Na rede

quinta-feira, setembro 16, 2004

Pontos de Cultura
- Do-in antropológico via massageamento cultural

O chefe, Ministro Gilberto Gil, juntamente com o ministro do trabalho, Berzoini, e também o Antônio Albuquerque (Gesac - Minicom), acabam de apresentar em coletiva de imprensa o resultado do processo seletivo que elegeu os projetos de inclusão digital e promoção cultural integrantes da primeira fase do projeto Pontos de Cultura - Cultura Viva. São 214 iniciativas (entre 800 enviadas) espalhadas por todo o país contempladas com as diferentes dimensões do projeto:

  • Repasse de recursos em dinheiro no valor de R$ 150.000,00 por ponto (período de 2 anos e meio - R$ 5.000,00 por mês);
  • Kit de Cultura Digital (equipamentos com software livre e acesso à internet, para produção e edição multimídia) Custo estimado: R$ 25.000,00;
  • Oficinas, cursos, acompanhamento, intercâmbio e instigação via os meios de difusão do Cultura Viva;
  • Xemelê - Plataforma web de distribuição - Compartilhamento das produções simbólicas e conhecimento tecnológico, gerados pela ação autônoma em rede dos pontos de
    cultura.a rede

Sou suspeito para falar do projeto, pois acompanho a galera que vem malhando em cima dos conceitos há algum tempo, mas hoje foi o dia de dar nó na garganta. Ouvir o Célio Turino (grande figura, secretário de Programas e Projetos Culturais do MinC) falar sobre o projeto lavou a alma de quem vem sofrendo com os obstáculos burocráticos e institucionais típicos quando se trata de experimentar modelos inovadores no âmbito governamental (alô Claudio Prado!). Parece que REALMENTE É POSSÍVEL!!

O ministro Berzoini (trabalho e emprego) compareceu trazendo a notícia da parceria acertada com o MinC para a implementação de cinco mil bolsas do programa Primeiro Emprego – 50 bolsas para cada Pontos de Cultura. Cada jovem contemplado receberá R$ 150,00 ao longo de seis meses ou seja, R$ 900,00 ao todo. E o Gesac do ministério das comunicações entra garantindo a infraestrutura de conexão.

Para encerrar, o ministro Gil foi breve ao descrever as "sinergias intermináveis" que podem acontecer a partir do momento que estes espaços massageados comecem a liberar a energia produtiva reprimida pelo esquecimento social, e saudou o envolvimento interministerial que já começa a acontecer desde já. Arrematou comentando que já era chegada a hora de, neste País, se "baratear o que é caro" (subsidiar tecnologia de ponta - e livre - para produção cultural na periferia), e "encarecer o que é barato" (potencializar, dar visibilidade e viabilidade à real cultura brasileira ).

...clarear caminhos, abrir clareiras, estimular, abrigar. Para fazer uma espécie de ‘do-in' antropológico, massageando pontos vitais, mas momentaneamente desprezados ou dormecidos, do corpo cultural do país ...
Será o espaço da experimentação de rumos novos. O espaço da abertura para a criatividade popular e para as novas linguagens. O espaço da disponibilidade para a aventura e a ousadia. O espaço da memória e da invenção
”.
Célio Turino (grande figura, secretário de Programas e Projetos Culturais do MinC)

PS: lembrando Preto Ghoez... na última reunião neste mesmo auditório, cá estava ele... creio que esteve hoje aqui novamente.

segunda-feira, setembro 13, 2004

Novidades na ecologia da música na rede
- Tem gente novamente querendo tudo para si

Lá vem Bill Gates novamente, arrombando o mercado de música na rede. O lançamento é uma estratégia integrada, composta dos lançamentos (beta) do portal MSN-Music, e da versão 10 do Windows Media Player -- ou seja, um aplicativo com uma loja dentro. E é o mesmo aplicativo que, por ser implantado (originalmente e de forma indissociável) no sistema operacional Windows, causou à M$ uma multa recorde(!) da União Européia por práticas monopolistas.

Detalhes do MSN-Music: US$0.99 por música, albuns a 9,90 (9 cents a menos que no iTunes!!), e o DRM sofisticado permite que você espalhe sua música adquirida em até 5 computadores, queime até 7 CDs de uma playlist, e transfira o arquivo para o seu "portable device" quantas vezes quiser -- caso à parte são os celulares. Certamente estão reformando a prisão para que nos sintamos completamente em casa dentro dela.

Enquanto isso, na periferia da rede as iniciativas são bem mais interessantes. Não que estejamos falando de assaltos aos princípios da propriedade e da lógica de mercado. Apenas imaginamos situações onde obter o máximo em termos financeiros não seja o objetivo principal da empreitada, e que ao final, inteligência e princípios ecológicos específicos do mundo digital possam agregar valores que permitam a sustentabilidade de projetos que promovem a cultura livre (e de output gratuito sim, porque não? Ex.:-)

Last.fm é um site de rádio online que disponibiliza audição gratuita, mas que conta com um plus interessantíssimo: funciona de forma integrada com o Audioscrobbler, um plugin que enxerga diretamente as playlists do Winamp e/ou iTunes em sua máquina e envia suas preferências para um servidor. Dessa forma, Last.fm configura uma estação de rádio personalizada baseada no seu gosto musical(e pode-se gravar o streaming com StepVoice).

O mais interessante é podermos entrar nas rádios de outros usuários, diversificando de forma qualificada nossas preferências. Por outro lado, sempre há a chance de investigar no site sobre os CDs originais das músicas que tocam, o que significa um poderoso marketing qualificado em favor da moribunda indústria fonográfica. E afinal, tudo isso significa música de qualidade e de graça para os usuários. Vale aqui lembrar o que fizeram com as web radios.

A viabilidade legal da Last.fm, que conta com 100 mil músicas próprias, acontece em função de um contrato com a MCPS-PRS Alliance -- o correlato inglês da RIAA -- e também devido a um contato favorável com as gravadoras na oferta de promoções e pesquisas de marketing. Sob qualquer ponto de vista, uma solução muito mais inteligente e saudável para viabilizar a música na rede -- bem diferentemente da tática nazista de processar os usuários.

Bonus links: Vale à pena conferir o catálogo da Magnatune, uma forma inovadora de distribuir música online; e ainda no mundo da música livre (neste caso, só para Linux): Gnomoradio, aplicativo que encontra, organiza, compartilha e toca músicas gratuitamente disponíveis (registradas em licenças Creative Commons) para compartilhamento como arquivos.

