas ao comentário de Mino Carta e à cobertura universitária do 'mídia / crise'. Tenho que complementar o post com outro registro pertinente da fala de Paulo Henrique Amorim no seminário da UFRJ:

"95% da imprensa tenta abreviar ou desestabilizar o governo Lula; os outros 5% restantes se referem à revista Carta Capital."
Cobertura do 'Mídia da Crise ou Crise da Mídia?' - Felipe Musa

Vamos acompanhar o evento em Londres e seguir referenciando com o debate. Um diferencial importante a ser notado é que os patrocinadores do 'We Media Global Forum' são BBC e Reuters - duas das principais agências de notícias internacionais. E as nossas, o que estão fazendo?



UPDATE - Veja os vídeos de dois dos painéis apresentados (Google Vídeo):

  • Midiocracia (imperdível) - Como a democracia se constitui em aliança, conflito e composição com os meios de Comunicação. Democracia pela mídia e governo dos meios de comunicação.

    Palestrantes
    : Wanderley Guilherme dos Santos - Cientista Político e Professor da UFRJ e da Universidade Cândido Mendes . José Dirceu - ex-ministro da Casa Civil . Paulo Henrique Amorin - Jornalista da TV Record . Ricardo Kotscho - Jornalista e representante da Rede Globo do Projeto Globo/ Universidade . Giuseppe Cocco - Professor da UFRJ e representante da Rede Universidade Nômade


  • Midiativismo - Os novos intelectuais e atores políticos que utilizam a mídia e suas linguagens como forma de ativismo político e estético. A política do simbólico.

    Palestrantes
    : Franco Berardi - Professor da Universidade de Bolonha (Itália) Raul Sanchez - Professor da Universidad Nomada de Madrid (Espanha) Wallace Hermann - representante das Rádios Comunitárias e PontoComSaúde Geo Brito - representante do Centro de Teatro do Oprimido e da Universidade Nômade Giuliano Bonorandi - representante da Ação Cultura Digital e Rádio Interferência

quarta-feira, abril 12, 2006

Rumo ao 'comum' digital global, no Rio


iSummit será no Rio de Janeiro, de 23 a 26 de junho de 2006

Lawrence Lessig explica em seu blog:


"O objetivo do iCommons vai muito além da infraestrutura que está sendo construída pelo Creative Commons. A proposta é reunir no Rio, além do crescente grupo de entusiastas do CC, uma ampla coleção de novas pessoas e grupos - incluíndo os Wikipedians, as turmas do Software Livre, os garotos da Cultura Livre, heróis do livre acesso ao conhecimento, e outros - para que possam "se inspirar e aprender uns dos outros, estabelecendo relações de trabalho mais próximas em torno de um conjunto de projetos incubados"

Ele segue explicando que o iCommons é uma empreitada distinta do Creative Commons, e também dirigido por outras pessoas - tem o blogueiro Joi Ito como presidente. A missão do iCommons será determinada pelas conversas que acontecerão em junho no Rio entre as várias correntes que compõem a comunidade internacional do conhecimento livre (‘free and open source software’, ‘open access’, ‘open content’ e ‘open science’, entre outros).

Além da presença de Jimmy Wales (fundador da Wikipedia) e James Boyle (criador do 'ambientalismo cultural'), está confirmada também a performance do ministro Gilberto Gil, que tem desempenhado papel importante no desenvolvimento e divulgação do modelo alternativo de gerenciamento de direitos autorais Creative Commons no Brasil, -- foi o idealizador da licença CC para sampleamento de conteúdo original.

