Na rede

segunda-feira, setembro 22, 2003

A Verisign "quebrou" a Internet?
- A reação da rede ao ataque do monopolista

O
serviço "Site
Finder
", lançado no último dia 15, foi duramente criticado
por "sequestrar" endereços com erros de digitação.
Ao invés de receber uma mensagem de erro, quem se enganou ao digitar
um domínio ".com" ou ".net" foi redirecionado para
o serviço Site
Finder
da Verisign, que oferece uma
lista de alternativas semelhantes, entre as quais algumas são links pagos.
O novo serviço certamente concede à Verisign enorme controle sobre
o tráfego online, e permite que tire lucros do monopólio que tem
sobre os domínios .com e .net.


Como bem aponta o Pedro
Dória
, o serviço da Verisign
"criou pelo menos um grande problema para os bons provedores de acesso.
Os sistemas anti-spam que estes usam fazem com cada email uma série de
testes. Um dos mais básicos é checar se o domínio do remetente
existe. Como todos os domínios passaram a ter por referência uma
página da empresa, todos passaram a "existir".
"


Na sexta-feira o ICANN liberou um "advisory"
anunciando que, devido à preocupação de grande parte da
comunidade online sobre os efeitos nefastos do "Site
Finder
", estaria solicitando à Verisign que retirasse o serviço
do ar até que relatórios mais específicos pudessem determinar
o grau de prejuízo e interferência causados pela iniciativa no
ecossistema da web. Ontem a Verisign respondeu
dizendo que irá aguardar os dados técnicos com o serviço
no ar, e também formará um painel de técnicos independentes
para analisar a questão.


A IAB (Internet Architectural Board) publicou
comentários
sobre a ocorrência, onde afirma que o serviço da Verisign vai contra
"dois princípios básicos da arquitetura da rede que têm
servido bem à comunidade online por muitos anos: o "Princípio
da Robustez" ("Robustness
Principle"
) e o "Princípio da Menor Surpresa" ("The
Principle of Least Astonishment
"), que prega que um programa deve se
comportar de forma a causar menor surpresa ao usuário
" ("The
Register
").


Vamos acompanhar o imbróglio mas, como afirma
James Turner
, da Linux World, podemos
identificar padrões semelhantes desta ação com outras perpetradas
pelas grandes corporações no sentido de conseguir lucros fáceis
e rápidos no ambiente da web, em detrimento da saúde geral da
comunidade online e do novo mercado de TI. Vide SCO
vs Linux
, o caso
Verisign
, e o recentíssimo movimento da ISO
em transformar os códigos
de países e línguas
(como en-US), os quais são utilizados
por todos os browsers no mundo, em um item gerador de royalties.


O que este último movimento pode significar? Talvez tenhamos que pagar
uma taxa para poder colocar um código de país num documento HTML,
ou num pedaço de código em Java. Não importa que estes
códigos (uns 200 por país) tenham estado disponíveis por
toda a web e em livros de referência há vários anos. De
repente, o dispendioso trabalho
de mantê-los - talvez num arquivo de Excel - requer um pagamento que cubra
os custos. É mole?!?


UPDATE
01 (24/09/03)
: Paul
Vixie
, do Internet Software Consortium,
que desde 1980 é um dos principais arquitetos dos protocolos da rede
e principal autor do BIND (Berkeley
Internet Name Domain), que implementa o DNS
(Domain Name System) na grande maioria dos servidores de domínio na Internet.
Foi o primeiro a ser procurado pela comunidade online para avaliar o estrago,
e em ótima entrevista
à OnLamp, Paul descreve bem os pontos
onde a iniciativa da Verisign interfere no ecossistema da rede:



  1. nos filtros de spam - como já explicado pelo Pedro
    Dória

  2. monetarização de áreas comuns da rede - sugerindo
    que outras instâncias responsáveis por registros sigam o mesmo
    caminho de inventar lucros em espaços não proprietários.

  3. questões de privacidade - pense em URLs com strings fazendo
    uma query, às quais se mal formadas irão na situação
    atual, ser armazenadas nos logs da Verisign, contendo passwords, logins e
    outras informações sensíveis.

  4. violação de padrões - inúmeros procedimentos
    ficam comprometidos pois todos os domínios passam a "existir"
    (responder), e quem sabe se a Verisign não passará a oferecer
    aos navegantes a compra do domínio procurado...

  5. prejuízo aos princípios de internacionalização
    da rede
    - anteriormente, a busca de um nome retornaria a mensagem de erro
    detectando e processando a resposta na linguagem da aplicação.

  6. comportamento inesperado - veja "Princípio da Menor
    Surpresa" ("The
    Principle of Least Astonishment
    ")


Paul Vixie (o ISC) está disponibilizando
um patch
para atualizar o BIND, o qual contorna a ação
predatória da Verisign
. No entanto, não acredita que esta
seja a solução real para o problema. Sintetiza
a situação atual de maneira sensata:



"Algumas pessoas acreditam que a administração do DNS
é uma questão de confiança pública, e que a Verisign
apenas presta o serviço de tomar conta do sistema, não caracterizando
assim nenhuma relação de propriedade. E agora a Versign abusou
desta confiança. Isto parece ser verdade. Há alguns dias não
importava muito se a Verisign era proprietária ou apenas tomava conta
do sistema, mas agora este tema é da maior importância. A Verisign
chutou um "cachorro adormecido", e isto caracteriza um ato estranho.
Será que cabia à Verisign tomar esta decisão, de forma
unilateral? Não deveria a empresar ter buscado uma permissão
para tal? E se isto for verdade, qual seria a entidade com autoridade suficiente
para dar esta permissão? Como resultado termos um grande debate sobre
as políticas da rede. Alguém irá decidir se a permissão
era necessária, e alguém irá decidir a quem esta autoridade
deve ser delegada."



O que podemos fazer?

Aqui é
o abaixo assinado para o ICANN, e aqui
é um voto que você pode dar ao CEO da Verisign,
o vivaldino chamado Stratton
D. Sclavos
. E vamos acompanhando o assunto aqui no Ecologia
Digital
.

sexta-feira, setembro 12, 2003

Brazil is ráquer
- Felipe Fonseca no festival mundial de mídia tática

O
brother Felipe, do Metáfora,
desembarcou no velho mundo para participar do Next
5 Minutes
em Amsterdam, e já manda
sinal
. O N5M4 é um festival
que reúne arte, campanhas, experimentos em tecnologia de mídia
e política transcultural. Um pouco mais:



"O Next 5 Minutes é um festival ocasional de larga escala
sobre ações de mídia tática ao redor do mundo.
Baseado em Amsterdam, o evento reúne - em combinações
variadas - 4 culturas distintas mas que se sobrepõem: ativismo social
e político, artes visuais, experimentação radical em
mídia de comunicação eletrônica e teoria crítica.
Esta reunião de temas não acontece aleatoriamente, mas reflete
o nexo que se incorporou em grande número de trabalhos individuais
e projetos coletivos para formar um padrão reconhecível de práticas,
o qual chamamos mídia tática.


O
Next 5 Minutes existe para enfatizar a questão da mídia. Um
dos principais valores da mídia tática está em lidar
diretamente e pragmaticamente com questões de mediação
em um tempo onde o acesso ao discuros público é obtido primariamente
através de mídia eletrônica. Neste contexto, exploramos
os formatos nos quais assuntos sociais e culturais de importância vital
são tratados em um ambiente de mídia em estado de expansão
radical e complexidade sem precedentes."