UPDATE: Não podia deixar de citar a artigo no NYTimes (via HD) que afirma categoricamente:

"Fazer download de música na Internet não é ilegal. Muitos dos arquivos disponíveis online são não apenas grátis, mas também facilmente acessáveis, legais e -- o mais importante -- vale à pena escutá-los. Enquanto a indústria da música ataca com processos e lobbies a disponibilização de música online, inúmeros músicos (Bob Dylan, Yeah Yeah Yeahs) tiram partido da Internet para fazer com que sua música seja ouvida. Também os selos disponibilizam músicas gratuitas, principalmente os de rock e música eletrônica (Matador, Vagrant, Barsuk, Saddle Creek e Tigerbeat6). E algumas rádios públicas: música clássica (WNYC), eclética (WFMU e KCRW), e também a MTV".
Laptop D.J.'s Have a Feast - JON PARELES - Nytimes 10/09/2004

Segue a seleção dos sites que oferecem música grátis online:

domingo, setembro 05, 2004

Conversas online
- O dia na blogosfera

Estava hoje checando o bloglines, e percebi que o tema do meu post de ontem no Ecodigital Links -- blogs patrocinados -- ainda reverberava no ambiente. O moderador do evento (IMHO - Blogging, Politics & Personal Voice) citado pelo Rushkoff (Democracia Open Source) era o Jeff Jarvis, que respondeu em seu blog, mas o pau quebrou mesmo nos comentários. Para fechar o assunto, Rushkoff explicitou sua analogia entre as 'raves' e os 'blogs' para ilustrar porque o advento dos blogs patrocinados pode ser 'o fim de algo' (the end of something):

'A "ameaça" da cultura rave vinha de sua capacidade em formar uma economia alternativa. A galera não mais frequentava as boates pertencentes à máfia da noite, a polícia não estava levando a sua parte, e os distribuidores de bebida não viam mais o lucro. Boa parte da turma envolvida nas raves não se deram conta dos verdadeiros motivos desta cultura ser considerada ameaçadora.
Da mesma forma acredito que o maior poder do blog, além da capacidade de distribuir informação alternativa (certamente um grande poder) -- é a demonstração da viabilidade de um modo de engajamento que não está baseado no princípio do lucro.
'
Douglas Rushkoff - The real threat of blogs - outros bits no tema: (1), (2), (3)


A conversa deve continuar pois o assunto é quente, e apresenta inúmeros desenvolvimentos possíveis. Um deles envolve outra alteração na ecologia blog ocorrida esta semana: a demissão da codeira do Friendster, Joyce Park, que blogou sobre a substituição do Java pelo PHP no site. O assunto despertou paixões entre os desenvolvedores, mas promete arranhar a reputação do 'muy amigo' Friendster no mundo geek. Joyce não tem anúncios em seu blog. E se tivesse, teria blogado com o despojamento necessário para movimentar a discussão da forma como fez?

Implicações comerciais e religiões codeiras à parte, creio que este assunto irá desenvolver um pouco mais por aqui...

UPDATE (20/10/2004): Não pude deixar de acrescentar aqui um post do Doc Searls no BloggerCon, que coloca uma luz interessante na questão dos blogs patrocinados:

'. Você gostaria se, toda vez que você recebesse um telefonema, tivesse que ouvir também um anúncio?
. Você já se perguntou "Como posso fazer dinheiro com o meu telefone?", ou especulou sobre o modelo de negócio possível para seu aparelho?
. Como o seu blog pode aumentar suas oportunidades de ganhar dinheiro (fora do blog)? Isto já aconteceu? Como?
. Estas oportunidades não excedem seja lá o que você venha a receber com anúncios? Se não, porquê?

Como você pode ver, tenho uma posição aqui. Acredito que é muito mais importante (e interessante) criar oportunidades de ganho financeiro em função dos blogs, e não com eles, da mesma forma como ganhamos dinheiro porque temos telefone, e não "com" nossos telefones.
'
Doc Searls - Making Money session at BloggerCon


segunda-feira, agosto 30, 2004

Bresser na UnB
- Revendo o querido professor, e os ipês amarelos

Nesta segunda em que Brasília amanhece supreendentemente molhada, e os ipês amarelos começam a dar o ar de sua graça, sigo para a UnB a fim de reencontrar o inesquecível professor e ministro Bresser Pereira, com quem muito aprendi nos tempos do antigo Ministério da Administração e Reforma do Estado - MARE e depois no MCT. Foi lá que, juntamente com o saudoso Claudio Sato, implementamos o que seriam os primórdios do governo eletrônico, registrando o domínio www.brasil.gov.br.

Encontrar pessoalmente o ministro Bresser é sempre uma satisfação, mas não é difícil acoompanhá-lo à distância em sua produção -- seu site pessoal é referência em termos de publicação acadêmica na web. Tive o prazer de desenhar a versão 1.0 em 99, e dá gosto ver a evolução da interface e da organização dos conteúdos (mas a foto ainda tá lá, né ministro?). A funcionalidade de comentários no centro é bem intencionada, mas ficaria melhor uma estrutura de postagem com links e disponibilizando comentários aos visitantes -- um verdadeiro blog. Falta também um feed XML, e como sei que o "ministro" acompanha de perto a evolução das funcionalidades estratégicas da web, estarei enviando para ele algo sobre as novidades do mundo da sindicação.

Bresser falou sobre nacionalismo, situando ideologicamente os intelectuais cariocas do ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) em relação aos paulistas da ESP. Exercitando a dissidência, afirmou seu engano em relação à Teoria da Dependência (da qual foi um dos formuladores), destacando a necessidade de um estado forte -- com boa dose de nacionalismo -- como fator estratégico para o bom desempenho de um país no ambiente econômico globalizado. Mencionou o livro "Chutando a Escada", onde Ha-Joon Chang demonstra que...

"...os países que primeiro logravam se desenvolver "chutavam a escada" ou "puxavam o tapete", para impedir que os demais países os seguissem e lhes fizessem concorrência."
"Chutando a Escada", in Luis Carlos Bresser Pereira

Portanto, seguir a cartilha das instituições financeiras internacionais em seus conselhos para a economia nacional significa concordar em permanecer no andar inferior. Terminou a palestra destacando a necessidade de se estudar o que aconteceu antes de 1964.

quarta-feira, agosto 25, 2004

Guerrilhas dançantes
- As últimas de John Perry Barlow

John Perry Barlow is back!!

Agora, depois da recauchutagem geral, JPB volta com força total articulando manifestações dançantes programadas para ocorrer na próxima semana em NY, por ocasião da convenção do partido republicano que irá aclamar a candidatura Bush para a eleição presidencial de novembro.