No anúncio do evento, e da presença de Gil, Lessig destaca a pertinência e sintonia do programa 'Pontos de Cultura' , do MinC, com toda a movimentação em torno da cultura e do conhecimento livres, da qual é principal articulador:


"O projeto dos 'pontos de cultura' almeja construir mil locais distribuídos por todo o Brasil, onde ferramentas de software livre estejam disponíveis para que as pessoas possam criar e remixar a cultura. O foco é vídeo e áudio, ninguém está muito interessado em aplicações do tipo Office ou semelhantes. É um extraordinário movimento de base, devotado primeiramente a um ideal (o livre acesso à cultura) e também a uma prática (torná-lo(a) real)."
Lawrence Lessig - returning home (from Brazil)

Estão previstas diversas atividades (confira a programação), e no workshop 'Create', os participantes poderão experimentar algumas das ferramentas desenvolvidas pelos 'Pontos de Cultura', e mais um conjunto de outras soluções e projetos de outras organizações voltadas para o estabelecimento de 'pontos de criatividade' em 'coffe shops', centros comunitários e comerciais.

Para quem está na área, e no tema, não dá para perder.

sábado, março 25, 2006

A 'economia da atenção'


Há algum tempo venho acompanhando o movimento do conceito da "economia da atenção", tendo inclusive publicado um artigo ("O novo valor econômico: a ATENÇÃO") na seção 'cultura digital' que estou editando no site do MinC, e desde há muito me tornado membro da 'Attention Trust', a primeira organização criada para defender os direitos de indivíduos sobre seus dados de atenção, e que desenvolveu o primeiro 'attention recorder' (gravador de atenção).

Mas afinal, de que estamos falando?

"Quando você presta atenção a algo (e também quando você ignora alguma coisa), informação é criada. Estes dados de atenção são recursos valiosos, que refletem seus interesses, suas atividades e seus valores"
Attention Trust - About

Todo link que você visita, toda busca realizada, compras online... em síntese: todo movimento no ambiente digital pode ser registrado, armazenado, organizado e utilizado das mais variadas formas. O Google é a empresa que melhor utiliza este recurso até agora, coletando toda a informação de atenção (attention data) disponível e tratando-a de forma a posicionar anúncios de seus clientes à vista de usuários que, segundo as indicações, têm maiores chances de clicar 'naquele link'. O fato da empresa criada por Larry Page e Sergey Brin ter conseguido quadruplicar o valor de suas ações em apenas um ano e meio é indicador que ilustra como esta nova abordagem traz uma vantagem competitiva no estado atual da economia.

Entretanto, pelo rumor dos eventos específicos sobre o tema atenção (o'reilly's etech, pcforum e sdforum), e do debate na blogosfera na última semana, vemos que esta perspectiva pragmática da 'economia da atenção' é apenas uma dentre os possíveis desenvolvimentos. Doc Searls em seu artigo 'The Intention Economy' indica que o conceito de atenção, tratado dessa forma, continua colocando as empresas - o 'vendedor' - no centro. Em sua visão, o conceito de 'intenção' poderia ser mais apropriado ao colocar o foco no indivíduo, o 'comprador'. Tal abordagem poderia alavancar a construção de soluções técnicas baseadas em dados de atenção que auxiliem o indivíduo a conseguir o que deseja dos mercados, ao invés de auxiliar o 'vendedor' a capturar a atenção dos 'compradores'.

Seth Goldstein, Steve Gillmor e Dave Sifry (Technorati) no SDForum SearchSig - 'The Search or Attention' -
Foto do flickr - usuário PrivateEye

Outro dia, escutando o 'Gillmor Gang' (um dos meus podcasts favoritos) sobre o debate "The Search for Attention" do SDForum Search Sig, pude perceber a força do meme 'atenção' entre os que compõem a vanguarda da web 2.0. Steve Gillmor está saindo da AttentionTrust (é um dos fundadores, mas declara que já estamos na era 'pós-atenção') para se dedicar ao desenvolvimento da idéia de 'Gestures' e a criação do GestureBank.
"Gestures (gestos). É a terceira perna do tripé, juntamente com a AttentionTrust e o gravador. Porque gestos? Com a AttentionTrust eu afirmo o direito de controlar os meus metadados, e o gravador é uma implementação de referência para que cada um de nós tome posse desses dados. Entretanto, aplicações precisam de um fluxo de dados para linkar as intenções do usuário em uma base agregada. E por sua vez, os usuários têm que ter uma maneira de guiar ou influenciar os serviços recolhidos do reservatório aberto de dados (open pool of data) de acordo com suas necessidades e perspectivas individuais. Separando os fluxos de atenção em dois canais, um de metadados agregados anônimos, e outro de gestos (gestures) e metadados privados, podemos criar uma ferramenta poderosa análoga aos fundamentos do software livre e dos padrões abertos. Isto é o GestureBank -- você pode utilizar seus serviços somente quando você contritui para o reservatório aberto de dados (open pool of data)"