Vale à pena sacar a apresentação do Felipe, que deve estar
acontecendo agora, com o tema Brazil
is Hacker
:



"Povo Hacker - só 500 anos de história

O Brasil é Parangolé.
Hacker tropicalista que encontra na tecnologia a possibilidade de modificar
a linguagem da cultura tupiniquim. Parangolé você mesmo faz.
O Parangolé a gente mesmo faz. Colaboração na veia."



Estão por lá também o Ricardo Rosas (Rizoma.net),
Tatiana Wells (a do barraco
global
) e Ricardo Ruiz. Estaremos
acompanhando para trazer o que for relevante e pertinente.


UPDATE 01: No clima,
vale conferir o artigo do HD
na NovaE:
Parangolé
Brasil - No futuro seremos todos hackers



"Isto faz parte de uma nova maneira de pensar. Trabalhar para satisfazer
as necessidades vitais. Buscar a satisfação nas tarefas rotineiras.
Fazer da nossa existência algo mais importante. A internet facilita
esta aproximação. Libera a mente humana para estabelecer a diversidade.
O meio digital abre espaço para a criatividade. Estamos constantemente
trocando informações e recriando conceitos, seja com programas,
palavras ou imagens. O artesão volta à cena após tanto
tempo de segregação.
"



UPDATE02: O FF
mandou bem blogando lá dos países baixos (baixos?!),
e um link a se destacar é o diretório de ferramentas para mídia
tática. Quem for experimentando que vá compartilhando os resultados,
quem não viu, olha lá:



PLUG - The
Tactical Media Tool Builders Fair - Tools Featured at the Fair


quarta-feira, setembro 10, 2003

Buzz-i-metro, ou medidor temático da blogosfera
- Mais um termômetro das conversas no ambiente digital

Vi o Buzz-i-metro lá no Dave
Pollard
, e achei legal de postar aqui no Ecodigital.
A ferramenta monitora o número total de menções que um
determinado tema recebeu nas últimas dez semanas, e a tendência
semanal para até cinco temas de uma vez.
e monte o seu próprio Buzz-imetro (Buzz-o-meter). Olha
aí o meu:





domingo, setembro 07, 2003

Fama versus Fortuna
- Bom artigo sobre a economia do conteúdo grátis

Ao plantar no início do ano uma discussão sobre as leis de poder
que atuam na blogosfera ("Power
Laws, Weblogs, and Inequality
"), Klay
Shirky
gerou boas discussões aqui
e ali.
Esta semana publicou um bom artigo especulando sobre
o futuro dos micropagamentos
(micropayments) na web, onde achei esta interessante
descrição macroeconômica sobre o efeito da rede no binômio
Fama e Fortuna.



"A publicação analógica gera custo por unidade
- cada livro ou revista requer uma certa quantidade de papel e tinta, e gera
cutos de armazenagem e transporte. A publicação digital não.
Com um computador e acesso à Internet, você postar uma entrada
de blog, ou cem, para dez leitorres ou dez mil, sem pagar nada por postagem
ou por leitor. Na verdade, dividindo custos iniciais pelo número de
leitores significa que o conteúdo se torna mais barato na medida em
que se torna mais popular - o oposto do mundo analógico.


O fato de que o conteúdo digital pode ser distribuído sem
nenhum custo adicional não explica o enorme número de pessoas
criativas que disponibilizam seu trabalho de graça. Ao final, ainda
estão investindo seu tempo sem receber nenhum pagamento por isso. Porque?


A resposta é simples: criadores não funcionam como publishers,
e colocar o poder de publicar diretamente em suas mãos não os
transforma em publishers. Faz deles artistas com impressoras. Isto faz diferença
agora, porque pessoas criativas buscam a atenção de forma diferente,
mas antes da Internet isso pouco importava. O gasto de publicar e distribuir
material impresso é muito grande para ser oferecido gratuitamente e
em quantidades ilimitadas - mesmo livros "vanity press" tem algum
preço. Hoje um indivíduo pode atender uma audiência de
centenas de milhares como um hobby, sem nenhum publisher por perto.


Esta situação desmantela a velha equação
de "Fama e Fortuna". Para um autor ser famoso muitas pessoas tinham
que ler seus livros, e pagar por eles. Fortuna era um efeito colateral de
se alcançar fama. Agora, com o poder de publicar diretamente em suas
mãos, muitas pessoas criativas estão diante de um dilema que
nunca tiveram antes: Fama X Fortuna.
"



Fame
vs Fortune: Micropayments and Free Content


Klay Shirky


Em outro trecho, Shirky especula sobre a natureza do conteúdo grátis:



"O conteúdo grátis é o que os biólogos
chamariam de estratégia
evolucionária estável
. É uma estratégia que
funciona bem quando ninguém mais a esta utilizando - é bom ser
a única pessoa oferecendo conteúdo grátis. E é
também uma estratégia que continua a funcionar se todos passam
a utilizá-la, pele fato de que em tal ambiente, quem começar
a cobrar por seu trabalho estará em desvantagem
."


quarta-feira, setembro 03, 2003

Guia do cidadão para as ondas do ar
- O manual do espectro

A
New America Foundation, partindo
do princípio de que na sociedade da informação o mais valioso
bem público (recurso natural?) é o espectro
eletromagnético
- ou "as ondas do ar" (airwaves) - mantém
um programa de Política de Espectro (Spectrum
Policy
), e recentemente editou o "Guia do cidadão para as
ondas do ar
" (The
citizen's guide to the airwaves
).


É um super material para quem quer ficar por dentro do assunto, bem
ilustrado e fácil de multiplicar. Para saber um pouco mais sobre as questões
políticas que envolvem a regulamentação deste assunto,
também sugiro "O
mito da interferência no espectro de rádio
", de David
Weinberger
, publicado no Ecologia
Digital
.


O
Manual
da NAF
didaticamente divide o espectro em quatro zonas (clique
para ver todo o espectro
):



  • zona permeável

  • zona semi-permeável

  • zona de avistamento longo

  • zona de avistamento curto


A radio FM (em 88 MHz) é um exemplo de uma aplicação na
zona permeável. Você pode usar rádio FM em qualquer lugar
sem se preocupar se as paredes irão bloquear a recepção.
A maior atratividade dos modernos telefones celulares (que usam bandas entre
800 MHz e 2 GHz) é a promessa de acessibilidade em qualquer lugar, a
qualquer hora.


O serviço de rádio por satélite (em 2.320 GHz), por exemplo,
é uma aplicação na zona semi-permeável, e a TV por
satélite (em 12.2 GHz) é um exemplo de aplicação
que faz uso da zona de avistamento longo. Este tipo de sinal de TV pode viajar
por 35 km entre o satélite e o seu receptor, contanto que nada esteja
no caminho. Uma árvore ou mesmo uma chuva pesada poderá bloquear
o sinal. Como regra, a permeabilidade de um sinal de rádio diminui na
medida em que a frequência aumenta, e o valor econômico do espectro
aumenta com a sua permeabilidade (capacidade de penetrar objetos).


Sabemos que a infra-estrutura é determinante na manutenção
dos princípios de liberdade do ambiente digital. É importante
que estejamos atentos às questões que envolvem os insumos básicos
do funcionamento da rede, acompanhando as decisões políticas no
tema (clique
para ver o último documento da Anatel
no assunto).

terça-feira, setembro 02, 2003

Alerta ambiental no espaço da rede
Donos do Kazaa usam o DMCA para censurar o Google

Deu no Slashdot
que a Sharman Networks,
dona do Kazza,
entrou com uma reclamação
oficial
contra o Google, proibindo-o de retornar determinados endereços
que ofereciam download do Kazaa-lite.
Na página
que retorna a busca ao Kazaa-lite o Google apresenta sua
política
em relação ao DMCA,
e o link para o
documento
que determina a censura.