"Juntamente com 50 ou 60 pessoas, iremos todos dançar para eles. Dividindo-nos em diversos pelotões de guerrilhas dançantes disfarçadas em pedestre comuns, vamos percorrer as calçadas das regiões republicanas mais ricas, periodicamente rompendo em explosões de dança, selvagens e inexplicáveis. Iremos manter a manifestação por alguns minutos antes de novamente dissolvermo-nos na multidão e rumarmos para o "ataque" em outro local. Acredito que isto irá tirá-los de sua postura usual, já que a maioria deles (republicanos) não dançam, e são perturbados por aqueles que o fazem."
John Perry Barlow - Dancin in the streets (Revolution with a smile)

Mas não fica por aí... Na Wired deste mës está publicada a revisão do clássico de 94, "The Economy of Ideas" -- no novo texto Barlow expõe sua visão sobre a atual situação da revolução fomentada pelo ambiente digital:

"Finalmente explodiu a grande guerra cultural. Longamente aguardada por alguns, e uma amarga surpresa para outros, a batalha entre a era industrial e a era virtual está agora sendo travada de forma aberta, graças a uma coisa concebida de forma modesta, mas com a potência de implodir um paradigma - o Napster"
John Perry Barlow - The Next Economy of Ideas (Wired)

E na ReasonOnline encontramos uma entrevista também destinada a se tornar um clássico. Barlow, o "Thomas Jefferson do ciberespaço", demonstra claramente em suas respostas que está pronto para atuar fortemente no cenário político americano, disposto a tudo para reverter a lógica alucinatória do governo Bush que se multiplica nas consciências anestesiadas através do discurso hipnótico das telas estúpidas (a sua TV):

"Temos agora duas formas distintas de recolher informações, além do que você mesmo pode experimentar através dos sentidos próprios. Uma delas é menos uma mídia do que um ambiente - a Internet - com uma enorme multiplicidade de pontos de vista, e inúmeras formas de se descobrir o que está rolando no mundo. Muitas pessoas estão sintonizadas nesta onda, e milhões de pontos de vista floresceram. Este movimento cria uma cacofonia de posicionamentos que não se consolidam em um discurso político coerente -- formam uma linda discussão, mas não reúnem a capacidade de criar grandes blocos de crença.
A outra mída, a TV, agrega hoje uma porcentagem bem menor de espectadores do que no passado, mas estes usuários adquirem TODAS as informações através da telinha -- e se transformam em um bloco de crença muito uniforme. A TV na America criou o campo de distorção da realidade mais coerente que eu já vi. E aqui está o problema: as pessoas que votam assistem a TV, e estão alucinando como um fdp. Basicamente o que estamos assistindo neste país é o governo através da alucinação coletiva
"

John Perry Barlow - Interview to Reason Online

Todos às guerrilhas dançantes!

* Outras referências de JPB:

- A Declaration of the Independence of Cyberspace

- Selling Wine Without Bottles: The Economy of Mind on the Global Net

- Discurso do Ministro Gilberto Gil que cita o texto acima

sexta-feira, agosto 20, 2004

Concurso de Games do MinC
- Exercitando narrativas emergentes

Está no ar o link para o "Concurso de Jogos Eletrônicos Brasileiros", iniciativa do Ministério da Cultura no sentido de reconhecer o universo dos games como campo fértil para ações culturais estratégicas, e apoiar o desenvolvimento de uma linguagem nacional para este setor que não para de se expandir.

Para nós que estamos no exercício conceitual e prático da Ecologia Digital, é uma satisfação ver um projeto de governo embutir conceitos concebidos e desenvolvidos de forma coletiva na rede, e que introduzem a Co-Laboração no DNA das interfaces. Fica como uma pequena amostra de que o chefe não está falando à toa. E quando pensamos nas possibilidades das narrativas emergentes, e nas articulações xemelentas dos "pontos de cultura"... Como diz o Dpádua - Medo!

Valeu galera: Alfredão, Cadu, Sandro, Dpádua, Uirá, Ronaldo na ponta da linha, e o resto da galera. Vou prá Piri...


quarta-feira, agosto 18, 2004

FUD Microsoft em baixa
- Declarações causam risos em press conference

Deve ser realmente muito chato quando a estratégia FUD da empresa onde você trabalha leva o público de sua conferência a um ataque de risos. Pois foi o que aconteceu com a Microsoft quando do anúncio do acordo com Newham, um distrito de Londres (via GrokLaw).

"It takes a lot to raise a laugh at an IT press gig, but this news tickled the spot for the journalists at today's press conference in London."
The Register - Newham and Microsoft sign 10-yr deal

A reação aconteceu quando foram apresentados os resultados de uma auditoria específica realizada pela empresa CapGemini, que entre as principais conclusões apresentou que além de ser mais barata , a plataforma Microsoft seria também mais segura que as soluções open source. Para rir mais um pouco: Get the facts.

Tudo indica que a M$ (e outros) está gastando um tanto de grana para não perder a conta de governos. Já em 2003 havia notícia da existência de fundos especiais para a manutenção de política de descontos estratégicos, como ilustra texto de e-mail de Orlando Ayala:

'"Under NO circumstances lose against Linux", he said, saying that in cases where the deal involved governments or large institutions there was a special fund available which could be used to offer large discounts, or even to give Microsoft software away.'
The Register - MS ‘slush’ fund provides big discounts to stop Linux – email

Neste momento a guerra se acirra, e a rede acompanha:

Por aqui, estamos melhor. Mas rolou muita coisa estranha, até de processarem o Serginho, que faz aniversário esta semana, por mencionar que a Microsoft usa táticas de traficantes de drogas. Entretanto, o próprio Bill falou...

terça-feira, agosto 17, 2004

As línguas na rede
- números

Através do Brainstorms achei um site interessante que acompanha desde 95 a evolução do espaço ocupado pelas línguas na rede. Veja abaixo uma formatação ordenando pelo número de pessoas com acesso à Internet. Boa informação aos navegantes e principalmente aos interessados na ecologia digital.
































































































Acesso
à Internet (M)
%
da população online
2004
(prev.em M)
População
Total (M)
English 287,5 35.8% 280 508
Chinese 102,6 14.1% 170 874
Japanese 69,7 9.6% 88 125
Spanish 65,6 9.0% 70 350
Korean 29,9 4.1% 43 78
French 28,0 3.8% 41 77
Portuguese 25,7 3.5%
32 176
Russian 18,5 2.5% 23 167
Malay 13,6 1.9% 12 229
Dutch 13,5 1.9% 14,5 20
Arabic 10,5 1.4% 12 300

Estes dados, juntamente com o fenômeno orkut/fotolog, podem gerar boas reflexões...

