Na rede

sexta-feira, janeiro 17, 2003

Dos pré-socráticos à fenomenologia do século passado... chegando à arte interativa do século 21

... em busca de novas iluminações nos conceitos da Ecologia Digital.

Henri Bergson (filósofo francês falecido em 1941) escreveu:
"A consciência parece ser proporcional ao poder de escolha do ser vivo. Ilumina a zona de potencialidades que envolve o ato e preenche o intervalo entre o que é feito e o que poderia ser realizado"
Roy Ascott observa (in "Turning on Technology"):
"Para Bergson, admirado por sua reafirmação do fluxo de Heráclito (fisósofo pré-socrático), faltou apenas conhecer a dinâmica de nossa "networked hypermedia" (Internet) para completar o seu modelo da mente. Os ritmos cognitivos, os saltos e mergulhos, os hiperlinks, criando túneis de mente para mente, imagem para som, som para texto, partindo de locações reais para lugares virtuais, de pessoas nas ruas para identidades no ciberespaço - tudo isso caracteriza os desejos e ambições dos artistas capturados nesta dança tecno-sedutora da mente."
Este Roy Ascott, que muito antes do e-mail e da Internet já era famoso por propor o "abraço telemático" (Telematic Embrace), esteve por aqui como mentor do "Invenção", evento patrocinado pelo ItaúCultural em agosto de 99, onde deixou o seguinte recado:
"Para Roy Ascott a arte dos próximos 30 anos será a arte da consciência. Mas uma consciência dupla, uma mente aberta à ciberpercepção. Ascott usa o termo technoetic, que significa consciência + tecnologia. Ele engloba o antigo e o moderno, o espiritual e o artificial, o cósmico e o cultural. O corpo humano e os seres artificiais passam a ter um habitat em comum. É o desenvolvimento pós biológico. Uma troca entre o humano e o eletrônico, a moistmedia (mídia úmida). "
(Plugado, molhado e úmido: arte na beira da Net)
Mas o que chamou mesmo a atenção é que o tal Roy Ascott, diretor do CAiiA-STAR (trabalho colaborativo em artes interativas), está propondo em suas últimas palestras o surgimento de uma nova cultura planetária tecnoética, baseada em 3 "V-Realidades": a Validadal, a Virtual, e a Vegetal.
"Nosso foco é Arte, a tecnologia e a consciência, de onde uma cultura planetária tecnoética poderia emergir baseada em 3 RVs: Realidade Validada: abrangendo a tecnologia mecânica em um prosaico mundo Newtoniano; Realidade Virtual: abrangendo tecnologia digital e interativa em um mundo de imersão telemática; Realidade Vegetal: abrandendo a tecnologia das plantas psicoativas em um mundo espiritual enteogênico. Para essa finalidade, são necessárias pesquisas transdisciplinares e colaborativas para que ferramentas de aprendizado e produtividade inteiramente novas possam surgir. Em nossa busca de um paradigma interativo, CAiiA-STAR e o Planetary Collegium são as respostas iniciais para esta necessidade." (Planetary Technoetics: art, technology and consciousness.)
 Muito interessante...

Anatel em ação
Consulta pública para regulamentar o acesso à Internet no país


“Temos mais de 5.300 municípios no Brasil e apenas 350 dispõem
de provedores de acesso à Internet”.



Com esta frase, dando conta do abismo a ser ultrapassado a nível de universalização do acesso
em nosso país, foi aberta a audiência pública
para esclarecimento da Consulta
Pública n.º 417 – Proposta de Regulamento para Uso de Serviços
e Redes de Telecomunicações no Acesso a Serviços de Internet.


A Anatel
está propondo
que, além do atual modelo de cobrança
por pulso telefônico, também exista um modelo de código
não-geográfico, para que moradores de cidades sem provedor local
não precisem pagar interurbano nas conexões, e um terceiro, que
crie um código de quatro dígitos que transfira todo acesso à
internet para uma rede de dados, fora da rede de telefonia local.


No entanto, parece que o grande tema da parada é o futuro dos recursos
que as operadoras de telefonia pagam umas às outras pelo tráfego
gerado pela internet (tarifas de interconexão, clique
para entender
). Durante a semana,
manifestações da Anatel
contra o atual formato da Internet
grátis deram o tom das discussões, e apesar do efeito
social resultante
, parece realmente que algumas
distorções precisam ser corrigidas
.


Vamos acompanhar e retornamos no caso de novidades pertinentes.

Sobre o assunto: UOL,
IG.

Lula e o software
A escolha que pode determinar o futuro digital no Brasil

A turma do Metáfora , através
do Gasli (Grupo de Argumentação
para o Software Livre), não para de buzinar para todos os cantos que
o momento é importante e exige mobilização alerta. Do outro
lado já existe a tal Coalizão
pela Livre Escolha de Software
, iniciativa da Camara-e.net
(Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico) que "lutará
para impedir que a adoção de software livre se torne uma política
pública de governos municipais, estaduais e federal
".