Steve Gillmor - AttentionTrust and GestureBank

Outra aplicação com base no conceito de atenção já funcionando é o Root.net, projeto desenvolvido por Seth Goldstein (outro fundador da AttentionTrust) que capta 'dados de atenção' recolhidos pelo Attention Recorder e os disponibiliza de variadas formas. O plano é se transformar em um 'corretor de atenção' entre usuários que desejam compartilhar seus dados de atenção e entidades que tenham interesse pela informação. No outro evento da semana, o PC Forum, um dos temas foi também a retomada de controle, pelo usuário, de seus dados e identidade online. Mas na perspecitva das empresas, esta apropriação por parte dos usuários ainda é um longo caminho a ser percorrido.

"Existe muita ansiedade entre as empresas sobre o que fazer com os 'dados de atenção' dos usuários, porque está claro tal informação não lhes pertence para que seja usada de acordo com seus interesses. No PCForum, perguntei a representantes de Yahoo, Google e outras empresas se eu poderia obter e usar uma cópia de meu histórico de buscas. Suas respostas foram evasivas."
Seth Goldstein - SDForum's Search SIG: The Search for Attention

Diante de tantas perspectivas interessantes, este debate sobre a 'economia da atenção' poderia já estar esgotado. Entretanto, foi de Michael Goldhaber na Etech a conferência que trouxe uma visão mais radical e abrangente do conceito, a ponto de o levar a ser aclamado pelos colegas como o 'einstein da atenção'.

"Pense no mundo humano como um gigantesco jogo de rpg interativo (o que realmente é). Na medida em que as interações vão se transformando, vamos passando mudando de nível, algo que não acontece neste grau de profundidade há séculos. As regras, valores fundamentais, tudo está se transformando em relação ao que era familiar no nível caracterizado pela troca de Dinheiro, a prevalência dos Mercados, e a dominância da produção Industrial de bens padronizados (chamaremos este nível de DMI). O novo nível também se desenvolve em função dos desejos e habilidades humanas, mas agora o que mais importa são nossas habilidades estritamente limitadas de prestar atenção, e nosso muito maior (na média) desejo de receber atenção. A transição completa entre os níveis ainda vai durar algumas décadas, mas já estamos no caminho."
The real nature of emerging attention economy - Michael Goldhaber - Keynote on ETech 2006

Phill Windley estava lá e tomou algumas notas preciosas, já que a íntegra da apresentação deve permanecer fora da rede até o lançamento do livro que Goldhaber vem desenvolvendo desde os anos 90, e está próximo de lançar. Na conferência ele apresenta uma analogia entre modelos econômicos historicamente definidos e os diferentes níveis de um jogo mmporpg - o primeiro nível foi a economia feudal (800-1200), de onde emergiu o sistema DMI (dinheiro, mercados, industrialização) que funcionou de 1650 a 1980 (o intervalo é a transição). O próximo nível seria a economia da atenção, que não pode ser descrito ou explicado em termos do sistema DMI, da mesma forma que o mercado de ações não pode ser descrito nos termos da sociedade feudal.

A passagem do sistema feudal para o sistema DMI aconteceu porque a Europa ocidental sentiu-se segura o bastante para promover os espaços públicos nas cidades, viagens seguras, e a extinção do modelo de exploração do trabalho escravo. A ultrapassagem do sistema DMI acontece em função da abundância material em alguns extratos da sociedade moderna e, segundo Goldhaber, pela aberturas promovida por espaços onde acontece massiva troca de informações como as grandes escolas de segundo grau e universidades, a mídia de massa, e a Internet. As metas mudaram de lealdade para bens materiais, e então para atenção. Os papéis mudaram de cavaleiros, para proprietários, e então para astros e fãs.