Veja também:

"Estadounidenses, you've gotta get your groove on and get those línguas in shape because, if the revolution will not be televised, it will most certainly not be broadcast in English either.
Precisam prestar atenção!"

quarta-feira, agosto 11, 2004

Cultura Digital e Desenvolvimento
- A palavra forte do nosso ministro hacker

Este é o "chefe", Ministro Gilberto Gil, proferindo Aula Magna de abertura dos Programas 2004/2005 da Cidade do Conhecimento da USP com o título "Cultura Digital e Desenvolvimento". É um texto irado e brilhante - só conferindo:

"...mais interessante de tudo isso é que este movimento (software livre) surgiu na sociedade, e não nas empresas, nos partidos, nas entidades, nos modos de representação ou de organização tradicionais, o que implica uma mudança estrutural, profunda, não apenas de conteúdo, mas de forma, de processo, que se reflete no que se diz, no que se propõe, e também em como se diz, em como se propõe.

Tudo tem acontecido de forma descentralizada, fruto do trabalho coletivo de gente que tem interesses, desejos e bagagens culturais diversas, mas que decidiu trabalhar de graça, dando inclusive um novo sentido à palavra trabalho, para que mais e mais pessoas, no mundo inteiro, possam ser donas de seu destino ou ter uma vida melhor, o que significa, nos dias de hoje, inclusão digital (...)

É com otimismo e alegria que devemos saudar as iniciativas e as experiências de inclusão digital e de adoção do software livre, assim como o debate que se trava sobre os impactos da cultura digital sobre os direitos autorais, com as propostas de novas formas de licenciamento e gestão de conteúdos, a exemplo das creative commons, que abrem perspectivas inteiramente novas, diferentes, oxigenadas, para temas antes prisioneiros das várias formas de ortodoxia analógica.(...)

Atuar em cultura digital concretiza essa filosofia, que abre espaço para redefinir a forma e o conteúdo das políticas culturais, e transforma o Ministério da Cultura em ministério da liberdade, ministério da criatividade, ministério da ousadia, ministério da contemporaneidade. Ministério, enfim, da Cultura Digital e das Indústrias Criativas. (...)

Vocês certamente sabem, mas não custa destacar: existe uma comunidade, uma cultura compartilhada, de programadores e pensadores, cuja história remonta aos primeiros experimentos de minicomputadores. Os membros dessa cultura deram origem ao termo "hacker". Hackers construíram a Internet. Hackers idealizaram e fazem a World Wide Web. E amentalidade hacker não é confinada a esta cultura do hacker-de-software. Há pessoas que aplicam a atitude hacker em outras coisas, como eletrônica, música e nas ciências humanas. Na verdade, pode-se encontrá-la nos níveis mais altos de qualquer ciência ou arte.(...)

Eu, Gilberto Gil, cidadão brasileiro e cidadão do mundo, Ministro da Cultura do Brasil, trabalho na música, no ministério e em todas as dimensões de minha existência, sob a inspiração da ética hacker, e preocupado com as questões que o meu mundo e o meu tempo me colocam, como a questão da inclusão digital, a questão do software livre e a questão da regulação e do desenvolvimento da produção e da difusão de conteúdos audiovisuais, por qualquer meio, para qualquer fim."


A manifestação do ministro é também uma resposta às inúmeras críticas ao projeto da Ancinav, que se misturaram a uma matéria "no mínimo engraçada" no Estadão - "Governo quer controlar conteúdo da internet":

"Ontem, por exemplo, um grande jornal de São Paulo estampou em chamada de primeira página: o Ministério da Cultura quer controlar a Internet. Ora... Isso ofende a minha inteligência, a minha história, a minha sensibilidade. E a inteligência dos próprios leitores."

Valeu chefe! Os cães vão latir, mas a caravana vai passar.

terça-feira, agosto 10, 2004

Ayahuasca nos centros urbanos
- Reinventada?

Aproveito o momento para anunciar o lançamento de um livro que pode interessar a muitos leitores da Ecologia Digital. Minha amiga Bia Labate estará autografando "A Reinvenção do Uso da Ayahuasca nos Centros Urbanos" amanhã, na Livraria Cultura que fica no shopping Villa-Lobos - Av. Nações Unidas, 4777, em sampa. Vai rolar show e intervenção do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos - NEIP.

Não li o livro, mas depois de muitas conversas com a Bia tenho certeza que o assunto está bem abordado. E depois que ler, volto nos comentários para registrar o que achei.

segunda-feira, agosto 09, 2004

Sinais de adaptação na ecologia open source
- Monitorando a Oscon e a Linux Expoworld

O Doc apresenta o rescaldo dos dois eventos fortes do mundo open source acontecidos recentemente - a Oscon e o Linux Expoworld. Destaco a identificação dos atores principais da dinâmica que estamos todos observando no desenvolvimento do mercado de software livre. Muito ilustrativo:

"Eu vejo duas divisões fundamentais. Uma é entre a infra-estrutura open source não-comercial e os serviços e produtos comerciais que dependem dela. A segunda é entre as comunidades tradicionais de desenvolvimento open source e a crescente população de praticantes para quem o principal benefício do modelo está na gratuidade dos componentes, e para quem as motivações básicas das comunidades de desenvolvimento originais (liberdade, por exemplo) não têm muita importância. Estas não são divisões que se opõem - vejo-as como papéis simbióticos em um mercado que amadurece e prolifera, e no qual novas espécies, totalmente dependentes do open source, estão surgindo para dominar o ambiente comercial."
Adaptations - Doc Searls - Linux Journal


AVISO AOS LEITORES: Neste momento, muitas pendências têm impossibilitado qualquer atenção a este blog, o que não significa que eu esteja completamente fora de circuito. Por agora estarei postando neste endereço (Links Ecodigital)(XML) sobre o que estou observando no ambiente digital, e em breve voltarei a postar por aqui.

terça-feira, julho 13, 2004

Blogando esplanada à fora
- Da ciência e da tecnologia para a cultura

Desde a última blogada, no dia de São João, estive às voltas com minha transferência para o Ministério da Cultura, onde fui convidado a ocupar o cargo de Gerente de Informações Estratégicas - até então estava no Ministério da Ciência e Tecnologia, onde por algum tempo fui Coordenador de Informação e Difusão Científica. Nos últimos 12 meses porém, em meio à onda de nomeações políticas que varreu a esplanada no ano passado, estava meio que encostado no MCT, fora da esfera de decisão. Portanto, a mudança para o MinC dá novo impulso à minha atuação profissional, e este blog, como manifestação direta do que estou obervando e raciocinando, irá de certa forma refletir esta mudança, e por isto considerei melhor declará-la a quem acompanha as elocubrações da Ecologia Digital.