O debate está quente, e vale à pena checar a real argumentação.
De um lado pode-se conferir artigo
de Marcelo Branco
, da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS),
responsável pela implantação de redes de sistemas livres
na instituição de ensino localizada num estado cujo governo adotou
o software livre como linha de frente de uma política pública
de desenvolvimento da informática; do outro está Eduardo
Campos de Oliveira
, gerente de servidores da Microsoft do Brasil.


Artigo
de Rafael Evangelista
no Obsevatório
dá uma boa visão da situação:



"Atrás do que parece ser uma simples disputa entre profissionais
especializados, que buscam enfatizar a excelência e a adequação
de duas tecnologias diferentes e nas quais são especialistas, esconde-se
um enfrentamento mais profundo, de dois grupos profissionais que parecem carregar
consigo visões de mundo e ideologias diferentes e

opostas."



A Ecologia Digital percebe que a solução não está
unicamente em um ou outro caminho, mas identifica que lobbys corporativos milionários
têm influenciado as políticas públicas nos últimos
anos no Brasil em favor do software propietário. Portanto, é engraçado (para não dizer outra
coisa) ver esta coalizão
pela livre escolha
tentar impedir que a nova ideologia eleita democraticamente
utilize de seus intrumentos de implementação de políticas
públicas nas questões relativas ao futuro digital do país.


Ou como diria o Joelhasso, "livrescolha
o caralho
".

quarta-feira, janeiro 15, 2003

Disney venceu em "Eldred vs. Ashcroft"
Mas o movimento iniciado parece ser muito maior que a decisão judicial de hoje

A Suprema Corte americana decidiu
(por 7 a 2)
manter a autoridade do Congresso em regular pela extensão
dos direitos autorais ("Sonny
Bono's Copyright Term Extension Act
") que protegem os lucros de canções,
livros e personagens de desenho animado, rejeitando os argumentos contrários
baseados no princípio da Ecologia
Digital
no já famoso caso "Eldred
vs. Ashcroft
".


Lawrence
Lessig
foi o advogado que teve a incumbência de demonstrar aos juízes
que o estado atual da legislação distorce a função
essencial do copyright na Constituição. Ele declara
hoje em seu blog
esperar que a decisão desfavorável crie a
mobilização necessária para que se restabeleça o
"direito
dos comuns
" na questão.


O melhor acompanhamento do assunto está no Copyfight.

terça-feira, janeiro 07, 2003

Voltando...
... e saudando a vitória do dia no âmbito da Ecologia Digital



eu mesmo, em uma praia perto de Half Moon Bay,
no caminho de San Francisco - paraíso dos surfistas


Voltando dos EUA, depois de passar por San Francisco, conhecer a comunidade
de Kayumari
, que fica em Columbia,
aos pés da Sierra Nevada,
descendo as montanhas depois para encontrar amigos nas praias de Santa
Cruz
, e aí novamente San Francisco para depois subir para Ashland,
no Oregon, para encontrar (e conhecer) novos amigos, cá estou novamente
neste paciente blog.


Aos amigos que tentaram acompanhar as minhas andanças via blog (Us,
and then...
), desculpo-me pelas expectativas que possa ter criado em relação
aos conteúdos prometidos. Espero poder comentar o que se passou tentando
recuperar o que for pertinente e esclarecedor para os princípios da Ecologia
Digital.


E retorno com uma boa e fresca notícia para os que acompanham as batalhas
judiciais
relacionadas ao DMCA. Jon Johansen, o rapaz norueguês que
estava sendo processado pela MPAA por ter
descoberto e divulgado pela Internet o DeCSS,
que quebra a encriptação que impedia Jon de visualizar em seu
Linux PC os DVDs que adquiria legalmente, foi inocentado pela justiça
da Noruega. Notícia no The
Register
, e informação completa com a EFF.

quinta-feira, novembro 28, 2002

US, and then...: Ecologia digital em imersão cognitiva na "terra da abundância"

Mas que ilustração bem sacada, hein? Uma super-metáfora do ambiente digital na temática blog.

Tive que abrir espaço para esta inspiração do Ray Vella, que está ilustrando uma matéria
sobre blogs
do NYTimes. A feminista de plantão tentou vender a idéia de que a blogosfera é machista, mas quem fez o filme foi o ilustrador...

Se alguém de vocês ainda não sabe, o conteúdo do NYT não é fechado, mas exige que se faça um cadastro. Vale à pena se registar pois, apesar da matéria sobre blogs ser muito ruim, este jornalzão é um fiel termômetro de como a grande mídia encara os temas do momento, e portanto é válido acompanhar.