O post acabou ficando gigante, mas para falar sobre a 'economia da atenção' e os desenvolvimentos pertinentes nesta altura do campeonato não dá para ser sintético. Espero podermos desenvolver um pouco mais nos comentários... alô alô!

quinta-feira, março 02, 2006

Ecodigital +10: Boyle e Lessig comemoram uma década de 'ambientalismo cultural'

Acontecerá nos dias 11 e 12 próximos, no 'Centro para Internet e Sociedade' da faculdade de direito de Stanford (San Francisco - California), o simpósio 'Cultural Environmentalism at 10' que marca 10 anos de criação da metáfora 'Ambientalismo Cultural'. Não poderíamos deixar de destacar o evento, já que o blog Ecologia Digital e o site correlato nasceram de minha perplexidade frente à pertinência e propriedade da abordagem elaborada por James Boyle há uma década.

O próprio Boyle, acompanhado de ninguém menos que Lawrence Lessig, estarão comandando o simpósio e recebendo os conferencistas selecionados: Molly Van Houweling irá explorar a manipulação voluntária da propriedade intelectual (ex.: licenças creative commons) como ferramenta de ambientalismo cultural; Susan Crawford irá ampliar a perspectiva de Boyle focando as especificidades do universo das redes; Rebecca Tushnet comentará sobre como a tendência generalizadora das leis pode inviabilizar o 'ambientalismo cultural'; e Madhavi Sunder aborda como a metáfora interfere na questão do conhecimento tradicional (este é quente!).

Em recente artigo no Financial Times, onde agora é colunista de 'new economy'(!), James Boyle relata que em 1996 tentou publicar um texto sobre propriedade intelectual, costurando os temas 'internet', 'liberdade de expressão' e 'acesso à informação', e o editor achava que o tema central seria pornografia e censura. Não era. Boyle tratava de patentes de software e regras para o direito autoral no ambiente digital. Já naquela época preocupava-se com regulações que responsabilizavam os provedores por qualquer coisa que um usuário fizesse online, e com as persistentes extensões do período de cobertura dos direitos autorais que resultaram no confinamento de toda a cultura do século XX (mesmo os conteúdos não disponíveis comercialmente). Tudo isso acontecendo exatamente no momento em que poderíamos sonhar em tornar tudo isso facilmente acessível por todos.

Boyle percebeu claramente que, em 1996, o tema propriedade intelectual era árido o suficiente para só interessar a especialistas da indústria. Na prática, estavam sendo redigidas as regras básicas da 'era da informação', que iriam interferir dramaticamente na liberdade de expressão, na inovação, na ciência e na cultura do futuro próximo, e ninguém - exceto os players da indústria - estava prestando a devida atenção.

Foi aí que surgiu a analogia ao movimento ecológico que, de forma brilhante, tornou visível os efeitos de decisões sociais relativas ao meio ambiente, trazendo à luz do debate democrático um conjunto de assuntos que, até então, eram restritos a especialistas. Era urgente a formulação de um ambientalismo da mente, uma economia política para a era da informação - era necessária uma ecologia digital.

E tudo começa com o lançamento do livro "Shamans, Software and Spleens" (1996), enfocando uma decisão da Suprema Corte americana em 90 (Moore v. The Regents of the University of California) que regulamentou a possibilidade de se patentear DNA retirado do corpo de terceiros. Expandindo as idéias apresentadas na "Declaração de Bellagio" de 93, que contou com sua co-autoria, Boyle buscou construir uma teoria social da sociedade da informação.

De lá para cá, parece que a ecologia digital vem colecionando derrotas: os termos limite de copyright foram extendidos, alargaram-se os limites da lei de marcas, e a lei de patentes avança na cobertura de algoritmos e idéias básicas. Registre-se que em nenhum desses casos houve demonstração evidente de que a nova proteção seria necessária ou desejável.