E também é motivo que justifica esta declaração o fato deste blog ter, de certa forma, contribuído para o acontecimento da nova colocação - ao dar visibilidade pertinente a uma nova forma de agregar e difundir informações. Ontem mesmo estava lendo a introdução do livro do colunista do San Jose Mercury News, Dan Gillmor, "We The Media", que apresenta a visão do jornalista assimilando a potencialidade das ferramentas de publicação pessoal. "As empresas e o mundo dos negócios inevitavelmente tentarão cooptar os blogs", afirma Gillmor em artigo da BusinessWeek ("Blogging With The Boss's Blessing"). A tendência observada mostra que as fronteiras que confinavam a influência e o significado dos blogs estão caindo uma após a outra. E então: nós somos a mídia? Enquanto tal, sou funcionário de governo.

De fato, experiências como a da Microsoft com o Scoble resultaram no lançamento do Channel9 (canal direto com desenvolvedores) e no recente portal de blogs(!) das "comunidades" de Redmond, com vasta utilização de RSS e OMPL. A Sun também não fica atrás, com Jonathan Schwartz (o presidente) puxando o carro. A Groove Networks, do Ray Ozzie, foi a primeira empresa a publicar sua política de blogs - Sun e Microsoft (via Scoble) também já exercitam alguma estrutura no processo. A novidade dos últimos dias é a entrada de Michael Powell (FCC) na blogosfera, o que inaugura o diálogo direto de agências governamentais com seus usuários através do modelo "post & comments", o que pode deixar muito lobista analógico sem emprego (veja os comentários do Tanglao à respeito, juntamente com um artigo instigante - "PR is dead").

De minha parte, penso que a cultura blog pode revolucionar a gestão da informação e da comunicação governamentais. No MCT consegui emplacar o primeiro site .gov brasileiro com a funcionalidade dos comentários (veja o post-it no fim da página), e a possibilidade de publicação de blogs temáticos, mas não houve espaço e circunstância para uma verdadeira apreciação da proposta. Minha alegria no momento vem da impressão de que é na cultura que esta idéia pode dar resultado mais rapidamente. Um projeto como o "Pontos de Cultura", concebido a partir da conversa de blogs, wikis e listas de discussão entre atores interessados, traz em sua essência o conceito de colaboração participativa, e convida (quase impõe) à adoção de novas tecnologias.

Bem, a alegria não é só minha, e surge da percepção de que é plenamente possível pensar política governamental no Brasil hoje e emplacar um belo sorriso no rosto, que significa a certeza de que podemos fazer um bom trabalho. Conto com toda a galera, e podem contar com a Ecologia Digital, agora na Cultura.





quinta-feira, junho 24, 2004

De olho no "Induce Act"
- A nova ameaça ao meio ambiente digital

Senadores americanos (Orrin Hatch and friends) estão colocando em votação lei que criminalizaria ações que "induzem" a infrações sobre copyrights - "Induce Act", o copywrong da vez.

Mesmo de longe, é bom acompanhar esta embrulhada e estar atento nas argumentações. A rede está cheia de impressões e manifestações. O Lessig indica como contactar os tais senadores, e o Public Knowledge se manifestou através de Art Brodsky:

"Ninguém mais irá desenvolver ou investir em tecnologias inovadoras se o simples fato de que as mesmas sejam utilizadas de forma "ilegal" seja suficiente para tornar inventores e investidores imputáveis da "culpa".
Public Knowledge Says "Inducing Infringement" Act is "Overbroad"

De quebra, e totalmente no clima, aí vai um trecho da apresentação do Cory Doctorow sobre DRM* na Microsoft(!). Difícil saber se ficção ou realidade (tem até áudio online), mas simplesmente super (veja a ótima tradução integral do Silvio Meira):

"Sistemas de DRM não funcionam
Sistemas de DRM são quebrados em minutos, ou dias. Raramente, meses. Não porque as pessoas que os criam são estúpidas, e não porque as pessoas que os quebram sejam espertas. Não também porque existem falhas nos algoritmos. Ao final do dia, todos os sistemas DRM compartilham de uma mesma vulnerabilidade: provêem a seus agressores o texto cifrado, o código e a chave. Neste ponto, o segredo não é mais segredo."

DRM é ruim para a sociedade
Aqui está a razão social porque DRM falha: promover a honestidade de um usuário honesto é como incentivar a altura de um usuário alto. Vendedores de DRM afirmam que sua tecnologia foi desenvolvida para ser uma defesa contra o usuário médio, e não gangues do crime organizado como os piratas ucranianos que desovam milhões de cópias de alta-qualidade. Não foi criado para ser uma defesa contra garotos sofisticados, ou contra qualquer um que saiba como editar seu registro, ou pressionar a tecla shift no momento certo, ou usar uma máquina de busca. Ao final do dia, o usuário de quem o DRM irá nos defender será o menos capaz no universo dos usuários."
Cory Doctorow - Microsoft Research DRM talk.

(*) DRM - Digital Rights Management - Gerenciamento de Direitos Digitais é um termo guarda-chuva para inúmeros arranjos pelos quais o uso de conteúdo sob a proteção de copyright pode ser restringido pelo proprietário dos direitos. As tratativas atuais detêm-se na discussão dos TPMs (Technical Protection Measures - Medidas Técnicas de Proteção) - ou seja, dispositivos instalados no hardware, por força de leis criadas pelo lobby da indústria de conteúdo, com a finalidade de mutilar as possibilidades inovadoras de seu computador pessoal. (Wikipedia) Exs.: "Broadcast Treaty", "Broadcast Flag", etc.

E Viva São João!!

quarta-feira, junho 16, 2004

O Brasil Tem Direito de Escolher... e se defender do ataque do monopolista

Era só o que faltava. O desespero começa a tomar conta da galera montada nos dólares microsoftianos, e o ataque vai direto na pessoa de Sérgio Amadeu, diretor-presidente do ITI. O "Pedido de Explicações" apresentado pela monopolista na 3.ª Vara Judicial de Barueri (SP), tendo como base a Lei de Imprensa, se deve a declarações de Amadeu contidas em entrevista à revista Carta Capital - onde afirmou que a empresa reproduz "prática de traficante" ao oferecer software grátis a governos para projetos de inclusão digital.

Não há muito o que dizer sobre isto. É preciso apenas manter a mobilização e a atenção, e apoiar amplamente o campanha em solidariedade a Sergio Amadeu. De quebra, apenas uma citação estratégica, via corporatewatch.org:

"Existe uma fácil analogia entre alguns desenvolvedores de software e os traficantes de drogas. Ambos fazem doações de versões iniciais de seu produto, seja na forma de presentes explícitos ou tratando de criar segurança insuficiente contra a pirataria. Havendo estabelecido a dependência entre os usuários do produto, passam a elevar os preços e reforçar os controles sobre propriedade intelectual.