Para quem não conhece, o Kazaa lite
(altamente recomendável - veja
faq
) é o mesmo Kazaa,
aplicativo P2P
que compartilha arquivos de qualquer tipo na internet, só que
extirpado das irritantes propagandas, "pop-ups", banners, e programas
"espiões" (spyware) do Kazaa convencional. Foi melhorado (e
continua sendo) pela comunidade hacker,
o que representa um serviço compartilhado com todos os usuários
da rede.


Para a comunidade P2P fica
claro
que a Sharman
está usando as mesmas
táticas do RIAA
, ou seja, mudando de lado e se valendo da lógica
perversa do DMCA
para impedir a inovação nas ferramentas da rede e "se dar
bem" - reservando boa parte do mercado para sua plataforma (agora) proprietária.
Que vergonha, Kazaa (not so lite)!! E o que nós temos a ver com isso?
No meu entender abre espaço para algumas especulações teóricas.


Aproveito
para indicar um texto (meio antigo) do Geert
Lovink
(ABC
da Mídia Tática
) que publiquei
no site
: Una Reciente
Historia de la Cybercultura de los 90'tas
. O artigo aborda o conceito das
TAZ - Temporary Autonomous
Zone
, de Hakim Bey,
para explicar, numa visão pessimista, o fracasso da Internet em realizar
as promessas libertárias do mundo underground. Lovink parecia acreditar
(ao final da década passada) que o mundo corporativo havia vencido a
guerra na rede, decretando a morte do anarquismo hacker.

(vale à pena ver o novo
livro de Geert Lovink
)


Nós da Ecologia Digital, que ainda acreditamos na capacidade revolucionária
da rede, ficamos com o posicionamento do Doc
Searls
sobre a mágica que vigora na colobaração específica
do éter digital, sobre o qual
bloguei anteriormente
:


"...os clientes se tornaram mais ariscos do que nunca.
As escolhas continuaram a crescer ao ponto deles mesmos desenvolverem suas próprias
"soluções" para todos os problemas que os fornecedores
obcecados por "branding" falharam em solucionar. Os tecnólogos
estão na liderança deste movimento oferecendo, e escolhendo, mais
coisas que simplesmente realizam o serviço melhor do que outras coisas
- ou coisas que fazem o serviço tão bem e por menos dinheiro."

"Doc
Searls - Linux SuitWatch - June 19
"


E para terminar, em se falando em TAZ (ou ZATs), não posso deixar de
mencionar que os blogs
de Bagdá
estão mais interessanes do que nunca. Não
só o do famoso Salam Pax,
que hoje é também articulista
do Guardian
, e recentemente teve a
casa dos pais invadida
em Bagdá, mas agora também o de uma
geek
iraqueana(?)
mais do que esperta (Baghdad
Burning
), que publica relatos que parecem scripts cinematográficos
sobre o horror que a ocupação americana causa no Iraque. Zona
Autônoma Temporária?


Ah, antes que me esqueça, aí vão outros kazzas vitaminados
oferecidos na rede: Kazza
Hack
, Kazaa Diet,
... e o melhor deles (recomendo): Kazaa
Lite K++ 2.4.2
.


Mantenha a Internet Livre.

terça-feira, agosto 26, 2003

Três cenários alternativos
- O que a iniciativa da RIAA sobre o P2P pode gerar

Ao aviso de que as gravadoras
devem processar quem baixa MP3 ainda em agosto
, e imaginando quem poderia
estar na mira
da RIAA
, me deparei com uma interessante descrição de cenários
possíveis no contexto da surreal iniciativa da indústria fonográfica:



Meu palpite é que a RIAA irá
alavancar um processo caótico, cujos efeitos são imprevisíveis,
mas existem alguns cenários possíveis, os quais apresento em
ordem decrescente de probabilidade:


Cenário "Tempestade num copo d'água" -
Penso que o cenário mais provável é também o mais
aborrecido. Centenas de processos e muita publicidade inicial, seguidos de
interesse cada vez menor por parte da mídia. Após poucas semanas
a ofensiva da RIAA vira notícia velha. Os processos em si tem pouco
ou nenhum efeito
nos hábitos ("copynorms")
da rede, pelo fato de centenas de processos judiciais serem apenas uma gota
no oceano. Milhões utilizam o Kazaa
para copiar arquivos MP3. Se a RIAA registrar apenas algumas centenas de processos,
a maioria dos usuários de P2P não conhecerão ninguém
que tenha sido processado, e nem ninguém que conheça qualquer
vítima. Imagine que a "Lei Seca" começou com "centenas
de processos criminais" por tráfico de bebidas alcoólicas.
Alguma semelhança com "uma gota no oceano"?


Cenário "Tiro pela culatra" - Centenas de processos
geram toneladas de má publicidade. A mídia decide focar nas
vítimas mais simpáticas. Imagine a mãe adolescente que
com muito esforço conseguiu entrar para a universidade, e que agora
tem que entregar o dinheiro das mensalidades do próximo ano para uma
gravadora, pelo fato do namorado de sua colega, com quem divide o aluguel
de um apartamento, ter usado P2P para copiar arquivos MP3. Senadores escutam
de seus filhos que a RIAA está perseguindo estudantes universitários.
A opinião pública se volta contra a RIAA, que solta na praça
uma agressiva campanha. Passando por cima das objeções de seus
consultores de relações públicas, a indústria
emplaca a campanha "Cópia de Arquivos é Roubo".
Um advogado da RIAA testifica publicamente que "Não existe
diferença moral entre copiar arquivos e assaltar uma loja de bebidas"
.
Pais que vinham permitindo seus filhos realizarem cópias de arquivos
via P2P ficam irados. E a RIAA retira a campanha litigiosa, dando-se conta
de que sua continuidade pode resultar em legislação que enfraqueça
o DMCA.


Cenário "Mudança de Hábito" - Centenas
de processos geram publicidade simpática. A campanha da RIAA apresenta
o tom certo, fazendo com que pais e adolescentes tenham sérias conversas
sobre a moralidade de se copiar arquivos na Internet. A mídia foca
em indivíduos processados que tenham um corte de cabelo ruim, e a RIAA
consegue processar um em cada uma das 500 maiores faculdades e universidades
do país, resultando numa onda de medo e remorso no ambiente universitário.
Como resultado, os hábitos vão gradualmente mudando, e copiar
arquivos deixa
de ser "cool"
. Na medida em que o hábito de copiar arquivos
invade os pontos públicos de acesso à Internet, torna-se um
grande problema a ser administrado. O serviço
da Apple
torna-se realmente popular, e a maré começa a virar...


Do "Legal
Theory Blog
", do Lawrence Solum (Copynorms).

"Copynorms"
são as atitudes informais sobre a noção

de certo ou errado em duplicar material sob copyright.



Enquanto isso, no Brasil, o ministro
Gil investe
na máquina
de CDs
(uma nova forma de vender discos, em máquinas eletrônicas,
com cartões magnéticos), idéia patrocinada pelo Grande
Lobo
. Novos paradigmas exigem soluções criativas.


Update: caso você seja uma vítima de processo judicial
por cópia de arquivos via p2p, entre em contato com Copywrongs.org.