Mas existem motivos para otimismo. A existência deste blog no Brasil pode ser um sinal, um reconhecimento de que estes são assuntos que merecem atenção e difusão pública, e sobre os quais cidadãos podem/devem debater. E já temos os nossos equivalentes do Greenpeace. Também a indústria, devagar, começa a compreender que seus interesses no assunto podem ser vistos sobre novas perspectivas. Boyle sugere as diferenças marcantes entre IBM e Microsoft, e entre a indústria de hardware e a da música como exemplos do novo quadro. Na medida em que a propriedade intelectual começa a interferir na vida de quem participa na criação da cultura digital, o cidadão comum começa a ter algo a dizer no assunto. Pode ser que no debate ainda não esteja equilibrado, mas pode-se dizer que hoje, trata-se de um debate - e não um monólogo da indústria do conteúdo.

Portanto temos o que comemorar, e vamos tentar acompanhar o simpósio para trazer as novidades pertinentes ao público da ecologia digital.

UPDATE 13/03/06 - Joe Gratz realizou ótimo liveblogging das conferências do evento, que linko abaixo:

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Ainda sobre a Cúpula, e o aviso de Dan Gillmor

Aqui vai mais uma tradução de artigo que considero importante para compor as informações que nos levarão a entender melhor a discussão que envolve a governança da Internet -- tema quente da recente Cúpula Mundial da Sociedade da Informação.

Chegou a haver algum barulho na rede sobre o fato da delegação brasileira estar aliando-se a interesses 'pouco democráticos' ao defender a descentralização da autoridade na rede conforme praticada hoje. Parece que a heresia causadora do ruído é o fato do Brasil ter ousado liderar um 'desafio o papel predominante exercido pelos Estados Unidos', o que poderia 'deformar a Internet'.

Sobre o tema podemos citar a avaliação de Gustavo Gindre, membro eleito do Comitê Gestor da Internet - CGIBr representando o terceiro setor, sobre a participação da delegação brasileira no evento:

"O Brasil teve atuação destacada nas negociações sobre a governança da Internet durante a CMSI. Liderou uma aliança com diversos países descontentes com a política norte-americana e ainda conseguiu anular a resistência de várias delegações (particularmente de governos totalitários) à participação da sociedade civil no Internet Governance Forum (IGF). Por fim, negociou uma aliança com a União Européia que terminou isolando os Estados Unidos."
Boletim Prometheus Especial - Tunis 2005, por Gustavo Gindre

Quanto ao risco de 'deformação' que a rede sofre hoje, me pareceu oportuno traduzir artigo do Dan Gillmor (referências? 01, 02, 03, 04) publicado recentemente no Financial Times, que ilustra o cenário atual de um dos fronts no qual os defensores da 'rede aberta' terão de batalhar para manter os princípios fundamentais da Internet. Penso que é especialmente importante para nós aqui no Brasil percebermos que o cenário descrito abaixo serve para ilustrar a movimentação das telecoms e de tellywood lá no norte, o que certamente é indicativo dos planos das corporações análogas por aqui.

De forma alguma indico que tenhamos que ver nos colegas norte-americanos a força precursora que busca 'deformar' a rede -- pelo contrário, sabemos que a turma lá está na ponta da inovação libertária que possibilitou tudo isso. Apenas demosntro que a postura brasileira no assunto é inteligente e sensível o bastante para considerar que, independentemente de qualquer bandeira, o que se defende é um modelo de governança (conforme o brasileiro) representativo para a rede, que além das representações de governos assegure também a participação da sociedade civil, do setor empresarial e da academia -- de todos os países. Esta é a rede da qual estamos falando.