Chris Williams, Diretor de Desenvolvimento de Produto da Microsoft explicou sua atitude à pirataria de software na Ásia: 'Estamos inundando o mercado com cópias... o objetivo é... que quando as pessoas tiverem que comprar o software, já conheçam o nosso produto e tenham que comprá-lo quando as leis forem aprovadas. Estamos basicamente adquirindo fatias do mercado. Tão logo comecemos a obter retorno neste investimento, será gigantesco'."
(‘Microsoft Secrets’ by Michael A Cusumano & Richard W. Selby (1995), p284-5).

E para não deixar nosso colega Sergio falando sozinho, vamos se ligar nos movimentos de apoio, que estão começando com a formação de uma comunidade no Orkut. O Brasil Tem o Direito de Escolher!

UPDATE: Veja abaixo assinado no PetitionOnline.
IMPERDÍVEL: Leia "A Eucaristia Digital"(com follow-up do caso) de Pedro Rezende, e Linus, We Love You: A Report from the 5th International Free Software Forum, in Linux Journal.

UPDATE 2 (19/06): Agora pegou!! Deu no Lessig, e no Slashdot, e no Phipps, e até no Scoble (o Microsoft blogger). Também News Forge e Inquirer.

terça-feira, junho 08, 2004

Enquanto isso, na WIPO em Genebra...
- Comitê discute "proteção às organizações de broadcast"

Via BoingBoing: Cory Doctorow está acompanhando a 11ª reunião do "Comitê Permanente sobre Direito Autoral e direitos correlatos", juntamente com a maior coalizão de interesse público jamais reunida em um evento da WIPO (World Intelectual Property Organization).

A batalha da turma é em cima do "Broadcast Treaty", que sob o manto de salamaleques diplomáticos esconde dispositivos que podem "tornar a web ilegal, e determinar que governos tenham mandato sobre o desenho de todo e qualquer aparelho capaz de receber um sinal, do PC ao rádio". Segundo James Love (CPTech), este tratado

"é um eco da "Broadcast Flag" concebida pelo FCC americano, que vai requerer a permissão dos gigantes do copyright antes que qualquer nova tecnologia possa ser apresentada ao mercado, e que irá banir o software livre do contexto de uso da TV digital."
James Love - Note on the Proposed WIPO Treaty for Broadcasters, Cablecasters and Webcasters

Na questão do "Database Treaty" (há uma versão de 1996 publicada na rede), que já foi comentado por coders e considerado o "menos equilibrado e mais anti-competitivo direito de propriedade intelectual jamais concebido", existe uma tentativa dos EUA em manter o assunto na agenda. A delegação brasileira neste momento lidera a oposição à manutenção do tema em pauta:

* Brasil: Estamos nessa há tempos. Não há entendimento claro sobre o potencial de impacto econômico e social da proteção às bases de dados. É prejudicial à inovação, à ciência, à educação, ao livre acesso à informação, etc., particularmente em países em desenvolvimento. Solicitamos que este assunto seja permanentemente deletado da agenda."
Posição brasileira
11ª reunião do "Comitê Permanente sobre Direito Autoral e direitos correlatos"

Como em outras ocasiões, a delegação brasileira é motivo de orgulho para nós. A UPD (Union for the Public Domain) também apresenta um relato da 11ª Reunião do Comitê, ocorrido ontem - 07/06. Vamos acompanhar.

UPDATE: A sessão de hoje está publicada no site da EFF, e mais uma vez destaca a a coragem da posição brasileira em ser totalmente contra que qualquer TPM (Technical Protection Measures) seja incluído em um novo tratado. Os brasileiros reconhecem que apesar de presentes em tratados antigos (WCT e WPPT), tais restrições apresentam-se hoje "inconsistentes com o necessário livre fluxo de informação tão importante para encorajar a inovação e a criatividade no ambiente digital". Votam pela exclusão completa do artigo 16, que versa sobre as TPMs. Isto é Ecologia Digital.

UPDATE2: Veja no site Ecologia Digital - "O Brasil e as ONGs na Wipo em Genebra"

segunda-feira, junho 07, 2004

5 FISL na rede
- A revolução não será televisionada

Retornando à Brasília gripado e sofrendo com atrasos de vôos, depois de um domingo totalmente offline com os meninos em sampa, que se seguiu a uma viagem alta após uma trabalho de mesa branca (com presença de D. Maria Brilhante) no Céu do Cruzeiro do Sul (Viamão) que durou toda a noite, tento captar o que está sendo falado sobre o 5FISL na rede.

O BR-Linux, que publicou um resumo do que rolou, sacou que a Info não cobriu o maior evento de software livre da América Latina. Por outro lado, o Slashdot ofereceu boas referências sobre a real importância do evento. Tim Bray, recentemente contratado como blogueiro pela Sun, registrou a presença de Simon Phipps no evento (e eu também). Phipps por sua vez postou grandes elogios ao evento, e destacou a"ironia, para não dizer arrogância" dos comentários críticos ao presidente Lula desferidos pelo Presidente da Microsoft no Brasil, Emilio Umeoka - blogou também sua admiração sobre como a comunidade Java tupiniquim está completamente inserida no movimento open source.

O Glenn Otis do Creative Commons também blogou contando tudo sobre o evento, e Maddog publicou sua visão no Linux Journal. OOPPS! Outras coisas a fazer...

sábado, junho 05, 2004

Lessig, Maddog e Gilberto Gil no 5 FISL - Está lançada a "Reforma Agrária da Propriedade Intelectual"

O dia hoje no FISL aqui em Porto Alegre esteve voltado para a sessão do fim do dia no auditório grande: o debate "Creative Commons". Desde cedo era grande a movimentação na central de Cultura Digital do MinC - uma saleta no local de exposições que pude testemunhar ter se prestado a todo tipo de compartilhamento, em vários formatos: estúdio, sala de reunião, dormitório hacker, telecentro comunitário, depósito de equipamento, e até stand da Creative Commons. Havia também uma certa tensão no ar pela notícia de que o ministro Gil chegaria atrasado em função de uma reunião com Lula.

Andando pelos corredores logo após o almoço esbarrei com Lawrence Lessig, e ao tirar a foto reparo que ele parece muito com Clark Kent. Mais tarde, ao abrir sua brilhante exposição no painel, o super-homem do ativismo digital explicou que foi inspirado por Stallman quando concebeu os princípios das licenças Creative Commons: construir liberdade por sobre o sistema de direitos autorais vigente de forma a garantir aos autores de software a liberdade permanente de seus trabalhos - recombinar os elementos do sistema aprisionante para assim libertá-lo. De fato, trata-se de uma transposição do conceito do software livre para o âmbito da cultura.