Update
2
: O ITunes (o serviço
da Apple) pelo jeito já dá sinais que o cenário "Mudança
de Hábito
" é mesmo pouco provável. Veja gráfico
disponibilizado pelo ITunes
is Bogus
- iniciativa muito legal do pessoal do DownHill
Battle
. Tem um texto legal lá, Civil
Disobedience, p2p
:



"Antigamente, as pessoas que queriam mudar radicalmente a indústria
fonográfica eram chamados "ingênuos" - tais pessoas
não tinham condição de entender como o "mundo real"
funcionava. Mas as coisas mudaram e agora as pessoas que querem se ver livres
das grandes gravadoras são os realistas, e as corporações
é que parecem ter embarcado numa "viagem" de auto-ilusão.
De acordo com os últimos acontecimentos, o que irá matar as
gravadoras não será nenhum programa P2P, ou caso judicial, mas
sim suas próprias atitudes, que partem do princípio de que têm
direito a existir mesmo sem prestar bons serviços aos músicos
ou seus fãs." Donwhill
Battle


quarta-feira, agosto 20, 2003

Mais Software Livre em Brasília, e tecnologia digital para a paz social

A seqüência do dia 19 na Semana de Software Livre no Legislativo ficou por conta de Marcelo
D'Elia Branco
, coordenador do PSL-RS e grande responsável pela realização do "conclave".
Assim foi denominado o evento pelo senador José Sarney, que disse ter sido convencido por Marcelo da importância do SL para o futuro do país em fortuito encontro entre ambos acontecido em evento na Europa, no início do ano. Temos que admitir que este encontro
pode ter sido decisivo para o futuro do SL brazuca.

A apresentação de Marcelo descreveu bem o quadro da economia no
setor tecnológico, após a revolução que possibilitou a convergência
das TICs
. Aproveitou a deixa de estar se dirigindo a parlamentares e alertou contra os perigos do DMCA, que estaria embutida no acordo da ALCA. Anunciou também o lançamento do Projeto Software Livre Brasil para amanhã (21/08).

De tarde, a principal atração era o painel da tecnologia digital para a paz social. O articulador de políticas digitais do MinC, Claudio Prado (que, dizem, foi quem botou LSD no discurso do Gil), estaria apresentando o esperado projeto das BACs - Bases de Apoio à Cultura. (vale à pena ver o Do In Antropológico visual).

A idéia foi gestada com a colaboração do grupo Articuladores, e vem ganhando simpatia em vários setores do governo como ação efetiva para a recuperação da auto-estima da juvetude excluída. O projeto promove o domínio das mídias digitais para produção de cultura local (surge o Hip-Hacker), fomentando a veiculação da multidiversidade cultural no ambiente digital - tudo baseado em Software Livre.

Na sequência foi a vez do Marketing Hacker Hernani Dimantas deslocar o foco do assunto para longe dos computadores, enfatizando a importância central da ética hacker e da conversação possibilitada pela Internet como pressupostos do novo paradigma digital. Destacou a importância das BACs no papel de fomento à produção de conhecimento local - caracterizando a terceira geração dos telecentros.

Hermano Viana, também assessor do MinC e especialista nos movimentos recentes da música brasileira, divulgou a intenção do ministro Gil em explorar as possibilidades das licenças da Creative Commons, que inclusive já estariam sendo traduzidas para o português. Destacou que a utilização dos samplers já influencia diretamente a maioria dos novos estilos musicais criados pelos jovens nas diversas regiões do país (a cibermúsica?), e portanto uma nova abordagem na questão dos direitos autorais é condição fundamental para o florescimento da cultura digital. Também os arquivos musicais brasileiros estão na mira da estratégia do ministro Gil, pois a execução de títulos com base nas licenças CC no âmbito internacional teria como resultado certo uma ampliação de mercado para música e músicos nacionais.

Para fechar o painel Luis Eduardo Soares, Secretário Nacional de Segurança Pública, apresentou um quadro forte para ilustrar a desesperada busca de reconhecimento por parte de um menor excluído socialmente ao ir de encontro à sua primeira experiência de violência (apontar uma arma para alguém). Demonstrou que, para os incluídos, jovens pobres são seres invisíveis - esta alienação surge da indiferença ou do preconceito, e torna-se funcional ao naturalizar a paisagem urbana intolerável para que possamos ter um mínimo de paz.

Neste momento primordial de violência, ao apontar a arma, o jovem estará trocando seu futuro por um momento de glória, que depende do olhar de reconhecimento do outro - o que demonstra a importância da dimensão intersubjetiva. De fato, este clamor pelo reconhecimento por parte da juventude excluída não encontra nenhuma resposta das políticas públicas até hoje implementadas, que tendem à homogeinização. Concluindo, Luis Eduardo afirma que a valorização da arte e cultura próprias são capazes de devolver a auto-estima estraçalhada:

"A possibilidade desses jovens demonstrarem virtudes e qualidades, realizando uma produção autônoma de sua própria especificidade em mídia digital, coloca as BACs como projeto singular neste contexto. E promove a centralidade da cultura e das políticas culturais para o desenvolvimento da paz social. Internet, redes de sociabilidade, possibilidade de ser reconhecido e obter respostas, assim constituindo o laço (vínculo) - arte, estética e música, acrescidos do diálogo
digital."

Depoi do painel ainda veio o Miguel de Icaza, que nem falou da compra da Ximian pela Novell... Mas aí também já não dava para captar coisa nenhuma.... Fim do dia.

terça-feira, agosto 19, 2003

Semana de Software Livre no Legislativo: Convenção anual de hackers?!

Cá estou já devidamente acomodado no Americel Hall da Academia de Tênis de Brasília, no aguardo da sessão de abertura da Semana de Software Livre no Legislativo. Já consegui a tomada e o note está no ponto para a blogar o evento. O primeiro a falar na mesa repleta de autoridades é Richard Stallman, e sua apresentação é didática e esclarecedora no que toca os significados básicos do movimento pelo Software Livre:

"Significa que o usuário é livre. Significa que você é livre para usar o software como quiser, mudar, contratar um programador para ajustar o que for necessário caso você não programe, e também livre para distribuir o que desenvolveu. Significa que os usuários estão no controle, individualmente ou em grupo. Estamos aqui para afirmar que estas liberdades são muito úteis, e que negá-las vai contra princípios básicos do desenvolvimento da cultura humana. Por isso somos a favor do Software Livre.

Um cozinheiro é livre para utilizar receitas, e livre para acrescentar ingredientes ou mudar quantidades e procedimentos, adaptando a receita original às suas peculiaridades, sem que para isso tenha que pagar por uma licença de uso. Assim deveria ser na questão do software.

Liberdade é importante. Em algumas situações somos obrigados a lutar por nossa liberdade. Creio que no caso do software não temos que pegar em armas para garantir liberdade, mas talvez seja necessário algum tipo de esforço, uma aposta na mudança. Sem um impulso, os usuários ficam isolados pelas restrições impostas pelo código fechado, e não conseguem perceber as possibilidades que o Software Livre apresenta.

Para efetivar a mudança é importante implantar SL nas escolas, não somente para cortar custos, mas para treinar os futuros adultos nesta tecnologia. Para escrever bom código, há que se ler e escrever bom código. Com o software proprietário você não vê o código – é tudo secreto, não se pode aprender.