Sobre o tema da Cúpula, também vale à pena ver:



Dan Gillmor: Levantem-se contra a opressão dos EUA
Financial Times - 22/11/2005

A 'Internet aberta' está sob ataque como nunca esteve antes, e os agressores são os suspeitos de sempre: governos e os gigantes das telecomunicações. Infelizmente a suspeita se aplica também aos Estados Unidos da America. Falando em 'Internet aberta' quero signigicar a rede onde usuários utilizam a banda de frequência da forma como bem entendem, e não como os oligopólios querem definir. É claro que o que os usuários desejam não é especialmente relevante
para os burocratas e executivos que estão trabalhando duro para recuperar o controle.

Não é surpresa ver governos autoritários e opressores, especialmente aqueles que controlam as operações de telecomunicações, atuar de forma a suprimir a vitalidade e espontaneidade do livre fluxo viabilizado por esta nova mídia.

O controle político não é a única dimensão em jogo -- empresas gigantescas e interesses bilionários complementam o cenário.

Entretanto, é desalentador observar os EUA caminhando nesta direção. A nação que concebeu e difundiu a Internet está renunciando a alguns valores básicos de todo o processo.

Considere, em particular, a recente entrevista na revista Newsweek, onde Ed Whitacre, chefe-executivo da SBC Communications, deixou claro sua preferência pelos dias quando as companhias telefônicas americanas eram monopólios. (Agora que a SBC está comprando a AT&T e deve assumir o novo nome, festeja juntamente com outras telecoms aquisidoras o início do retorno daqueles dias felizes -- para os monopolistas!).

Na entrevista, Whitacre anuncia sua intenção de favorecer determinados serviços que transitam informação nos cabos providos por sua companhia. Em certa altura ele reclama do Skype, a companhia de voz-sobre-IP, dizendo: "Eles usam nossa rede de graça"; e indicou fortemente que pretende forçar o Skype (ou seus usuários) a pagar para usar 'sua' rede. A arrogância contida nesta declaração apenas ilustra o equívoco essencial que a fundamenta. O que é provido pelo empresas é banda: mover pacotes de informação de lá para cá. Não cabe a estas empresas, ou não deveria caber, decidir o que é enviado, e em que ordem.

Em função da lógica de Whitacre, que infelizmente é apoiada por nossas políticas públicas, a ele é permitido instalar 'quebra-molas', 'bloqueios' ou 'pedágios' no caminho de todos os provedores de conteúdo da rede.

A auto-imputação de autoridade do chefe-executivo da SBC sobre que tipo de informação pode passar por 'seus' cabos -- adquiridos inicialmente através de monopólios garantidos pelo governo -- tem um 'quê' de realidade, em parte por causa da atual política governamental. Reguladores federais, sem pensar nas implicações, estão incentivando os conglomerados das telecomunicações e da tv a cabo a pensar que não precisam compartilhar seus cabos com os competidores.

Tem havido também alguns murmúrios por parte de reguladores sobre requerer o que os partidários da competitividade denominam 'acesso aberto' (open access), que vem a ser a não discriminação sobre conteúdo que transita nos cabos da rede. Mas praticamente todas as regulações boicotam tal diretriz.

Em julho eu denunciei esta tendência nesta coluna, ao analisar uma decisão da Suprema Corte em um caso denominado 'BrandX' pelo fato do nome de um provedor de serviço a internet ter sido bloqueado por uma linha de companhia de cabo. Preocupou-me a decisão, que tornou-se aderente à lei vigente, como mais um passo no sentido de dar às telecoms controle absoluto sobre a informação que transita nos cabos que controla, além do serviço de provisão de acesso propriamente dito.

O congresso americando parece pronto para sacramentar o dano. A legislação que está sendo preparada para atualizar o marco legal de telecomunicações ameaça o princípio básico da Internet que valoriza 'as pontas da rede'. Segundo explica Vint Cerf, um dos 'founding fathers' da Internet, é este princípio que "permite que pessoas em todos os níveis da rede estejam livres para inovar, sem a possibilidade de um controle central".

Em carta remetida a um comitê do Congresso, Cerf (agora um contratado vip do Google) declarou que tal proposta de legislação, se entrar em vigor, "irá causar grande dano à Internet como a conhecemos". Conceber uma regulação que permita aos operadores da rede discriminar em favor de certos tipos de serviços, e potencialmente interferir com outros, irá colocar os provedores de banda no controle da atividade online.