Lessig apresentou um discurso irado com a situação atual de seu país (EUA), que ostensivamente marginaliza movimentos como o do software livre e o da cultura livre - classificando-os como comunismo ou roubo. Lessig culpa os financiadores de campanha pelo convencimento dos representantes eleitos de que o software livre destrói o software, asim como a cultura livre destrói a cultura. E declarou emocionado ter encontrado em Gilberto Gil e no Brasil uma oportunidade de renovar o debate sobre os novos marcos regulatórios necessários para as novas possibilidades do processo criativo.
"Eu venho de uma terra que está perdida. Vocês são nossos irmãos, e devem nos lembrar do que nos esquecemos. Perdemos valores que pregamos e ensinamos ao mundo no passado. É tempo de vocês nos ensinarem este valores, de novo."
Lawrence Lessig - 04/05/04 - 5 FISL
John Maddog Hall sentou-se no centro da mesa. Foi no momento que Claudio Prado pediu que ele oferecesse seus comentários sobre o que Lessig, e William Fisher - que apresentou seu sistema alternativo - haviam dito, que chegou o ministro Gil. Maddog já desenvolvia algumas idéias, comparando a evolução do piano à evolução do software, quando o frisson no ambiente, numa platéia que lembrava em tudo o público de um show de rock'n'roll (como bem lembrou Marcelo Tas), irrompeu em algumas palmas de saudação ao deslocamento do ministro em direção à mesa do painel. Entretanto, a interrupção foi enérgicamente rechassada por boa parte do público, demonstrando o respeito e a consideração da comunidade para com o convidado. E quando Maddog retomou a palavra dizendo que iria ser breve pois o público talvez estivesse preferindo escutar outra pessoa, o grande auditório quase veio abaixo em protesto e saudação ao presidente da Linux Internacional. Finalizou:
"através dos tempos, as necessidades do bem comum mudaram, e o surgimento de novas tecnologias sempre trouxeram novos desafios. Acredito que este nosso movimento irá permitir o nascimento de uma nova era, não a era das grandes navegações, ou do longo período de tempo que as pessoas irão requerer para gerar dinheiro com suas criações, mas a era da Internet, que será conhecida pela velocidade e pela capacidade que estes recursos criam."
John Maddog Hall - 04/05/04 - 5 FISL
Gil quer 'reforma agrária' no campo
da propriedade intelectual
Gil, sem ter ouvido a fala de Lessig, citou um dos "Founding Fathers" - Thomas Jefferson, ao descrever "a ação do poder pensante chamado 'uma idéia': uma característica peculiar desta idéia é que ninguém a possui em parte, porque qualquer outro a possui no todo - aquele que recebe de mim uma idéia tem aumentada a sua instrução, sem que eu tenha diminuido a minha." E declarou também que
"esta cultura digital que hoje estende sua teia por todo o planeta, viveu momentos decisivos sob o signo do pensamento transformador, e mesmo sob o signo da utopia. Basta lembrar a conquista contracultural do micro computador. A contracultura se responsabilizou em trazer o computador do plano industrial-militar para o plano do uso pessoal. Da mesma forma aconteceu uma espécie de migração contracultural das hostes psicodélicas para os laboratórios de alta tecnologia e para o sonho da realidade virtual. A California era naquele momento um centro da viagem contracultural, e um centro de alta pesquisa tecnológica. Tudo se misturava: Janis Joplin e a engenharia eletrônica, alteradores de consciência e programadores de computador."
Ministro Gilberto Gil - 04/05/04 - 5 FISL
Citou o geógrafo baiano Milton Santos e sua demografia otimística, e também John Perry Barlow, especialmente o artigo de 1995, "Vendendo Vinho sem Garrafas". Falou que poucas pessoas estão cientes da enormidade das mudanças fundamentais que estão ocorrendo neste momento, e menos ainda os advogados e os funcionários públicos. É preciso fazê-los estar cientes.

Sergio Amadeu comentou adicionalmente que as idéias não estão sujeitas à escassez, e portanto não se justifica a objeção ao seu livre compartilhamento. "Querem nos convencer que a inteligência seria um bem escasso?" Afirmou que o movimento do software livre demonstra que a inteligência é um bem disperso na sociedade, e que as leis de propriedade intelectual, da forma como estabelecidas hoje, parecem ter o objetivo de "impedir o excesso de inteligência". Ressaltou ainda o sentido histórico do painel, e a peculiaridade de um governo e um povo que promovem um movimento de vanguarda tecnológica capitaneado pelo ministério da cultura.

No dia em que o super-homem pediu help aos hackers brasileiros, muita coisa há para ser contada, mas fica para depois. A atividade social da comunidade em POA me chama a outras paragens.

sexta-feira, junho 04, 2004

Forum Internacional de Software Livre
- Vozes da "tecnologia que liberta" se encontram em POA

Sergio Amadeu na Abertura do 5 FISLA abertura do 5 FISL foi marcada pelo discurso de Sérgio Amadeu, que levou à audiência um recado do ministro Zé Dirceu: de que em nome de uma política tecnológica autônoma para o país, havia sido quebrada a reserva de mercado (do software proprietário). Em seguida enumerou 5 motivos principais para a decisão de governo: economia em pagamento de licenças, necessidade de domínio do código fonte, segurança da informação, autonomia em relação a fornecedores, e promoção do compartilhamento do conhecimento.

Na sequência, em painel sobre "as próximas batalhas" do SL, Amadeu enumerou embates previstos para breve nos âmbitos tecnológico, político-tecnológico, e jurídico (nacional e internacional). Nas questões tecnológicas, ressaltou que a força, união e capacidade técnica da comunidade - amplamente demonstradas no evento - são garantias de que as batalhas serão vencidas (ex: Javali).

Ao mencionar o campo político-tecnológico, Sérgio lembrou a finada "Coalizão para a Livre Escolha de Software", encabeçada pela Câmara E-Net, e os diversos "estudos" provando as vantagens do Windows em relação ao Linux como manifestações de preocupação dos beneficiários do monopólio. No campo jurídico registre-se a recente vitória do bom senso obtida na decisão do TCU que torna obrigatória a licitação de software, o que evitará a tão comum "venda casada". Esta onipresente prática parece não ser do conhecimento apenas dos conselheiros do CADE, que absolveram a Microsoft de praticá-la.

Soma-se a isso o caso SCO, os recentes ataques a Linus Torvalds, e a ação de instituições como a Alexis de Tocqueville. Em nível nacional uma grande preocupação é o acordo da Alca que embute o DMCA e a patente de software. Sérgio sugeriu oportunamente que se acompanhe os demonstrativos sobre o financiamento das campanhas eleitorais, pois trata-se de uma forma eficaz de sabotar um movimento de eliminação de privilégios.