Escolas primárias deveriam ensinar as crianças a ajudar seu vizinho. Em escolas secundárias deverão ser os alunos os responsáveis pelo suporte às redes e aos computadores. A sociedade ainda não entendeu bem os aspectos de liberdade que os computadores podem proporcionar. Estou falando aqui do que aprendi."
O ministro Gilberto Gil também foi instigante e arrojado. Eu diria até... lisérgico, mas talvez a melhor descrição de sua apresentação seja: "contra-cultural". E foi o único a enfatizar o aspecto ideológico da questão. Não é por acaso que os diversos atores da TIC governamental vêm adorando o arrojo do MinC em atrair a discussão do futuro digital do país para o âmbito da cultura. A transversalidade da abordagem vem facilitando a ultrapassagem de obstáculos e contradições que há muito emperravam a atuação do governo na concepção de projetos para o ambiente digital:

"O novo contexto ideológico clama por participação horizontal da população nos avanços teconológicos. Contextualizando o mundo digital no campo cultural, não devemos nos esquecer que a cultura digital viveu momentos decisivos sob o signo da utopia. Jovens californianos criaram o PC (personal computer), e na mesma época e local, uma outra turma preparava a migração contracultural das viagens de LSD para os laboratórios de alta teconologia e para o sonho da realidade virtual. A Califórnia era ao mesmo tempo o centro da viagem contracultural, e a vanguarda da pesquisa tecnológica. Alteradores de estado de consciência aliados a grandes escritores de código.

Nesta época já se configurava o contraculturalismo eletrônico, e nada mais natural portanto, desta perspectiva cultural, do que a movimentação em direção ao Software Livre. É mais um projeto de nossas utopias realistas, e será básico para que tenhamos asseguradas nossa liberdade e autonomia no século XXI. E é por isso que o governo Lula deve caminhar para a transformação do Brasil
no pólo internacional de Software Livre no mundo."

(veja a íntegra do discurso do ministro Gil no site do MinC)

Da sessão solene de abertura, foi o que ficou. Os Zés Dirceu e Sarney conferiram o peso político necessário ao evento, mas só. De minha parte, a todo momento me dou conta de como este seminário é importante, e também totalmente improvável de acontecer em qualquer situação que não a de um governo legitimamente popular como o do presidente Lula. O mundo hacker está em êxtase. Na seqüência, mais sobre o evento.

domingo, agosto 17, 2003

Stallman em Brasília: Uma semana que promete balançar o planalto central

Retornando ao blog depois de afastamento estratégico, vou dando conta do evento do ano que ocorrerá esta semana aqui em Brasília. A Semana de Software Livre no Legislativo está trazendo Richard Stallman, presidente da Free Software Foundation, e Miguel de Icaza, presidente da Gnome Foundation, e ocorre em momento estratégico para a implementação da proposta no País.

Quem me conta mais detalhes da programação é o amigo Claudio Prado, que vem atuando como articulador de políticas digitais do Ministério da Cultura, e será o moderador da mesa que estará tratando sobre teconologia digital - um caminho para a paz social, que conta ainda com a participação de Hernani Dimantas, Hermano Viana e o Secretário Nacional de Segurança Pública, Luis Eduardo Soares.

Fiquei bem animado ao dar uma olhada na apresentação que o Claudio irá fazer da proposta do MinC para fomento à cultura digital. Tão animado que o convenci a mostrar um pedaço do diagrama aqui no Ecodigital, em primeira mão (abaixo).

"Vamos tropicalizar a cultura digital". "Sem tesão não há inclusão". Os eventos relacionados
ao ambiente digital têm sido visitados nos últimos meses por idéias e conceitos que trazem fortes elementos da contracultura dos anos 60, principalmente pela atuação de Claudio (o agitador
da Ilha de Wight
), amigo do Ministro Gil, e que a seu mandato está sacudindo o ambiente tecnológico.

Claudio, em visita ao bunker da Ecologia Digital (foto ao lado) explica que não poderia ser de outra forma, pois a Internet e o Software Livre são a "ponta do iceberg" de uma grande mudança paradigmática para a humanidade.

"A Internet furou o sistema - em pleno século XX foi criado o maior engenho de comunicação que já existiu, que não tem dono, carece de poder central, e extrai sua força das pontas conectadas (poder periférico). O século XXI será marcado pela Cultura Digital, e estamos vivendo o parto dessa nova era".

Pensar novas possibilidades exige um descondicionamento em relação a antigas abordagens. Diante disso, o MinC está chamando para si a responsabilidade de renovar a discussão sobre os parâmetros que irão determinar como a cultura digital
irá se densenvolver no país. Em boa hora portanto, vemos um Ministro brasileiro temperar a discussão tecnológica (e de política de telecomunicações) com conceitos integradores, que recolocam a tecnologia como MEIO, e a comunicação como processo de efetivas ações de inclusão social. Portanto, todos à semana de software livre, que agora mudou de lugar e pode abrigar muita gente.

Aproveito para anunciar que o Ecologia Digital publicou a tradução de "Save the Net", artigo do Doc Searls onde são apresentadas as idéias políticas que estão por trás das disputas pela hegemonia do ambiente digital.

sábado, junho 21, 2003

Colaboração: A chave da era da informação é o éter do ambiente digital

A Microsoft se deu conta de que algo mudou no Brasil, e saiu correndo atrás do prejuízo. A notícia da diretriz para que 80% de todos os computadores do governo brasileiro rodem software livre (open source) explodiu há uma semana no Slashdot (e no LinuxToday), e gerou um baita thread sobre a eficiência da obrigatoriedade. Não há como negar o princípio ideológico subjacente à decisão, mas também há que se considerar as características específicas do momento de transição da era industrial para a era da informação, que demanda visão ampla e coragem para a implementação de estratégias definidas. Compras governamentais são ferramentas cruciais para implementação de políticas.

"O que faz o Linux diferente não é só o aspecto técnico. O Linux é um produto da era da informação, onde a construção do conhecimento é feita sobre o conhecimento anterior. Liberdade para modificar, criar, aumentar e diminuir. O linux é a ponta do Iceberg de um novo mundo. Nosso projeto quer provocar a catalisação das inteligências, de forma descentralizada. Através da integração e interatividade provocada pela internet. Propomos uma aprendizagem transversal, e de baixo para cima e para os lados. Comunidades desenvolvendo seus conteúdos. Pessoas recriando suas próprias vozes."
"Hernani Dimantas - Marcketing Hacker"

A atuação das corporações neste novo espaço parece comprometida. A implosão da "nova economia" trouxe uma nova consciência sobre as particularidades do ambiente digital. "Linux é a ponta do iceberg", mas traz em si o significado da colaboração como princípio fundamental do novo contrato - "Ecologia Digital".

"A bolha das dotcom foi causada em grande parte pela crença idiota de que o mecanismo de "branding" iria continuar funcionando tão bem na Era da Informação quanto o fez na Era Industrial que a precedeu. O Venture Capital estava enebriado por "branding" quando depositou bilhões de dólares em companhias sem nenhum valor mandando-as queimar a grana no mercado. Queimando dinheiro, os VCs pensaram, era a única forma de criar "valor de
marca" (brand value).

Mas a Internet mudou o mundo completamente. Foi uma receita de asteróide a dinossauros. Mas ao invés de tirar proveito das novas condições criadas pelas rede, os VCs e seus beneficiários decidiram estimular a menos viável condição dos dinossauros: tamanho e dominância. Pior, pensaram que a Nova Economia significava o lado deles do mercado - que era uma questão de oferta e não de demanda. Então se tornaram obcecados com "desintermediação" e "cadeias de valor" mais curtas. Tomaram-se de luxúria pela preposição "to", e queimaram incontáveis bilhões de dólares em opções de empresas com um "2" no meio. Entretanto, os clientes se tornaram mais ariscos do que nunca. As escolhas continuaram a crescer ao ponto deles mesmos desenvolverem suas próprias "soluções" para todos os problemas que os fornecedores obcecados por "branding" falharam em solucionar.

Os tecnólogos estão na liderança deste movimento oferecendo, e escolhendo, mais coisas que simplesmente realizam o serviço melhor do que outras coisas - ou coisas que fazem o serviço tão bem e por menos dinheiro.