Não é apenas o Google que está por trás destas manifestações. Também a Microsoft e outras empresas que não detém infra-estrutura de rede estão igualmente preocupadas.

Não deveríamos culpar Whitacre e seus colegas do mundo das telecoms, igulamente sedentos de poder, por buscar a retomada do poder que tinham e que a rede em tão pouco tempo desconstruiu. Está no DNA deles querer pautar quais serão as nossas escolhas, e quais inovações irão acontecer - e a que velocidade de implementação.

Mas o DNA da Internet é precisamente o oposto de tudo isso. A rede permite que as pessoas comuns, nas pontas da teia, produzam novas possibilidades e realizem as suas próprias escolhas. Este é o motivo pelo qual a rede têm crescido de forma tão poderosa, e razão também de ter se tornado este vibrante ecossistema que aos poucos vai se constituindo na plataforma para o futuro da comunicação humana. Ela é nossa, coletivamente, e não deles.


quinta-feira, novembro 17, 2005

O dia em que o 'broadcast' morreu

David Berlind fala sobre o casamento do protocolo de assinatura RSS com a programação de TV disponível na rede, que cria um cenário capaz de eliminar o que hoje conhecemos como distribuição de programação televisiva através de canais. E demonstra também como setores da indústrias estão se mobilizando para impedir esta evolução natural da rede.

"HOJE é o dia que as redes de TV e rádio em todo o mundo sempre temeram que chegasse. É o dia em que alguém casou o protocolo de assinatura RSS com Bittorrent, de tal forma que transforma a Internet em uma grande, enorme e grátis, máquina TiVo. Como anunciado
por Steve Rubel
ontem, "alguém encontrou uma forma de assinar shows de TV em Bittorrent e baixá-los como um feed RSS". Em outras palavras, uma vez que um show de TV tenha sido digitalizado e armazenado em Bittorrent, não somente as redes de broadcast de rádio e TV terão sido excluídas da intermediação, mas também todo o modelo de negócio baseado em publicidade. Da mesma forma como com o TiVo, podemos simplesmente avançar por sobre os anúncios. E muito melhor do que TV por satélite, a arquitetura da rede pavimenta o caminho
para o recebimento de conteúdo originária de qualquer parte do mundo.

Distribuição de programação de televisão pela Internet era inevitável. O problema é que este não é exatamente o caminho evolutivo planejado por aqueles que se prepararam para estar no topo do darwinismo da mídia. Neste caso, os donos de empresas como a Verizon com seus serviços de IPTV (vide Telemar), que requerem um intermediário; e os senhores do cartel do entretenimento ('Tellywood' - 'hoje televisão e estúdios de cinema (Hollywood - vide Globo) são essencialmente a mesma indústria'), que têm um modelo de negócio a defender. Eles tem planos diferentes, desenhados para controlar toda a experiência do usuário (o horizontal e o vertical). No entanto, em função dos princípios que norteiam a Internet (onde as pontas da rede é que detém o controle), este controle está escapando por seus dedos como areia.

Então, parece que é o triunfo da Internet afinal?

Talvez não. O homem gosta de interferir com a evolução, e esta situação específica não parece ser diferente. Tellywood não pretende deixar que uma coisa boba e pequena como a Internet lhe force a aceitar um caminho específico de evolução, não favorável. Em seu compromisso com a própria existência, Tellywood não está tentando interferir com a inovação trazida pela web de forma isolada, mas convocou seu poderoso lobby para compor estratégia de defesa em aliança com outros dois dinossauros: o FCC (Federal Communications Commission) e o congresso americano. Mas ainda há tempo para agir. Além de boicotar conteúdo e tecnologias que promovem a adoção de tecnologias de DRM (Digital Restrictions Management), aqui está o que pode ser feito agora (e rápido, pois há um prazo fatal em 01/12/2005)".