Marcelo Thompson, procurador do ITI, foi o palestrante seguinte, e discorreu sobre a juridicidade do SL na administração pública. Mostrou como tanto a Constituição como a Política Nacional de Informática respaldam as diretrizes do governo federal em relação ao SL. Utilizou a metáfora do Orkut para demonstrar como o cógido pode conformar as relações sociais e, por consequência lógica, também as relações políticas, sendo a abertura dos códigos portanto, fundamental para a soberania, a democracia e a cidadania.

Ziller no 5 FISLMuita coisa interessante acontecendo nas paralelas, nos encontros fortuitos e nos relatos de colegas sobre painéis que não vimos. O restaurante é uma maravilha de 11 reais, e as instalações da PUC são realmente cativantes e confortáveis. Mas foi no fim da tarde que Pedro Jaime Ziller, presidente da Anatel, veio explicar a um público muito interessado como se articulam o FUST, o SCD, o Gesac e a TV digital na política de telecomunicações brasileira. Também na mesa Claudio Prado (MinC) e Marcelo Branco (PSL-RS).

Para cumprir a meta de universalização de acesso do FUST, foi necessária a concepção de um novo serviço, o Serviço de Comunicações Digitais (SCD), que esteve em consulta pública e deve começar a operar em outubro desse ano. Isto envolve a criação de concessionárias (estipuladas em 11) que distribuirão as regiões entre si. Não entendi bem quando PJ disse que o serviço seria uma "grande intranet". Mais próximo disso me pareceu o Gesac, que já está em 2.620 escolas, 400 localidades de fronteira e 180 telecentros comunitários, conectando 28 mil computadores. Tem Gesac até no Céu do Mapiá!

Sobre a TV Digital, Ziller informou que R$ 65 milhões do Funttel foram aplicados em pesquisa em parceria com 30 universidades, para que em março de 2005 tenhamos um modelo de referência da TVDB. Mencionou como cenário a possibilidade do mercado demandar conversores (com mouse e teclado) para 60% dos 65 millhões de aparelhos de TV analógicos, que poderiam assim se conectar ao sistema digital e à Internet. Somente a comercialização do conversor (com preço imaginado em 200 reais) poderia gerar um negócio de 8 bilhões de reais em cinco anos!

Morimoto e o Kurumim no 5 FISLNa sala ao lado estava rolando a apresentaçäo do novo Kurumim com o Morimoto, mas eu só peguei o finalzinho. Um evento muito bom tem estes problemas - muita coisa boa para acompanhar, e pouco tempo.

Hoje tem Gilberto Gil e Creative Commons...

Update: Para esquentar o frio, conheça a versão em português dos filmes Creative Commons - Seja Criativo e Remixe a Cultura.

quinta-feira, junho 03, 2004

(Re)conhecendo a PUC do Rio Grande do Sul
- E também os amigos, e o open source, e o churrasco, etc...

PUC-RSA viagem foi boa tanto quanto pode ser ao se fazer duas escalas antes de chegar ao destino. Mas em Porto Alegre, às 11:30, logo estou entre a irmandade - sempre acolhedora. Um almoço familiar acaba por retardar um pouco minha movimentaçäo em relação ao evento, mas provê o sentido de se sentir em casa.

Ao chegar no local do 5 FISL - a PUCRS, percebo que já estive por aqui, talvez em 2000 para trabalhar na SBPC. Em meio a caras conhecidas, e outras nem tanto, sigo a pista para perceber entre as atividades "pré-evento" qual a mais interessante. Na luta pela inscrição, auxílio precioso de Claudio Prado e hackers associados, que acabavam de piratear mesas, cadeiras e pontos de rede para a formação do bunker da Cultura Digital no evento.

Seguindo o rastro de algumas camisetas "Javali" (Java Livre, contra a "Armadilha Java"), cheguei à apresentação de Simon Phipps, da Sun*. A argumentação da Sun é engenhosa e enfatiza o advento da conectividade massiva como a variável determinante para a existência do open source. Mas desvia todo o foco da discussão para a questão dos padrões - o que acaba deixando a comunidade com "cabelinhos em pé". Com tudo isso, as notícias do dia dão conta de movimentos interessantes em relação a Java e Solaris

O resto do dia foi churrasco e futebel, bom para esquentar o coração e o estômago. Amanhã é que começa mesmo o 5 FISL.

(*)Me chamou recentemente a atenção a informação contida no "Abrindo o Código" de que a Sun teria sido a única empresa de Silicon Valley a não permitir a famoso teste de urina para detectar os funcionários que utilizavam drogas... e que este fato teria influcenciado o curso da história da Internet... continua nos comentários... 


quarta-feira, junho 02, 2004

Abrindo o Código
- Rumo à Porto Alegre

Sol nascendo em Brasília, no Aeroporto, no embarque para POACá estou eu fazendo a mala para embarcar às 06:50 rumo ao 5 FISL em Porto Alegre, que já está com a programação disponível. Trata-se, segundo Luis Nassif (que antes pensava assim, mas agora mudou de idéia), do maior evento de software livre no mundo:

"Administradores de todos os níveis, herdeiros de Woodstock ou engravatados de Harvard: fiquem de olho no encontro, porque é uma revolução irreversível rumo ao futuro."
"A Revanche de Woodstock" - Luis Nassif (Folha de São Paulo) - 21/05/2004

Meu objetivo é fazer uma cobertura blogueira sobre o que de mais interessante eu puder testemunhar por lá. Mais uma citação para dar o clima do evento:

"O que nos une: liberdade, cooperação, esperança - cada um é uma multidão ao poder contar com o trabalho dos outros, e esta liberdade, que significa em ultima instância o sonho de solidariedade que move as pessoas em busca de um mundo melhor, é que devemos lutar juntos para preservar e consolidar."
"Uma Comunidade" - Ricardo Rivaldo - SoftwareLivre.org

Na correria da saída ainda deu para publicar no Ecologia Digital 3 capítulos da versão portuguesa de "Open Source Democracy", de Douglas Rushkoff - Abrindo o Código da Democracia. Aí vai o primeiro parágrafo:

"O aparecimento do espaço interativo pode oferecer um novo modelo de cooperação. Embora tenha desapontado algumas pessoas na indústria tecnológica, a ascensão da mídia interativa, o nascimento de um novo meio, a batalha para controlá-lo e a derrota dos primeiros vitoriosos neste campo, nos ensinou muito sobre a relação entre as idéias e o meio pelo qual são disseminadas. Aqueles que testemunharam, ou melhor, participaram do desenvolvimento do espaço interativo têm um entendimento bastante novo sobre como as narrativas culturais são desenvolvidas, monopolizadas e desafiadas. E esse conhecimento se estende, por alegoria e experiência, a áreas muito além da cultura digital, aos mais amplos desafios do nosso tempo."
"Abrindo o Código da Democracia" - Douglas Rushkoff

No clima. Calor humano no frio gaúcho. Aguardem notícias.