A bolha do "branding" está explodindo. Talvez, depois de tudo, o penguin vai merecer algum crédito"
"Doc Searls - Linux SuitWatch - June 19"

Update: "O conceito de éter na história da ciência"

quarta-feira, junho 18, 2003

O que só a rede faz
- Um festival de rock sem jabá

Se
alguém não sabe o que é... (jabá).
Rolou semana passada lá no Tennesse, em uma localidade 1 hora ao sul
de Nashville, o Bonnaroo
- um festival de rock tendo o Grateful Dead
e Neil Young & Crazy Horse (foto)
como principais atrações, e mais um desfile de ótimas
trilhas em diversos estilos
da música atual. O que a rede tem a ver
com isso? O fato é que os organizadores do evento venderam todos os 80.000
ingressos desta megaprodução
em apenas 18 dias, sem qualquer anúncio em rádio, tv ou jornal.


Logo no primeiro dia de vendas, com apenas um e-mail aos fã-clubes das
principais bandas, 12 mil ingressos já tinham ido. O movimento fez com
que os organizadores descartassem canais tradicionais de promoção
de eventos, tipo Tickemaster (o
aprendiz de vilão
) ou Clear
Channel
(o grande vilão).
O produtor, Ashley Capps, afirmou que já tinha ouvido sobre "a promessa
da Internet", mas que agora ele tinha tido a experiência direta e
concreta das possibilidades (ver
Nytimes
).


E
por aí vamos alardeando o que um ambiente digital bem cuidado (Ecologia
Digital
) pode proporcionar. A possibilidade de realizar um megaevento contando
apenas com o suporte da grande nação dos mochileiros, e tendo
como intermediários alguns fan-clubes de bandas, quebra o esquemão
que o jabá (payola)
proporciona à indústria da música em controlar o que as
pessoas ouvem e como a música deve evoluir. Isto tem MUITO significado.

terça-feira, junho 10, 2003

Internet X Big Mídia
- Quem sai ganhando com a desregulamentação sobre propriedade na mídia

Segunda-feira passada, dia 02 de junho, o FCC
(a Anatel dos EUA) votou
pelo relaxamento
de regulamentações federais que restringiam
o número de veículos de mídia a serem possuídos
por uma corporação numa mesma localidade, e também liberou
a propriedade cruzada, que vem a ser a propriedade, pelo mesmo grupo, de diferentes
mídias.


O principal responsável pela introdução da mudança,
o chairman Michael
Powell
, argumenta
que o fenômeno da web permitiria o florescimento da diversidade mesmo
que as corporações consolidassem seu controle sobre a TV e os
jornais. E garante
que o investimento necessário para a implementação da infra-estrutura
para as conexões de banda larga, que irá concretizar as potencialidades
das novas tecnologias, só acontecerá se o mercado de telecomunicações
for desregulamentado.


É um bom ponto de argumentação: é mais fácil
e barato hoje produzir arte e jornalismo, e a Internet provê aos criadores
potencial alcance global. Mas Gillmor
argumenta que a
decisão anterior
do FCC deu às companhias regionais de telefonia
o poder de controlar o acesso a seus condutos de dados de alta velocidade. Há
portanto o risco concreto da implementação de tecnologias que
favoreçam o trânsito de "conteúdos proprietários",
criando os chamados "walled
gardens
" (jardins murados).


O ambiente digital chiou
um bocado
sobre a questão (Gillmor,
Lessig,
Werbach), formou-se um
movimento
, e mais de 750 mil pessoas enviaram mensagens aos membros do FCC
para que votassem contra a desregulamentação (somente 11
mensagens de apoio
). Entretanto, Doc
apresenta uma visão interessante analisando o atual resultado do embate
da Web com a indústria do rádio em seu atual estado de (grande)
concentração:



"O Napster e seus sucessores são o atalho tomado pelos ouvintes
para evitar a falida indústria do rádio, que substituiu conhecedores
de música dignos da confiança do público por robôs
movidos a jabá que atuam como máquinas a serviço das
fábricas de música pop da indústria fonográfica.
"
read
more...



Enquanto isso no Brasil, estudo
do Prof. Venício
Lima
demonstra "o fortalecimento e consolidação das
Organizações Globo, mediante expansão horizontal, vertical
e cruzada da propriedade e a conservação do histórico domínio
do setor por reduzidos grupos familiares e elites políticas locais ou
regionais.
" Em entrevista
ao Observatório, destaca a venda da Telebrás no próximo
dia 29 de julho como marco final para a configuração da política
do setor. Fica a pergunta de Silvio Meira:
e se a
Telebrás voltar?


Continuaremos levantando as questões, e quem tiver alguma dica sobre
o assunto pode usar os comentários para ativar a conversa.

quinta-feira, junho 05, 2003

E quanto ao software livre...
- IV Fórum Internacional em Porto Alegre confirma a tendência do governo

Está acontecendo em Porto Alegre o IV
Fórum Internacional de Software Livre
, e as notícias nos sites
independentes são sonoras:



O discurso é
o mesmo
da II Oficina
de Inclusão Digital
, e até o
Serpro
já aderiu - SL
dominará as diretrizes de governo em TI
. Mas a big mídia parece
não estar muito interessada no assunto, a não ser na matéria
do IDG
sobre o ComprasNet, cuja
transição para SL será anunciada no evento. E o atual governo
do RS indica estar no meio do caminho entre
a Microsoft
e a tendência de vanguarda que
representa
. No meio desta desinformação que interessa a muitos,
a Magnet está cobrindo
legal
.


Enquanto isso, no Rio tem início o Mês
da Sociedade da Informação
, que começa meio
assim
(e também sem
nenhuma cobertura da big-mídia
) creio eu também por causa
da situação
política do casal garotinho
. Os atores principais desta primeira
semana são o ICA - Instituto
para a Conectividade das Américas
, uma ONG canadense que apóia
projetos de inclusão digital no continente, juntamente com as ongs VivaRio,
RITS, CDI,
Parceiros Voluntários,
e ainda o apoio técnico da RNP. Meio
bairrista, mas pode dar caldo.


Espera-se que todos os projetos, idéias e diretrizes em gestação
se encontrem e possam encontrar espaço para conversar em algum lugar
na rede.


UPDATE: Software
Livre Brasil: "Vamos Tropicalizar a Digitalização"

- Marcelo
Branco

segunda-feira, junho 02, 2003

Uma visita ao reino da alienação
- Os efeitos de um rápido contato com o broacasting global

Em minha estratégia de evitar a televisão, como laboratório
pessoal da hipótese de que usando apenas a web como fonte de informação
estamos alterando alguns parâmetros de configuração de nosso
aparelho cognitivo, há muito não via esta
coisa chamada Fantástico
. Foram apenas alguns instantes de exposição
à rede globo neste domingo à noite para ficar chocado com o absurdo
da nova campanha "anti-drogas", que
culpa os usuários de financiar o tráfico
. É do mesmo
naipe daquela outra campanha absurda que saiu nos EUA que tentava estigmatizar
os usuários por serem os financiadores do terrorismo
. Como pergunta
o NarcoNews, é
honesta uma estratégia direcionada a causar impacto numa sociedade fragilizada
pelo tema da violência?



"A questão das drogas é global e multidimensional.
Ela abrange temas igualmente complexos como tráfico de armas, desemprego
estrutural, falta de recursos na área de saúde e educação.
No entanto, o Estado prefere fazer vista grossa e tratar do tema de uma forma
mais simplista e burra. O governo de Fernando Henrique Cardoso, por exemplo,
não destinou verbas para educação e conscientização
do problema das drogas mas somente para repressão ao usuário,
baseado em modelo dos Estados Unidos. Infelizmente, nosso presidente atual,
Lula da Silva, continua com tal programa .


O que é preciso então? A resposta não é simples
e requer um esforço maior do que o atual, pois a busca de prazer por
meio de substâncias que alteram nosso psiquismo encontra-se na raiz
da própria história da humanidade e a sua repressão não
tem adiantado muito.


Assim sendo, faz-se necessário investir numa cidadania mais ampla
e menos coercitiva. Pois é, no mínimo, estranho que se invista
tanto em repressão e menos em cultura e educação. Afinal
o que queremos? Indivíduos conscientes de suas decisões ou miquinhos
amestrados que se contentem com Prozacs e Viagras e não questionem
porque usam tais substâncias lícitas?


Leitores, vamos abrir nossos olhos para uma questão muito mais
complexa do que a mídia e o Estado nos faz crer que é. Além
de uma melhor definição do que é droga, o que precisamos
é construir um espaço onde o trabalho não seja alienante
e nem tudo seja apenas capital. Um projeto revolucionário, mais trabalhoso
e, certamente, mais honesto."


Campanha
Brasileira Espelha-se em Modelo Gringo e Culpa Usuários pela Violência


A “Parceria Contra
Drogas
” é fiel a roteiro de Washington e ONG responsável
comprova ser uma grande farsa

Por Carola Mittrany

The Narco News Bulletin

30 de maio de 2003



Encerrando, aproveito para sugerir a todos este exercício de se abster
da tv, e tentar a Internet e suas várias ferramentas e serviços
gratuitos como fonte principal de informação e lazer. Muito interessante
os efeitos que começam a surgir logo nas primeiras semanas, uma sensação
de liberdade, de estar mais desplugado da cultura comercial e da estética
da mídia de massa. Entre inúmeras vantagens ficamos imunes às
mensagens emburrecedoras que se valem da assimetria da comunicação
broadcast para violentar o bom senso - como a desta
campanha idiota
. Isto é Ecologia
Digital
.


Na medida que vamos conhecendo o ambiente digital, mais e mais ferramentas
interessantes vão aparecendo. E por falar nisso, sugiro uma olhada no
Kartoo, uma máquina de meta-busca muito
charmosa - dica do Sílvio Meira.

sexta-feira, maio 30, 2003

Sem Tesão não há Inclusão: O foco da questão não é a tecnologia

E segue a II Oficina, onde o destaque é a boa qualidade das idéias apresentadas pelos representantes do governo, principalmente os que estão colocados nas posições estratégicas do setor de TI (agora TIC). Sérgio Amadeu (ITI), Rogério Santana (SLTI/MP) e Rodrigo Assumção, seu incansável adjunto e principal motor do evento, me parece um tripé de qualidade para as transformação necessárias no setor.

Na primeira plenária do dia (ontem, 29), o simpático Rogerião Santanão esteve falando sobre e-gov frente a José Eisenberg, Prof. de Ciência Política do IUPERJ. Sua longa experiência à frente da Procergs, acompanhando a experiência gaúcha de software livre e também o desenvolvimento das práticas do orçamento participativo credenciam seu discurso. O fato de determinados serviços de governo estarem já internetizados (receita, eleições, bancos, geralmente tendo como retaguarda sistemas da esfera do controle), enquanto outros permanecem empacados frente ao emaranhado de sistemas que não conversam entre si revela o viés do E-gov, que até hoje desconsiderou a melhoria da qualidade de vida das populações de baixa renda. Santana: "até hoje não existe o cartão único de saúde".

Eisenberg apresentou dados de suas pesquisas sobre ação municipal de inclusão digital, e reforçou a visão de que os serviços preparados para serem disponibilizados não coincidem com aqueles que atingem o maior número de usuários: E-gov hoje não sintoniza com inclusão digital. Apresentou avaliação dos diferentes modelos institucionais das empresas de processamento de dados, comparando a Prodabel (Belo Horizonte, empresa pública), a Procergs (Porto Alegre, economia mista) e o ICI (Curitiba, organização social, resquício da Reforma Gerencial) - este último se mostrando mais ágil na captação de recursos, mas ao mesmo tempo menos trasparente e acessível ao controle social.

O último painel ficou por conta de Cláudio Prado (representando o Ministério da Cultura) e Nélson Pretto (FACED/UFBA), que trouxeram os ventos da Educação e da (contra)Cultura ao evento, até então eminentemente técnico e governamental. Cláudio  (o agitador da Ilha de Wight), encarregado de representar o ministro Gil, falou mas não disse (segundo ele porque não podia) sobre um projeto de implantação de centros de cultura digital. O plano é incentivar a apropriação tecnológica das novas ferramentas de produção de conteúdos digitais (áudio,  vídeo + internet) em localidades com alto índice de exclusão social. Entre outras "visões" Claudio propõe um salto sobre o século 20, este que manteve os frutos do desenvolvimento e do avanço científico distante das massas, para uma aterrissagem digital diretamente no século 21. Implodir o modelo da cultura broadcasting na disponibilização digital das diversas culturas nacionais, irradiando conteúdo a partir das pontas da rede. E para provocar um pouco mais, lançou a frase: "Sem Tesão não há Inclusão".

Nelson Pretto, que também coordena a Biblioteca Virtual de Educação à Distância, do Prossiga, seguiu com o painel avisando que "as redes não conectam espaços virgens" e reclamando da falta de representação do Ministério da Educação ao evento. Ao mesmo tempo em que denunciou a pedagogização da educação e a professoralidade instituída (professor precisa viajar), alertou para o perigo de se criar estruturas paralelas à escola, sugerindo que a Inclusão Digital seja mais abrangente, incluíndo o cidadão e a escola:

"A inclusão digital pode acontecer em um ciberparque localizado no meio do muro que liga a escola à rua, constituíndo um túnel de passagem, o espaço-tempo da produção cultural, onde poderiam se articular comunicação, educação, saúde, ciência, cidadania, tecnologia, etc. Não como algo à parte, mas integrando a formação do cidadão para a construção de uma nação à prova de futuro". Neste sentido convocou o terceiro setor à insistir na parceria com as escolas, e ao Ministério da Educação a se articular com as iniciativas de governo para integrar as ações de inclusão digital.

No fechamento desta blogada, Cláudio Prado ainda tentava, sem sucesso,
que sua frase tesuda fosse incluída no documento final da oficina: "Tucanaram
a inclusão
".

quinta-feira, maio 29, 2003

II Oficina de Inclusão Digital: O grito de guerra do software livre no planalto

A correria é grande, e portanto só agora alguma coisa sobre a II Oficina chega no blog. O primeiro dia (27) não correspondeu às expectativas. Cheguei atrasado e não vi a abertura, mas a ausência dos ministros previstos (Zé Dirceu e Guido Mantega) foi um ponto a se lamentar - o evento merecia maior respaldo do primeiro escalão. Vi a apresentação do Jorge Sampaio do Instituto Florestan Fernandes, que me pareceu legal, mas sem nenhuma sinergia com o representante do Programa Fome Zero. Ou seja, plenárias do primeiro dia passaram em branco. Os grupos de trabalho foram mais interessantes.

O que despertava a atenção hoje (28)* era o atrativo especial chamado Silvio Meira (CESAR / Porto Digital) (foto) que conhece como ninguém as peripécias da arte zen de se produzir software no Brasil, e estaria frente à frente com Sérgio Amadeu, homem forte da TIC governamental, numa conversa sobre Inclusão Digital e Software Livre.

O debate ultrapassou as expectativas, deixando muito claro no entusiasmo de Amadeu que estaremos diante de diretrizes políticas de compras governamentais em TI realmente revolucionárias. É software livre (e não grátis) e ponto. Há que se destacar a lucidez e o refinamento das colocações do Sílvio sobre alguns poréns relevantes na doce visão do Brasil como eldorado do software livre, mas a arrojada empolgação do Diretor do ITI é contagiante.

A primeira palestra do dia já havia surpreendido pela presença de Nelson Simões, da RNP, que apresentou com clareza uma alternativa "à prova de futuro" de como pavimentar as vias que irão possibilitar todo e qualquer projeto de inclusão digital. A opção pela fibra ótica / rede ethernet, acrescida em flexibilidade pela possibilidade wi-fi na chamada "last mile" configura uma combinação eficiente, de baixo custo, e que estaria pronta para a demanda por novas aplicações a ser gerada nas pontas da rede. Muito interessante a ênfase do Neslon de que a rede não pode ser vista como um serviço, e sim como patrimônio a ser gerido pela comunidade usuária. Vale muito estudar a apresentação dele: Redes Comunitárias.

O Marcos Dantas do Min. das Comunicações, que debateu com o Nelson, falou de forma academica e ideologicamente interessante, mas não apresentou nada da posição do Minicom em termos de propostas de otimização de redes e acesso universal, o que seria esperado do representante ministerial. O FUST e suas indefinições alcançou consenso: merece levar um
"boot".

No público presente, boa representação do terceiro setor, das empresas e do governo, apesar da subrepresentação de alguns setores - no geral, grande evolução em relação à primeira oficina. Muito bom conhecer no concreto parceiros de conversas digitais de longo tempo. A turma do Projeto Metáfora, a quem eu já me conectava há algum tempo marcou boa presença (foto), assim como o pessoal do surpreendente Saúde e Alegria, do Sampa.org, continua...

(*) obs: Esta é a blogada de ontem, que não foi publicada porque o link da comunidade caiu por falta de pagamento (!) "Inclusão digital, quem paga a conta?" No caso, eu.

obs 2: o brother duende também está blogando sobre a Oficina lá no CTJovem.

quarta-feira, maio 21, 2003

Zé Dirceu: E-Gov = Inclusão Digital
- Chefe da Casa Civil une TI e Comunicação, agora TIC

Na semana que antecede a II
Oficina de Inclusão Digital
em Brasília, o governo Lula parece
estar apresentando as ferramentas institucionais com que irá gerenciar
os setores de Tecnologia da Informação (TI) e Telecomunicações.
José Dirceu foi arrojado o bastante para sacramentar
uma nova sigla - TIC - Tecnologia da Informação e Comunicação

- que a partir de agora irá aglutinar muitas ações importantes
que andavam dispersas no meio burocrático brasiliense. "A Tecnologia
da Informação e Comunicação se vincula mais a temática
do desenvolvimento e do combate à pobreza do que ao mero debate sobre
soluções de informática
", veja
a íntegra do discurso
.


No último dia 14, na reunião
do Comitê Executivo do Governo Eletrônico
, foram lançadas
as 8 Câmaras Técnicas
que irão propor políticas e coordenar a atuação
do governo em diferentes áreas. A Câmara de Implementação
do Software Livre ficará com o ITI
de Sérgio
Amadeu
(ex-Egov da Prefeitura de SP), que parece ser o homem forte de Dirceu
para coordenar toda a estratégia. Boas sinalizações!


A SLTI,
de Rogério
Santana
, na qual figura também o Rodrigo Assumção (Sampa.org),
coordenará as câmaras ligadas à infraestrutura "dura"
de processamento de dados do Governo: a de Integração de Sistemas,
a de Sistemas Legados e Licenças, a de Infra-Estrutura de Rede e a G2G.
A Câmara de Gestão de Sites e Serviços Online fica com a
Secom/PR, que no governo
passado não assumiu a tarefa, que já era sua, Deus sabe porquê.
Relações Exteriores ira gerir
a Câmara de Gestão de Conhecimento e Informação Estratégica
(?).


A coordenação da Câmara de Inclusão Digital ficou
sem definição, e tudo indica que a Oficina que começa no
próximo dia 27 será um forum importante para diagnosticar os atores
representativos deste contexto. Zé Dirceu afirma que "Governo
Eletrônico é sinônimo de Inclusão Digital
",
e como a oficina tem o patrocínio do Sampa.org
e do RITS, além da SLTI
do Min do Planejamento
, espera-se que a iniciativa possa trazer resultados
sérios - ao menos também aqui temos boas sinalizações.


Vamos estar acompanhando de perto as movimentações relativas
à Oficina, pois tudo indica que o evento repercutirá decisivamente
no ambiente digital nacional.

quinta-feira, maio 08, 2003

A TV Digital do B
- Discurso do Ministro traz boas novidades

O ministro das Comunicações, Miro Teixeira, foi ao Senado ontem
para anunciar a conclusão da minuta de decreto que criará o grupo
de estudo encarregado de analisar a viabilidade da TV digital brasileira. Anunciou
também o uso de tecnologia digital nas transmissões de rádio
em ondas médias (digital
AM standard
- veja também: DRM:
"Why digital AM?")
o que pode ser revolucionário para o setor de radiodifusão. Mas
importante mesmo é a seguinte afirmação do Ministro, que
está hoje em matéria
do Valor
(só para assinantes, agh#*):



"...o modelo de tecnologia imaginado pelo ministério não
está voltado para a TV em alta definição, mas para a
possibilidade de transformar os aparelhos de TV convencionais em instrumentos
para a "inclusão digital", com programas de computador desenvolvidos
no país."



Na mesma matéria, Miro cita a diretriz do MC
em pesquisar dentre as diversas tecnologias que compõem os subsistemas
da DTV, aquelas que são livres para o uso sem o pagamento de royalties.
Esta diretriz antenada com os princípios da Ecologia
Digital
é um excelente input para a tarefa do grupo de trabalho constituído,
que é formado por 11 representantes do governo, do meio acadêmico
e do setor privado. O grupo terá também representantes dos ministérios
da Ciência e da Tecnologia, das Relações Exteriores e do
Desenvolvimento. Terão representantes também a Secretaria de Comunicação
de Governo e Gestão Estratégica, o BNDES, a Finep, e a fundação
CPqD. As universidades envolvidas terão um representante, e, pelo setor
privado, haverá dois integrantes, indicados pelos produtores de equipamento
e pelas emissoras de TV aberta.


Enquanto isso, na terra de Bush, a confusão ainda é grande em
relação ao prazo estabelecido pelo governo (veja "A
Paranóia de Hollywood
") para que sejam cessadas nos EUA todas
as trasmissões analógicas até o ano de 2006 - desde que
pelo menos 85% do público americano tenha adquirido os receptores digitais.
A existência de inúmeros interesses aparentemente contraditórios
criou uma situação inusitada, onde todos os envolvidos acham que
irão perder algo.


Em
"Harry Potter
e os Prisioneiros da Transição para a TV Digital
-
Uma aventura em política de telecomunicações
",
por Mike Godwin da Public
Knowledge
, publicado em Ecologia
Digital
, temos uma interessante análise do quadro atual da questão
nos EUA, e algumas propostas mágicas de solução. A briga
entre os setores envolvidos no negócio é grande, e a análise
de cenário pode ser muito proveitosa para quem acompanha e influencia
o processo brasileiro, agora acompanhado de saudável ideologia.


Havemos de cuidar para que clichês políticos jurássicos
não coloquem o projeto da DTV do B na via do atraso, nos moldes das já
conhecidas "reservas de mercado", e sim na vanguarda da concepção
libertária da rede e seus protocolos abertos.