By the way, para quem acomapanha o Ecologia Digital vou avisando que possivelmente estarei um pouco ausente nos próximos dias. Estou embarcando para San Francisco à noite (legal!), para encontrar amigos e participar de um evento da maior importância. Como disse no título,
trata-se também de um processo de imersão cognitiva dos conceitos da Ecologia Digital nos mecanismos e paradigmas da sociedade afluente, ou como diz meu amigo Lou Gold, compreender o que faz daquilo lá "the land of abundance".

Vou estar blogando no US, and then..., um blog de viagem experimental que pode ser visitado por quem tiver interesse em acompanhar os detalhes da jornada...

domingo, novembro 24, 2002

Ellen Feiss fala: Nossa musa quebra o silêncio em entrevista a jornal universitário


update 14/04/2007: o video do youtube substitui imagem original que ilustrava o post e se perdeu na deslinkania

Jornal Universitário da Brown University conseguiu o que Jay Leno, David Letterman e a MTV tentaram sem êxito: uma entrevista com a musa da Ecologia Digital, Ellen Feiss. Artigo da Wired no Terra complementa a informação. Para nós, finalmente fica esclarecido o mais importante - qual o tema do trabalho que o diabólico PC do pai de nossa heroína engoliu:

What was the paper about?

Ellen: "It was about Chinatown, and the formation of Chinatowns in America. I lost like three pages of it; it was terrible. It was a really, really good paper."


sexta-feira, novembro 22, 2002

Warchalking é roubo? A Nokia diz que sim...

O hobby geek preferido desde julho, o Warchalking, acaba de receber o primeiro golpe do mundo corporativo. Se ninguém tinha se manifestado até agora, é a Nokia a primeira a chiar. Veja matéria e comentários no site da BBC.

A empresa lançou um comunicado declarando que, qualquer pessoa que use serviços de rede sem a permissão da pessoa que paga por este serviço, está roubando. O comunicado surge logo após uma advertência do FBI sobre a "maluquice" wireless.

Warchalkers afirmam que estão realizando um serviço útil aos administradores de rede ao informar sobre as deficiências de segurança encontradas, e argumentam que se estivessem fazendo algo de intenção duvidosa, não estariam deixando rastros por aí. Por outro lado, se administradores de redes wireless deixam suas portas abertas em lugares públicos, não deveriam se surpreender se alguém entra para dar uma olhada. Deveriam estar agradecidos...

terça-feira, novembro 19, 2002

WWW novamente: Wi-Fi, Weblogs e Webservices renovam a utopia humanista da web

Decentralização é a palavra. Quando a Internet parecia sufocada pelo aparente fracasso da Nova Economia (um mito?), sob o ataque dos economistas conservadores do mercado, eis que surge um novo trio de Ws para recolocar o princípio básico de volta ao eixo central da revolução da web. Decentralização (veja Kevin Werbach). Mas a proposta não era esta desde o princípio? O que aconteceu no caminho?

Algumas perguntas podem ajudar-nos a compreender a questão: quais os setores da indústria sãos os "big players" da infraestrutura da rede? Tecnologia, telecomunicações e mídia, certo? E qual ideologia organizacional norteou a entrada desta turma no negócio da rede? A premissa de que poderosas estruturas centrais iriam dominar no desenvolvimeno deste espaço. Como resultado, na (a) TI empresarial tornam-se padrão os grandes servidores centrais operando com aplicações monolíticas, nas (b) telecomunicações vemos as operadoras em dificuldades por terem investido em enormes (e caras) infra-estruturas proprietárias (G3, por exemplo), e na (c) mídia vemos os proprietários de conteúdo brigando com seus clientes (chamando-os de ladrões) no intuito de aumentar o controle central sobre os canais de distribuição de conteúdo.

De acordo com este quadro, se a Nova Economia falhou foi por incapacidade destes setores da Velha Economia em compreender a dinâmica da Ecologia Digital. Ideologias centralizadoras irão falhar neste ambiente por 3 motivos: (1) dificuldade em crescer na escala que a web propõe, (2) dificuldade em se adaptar ao mundo real diferenciado, (3) dificuldade em perceber os efeitos da liberdade viabilizada pela fenômeno da web na consciência humana. A complexidade da equação "diverso + extenso + humano" inviabiliza sistemas centralizados atuando em redes na escala planetária.

A teconologia Wi-Fi (veja o timeline) talvez seja o melhor exemplo para demonstrar o que está dito acima (veja artigo NYTimes). Assim como a web, que floresceu sobre os padrões de comunicação livremente acessíveis da Internet, o padrão Wi-Fi tornou-se possível pelo fato do governo americano ter configurado uma porção de frequências de rádio para serem abertamente compartilhadas por qualquer pessoa que seguisse um conjunto simples de regras (especificação 802.11b).

Esta tecnologia revoluciona ao trazer a facilidade e omnipresença da conexão à rede em velocidades comparáveis às mais rápidas linhas de telefone digital ou cable modem, e desmonta estratégias gananciosas de operadoras que sonhavam oferecer este serviço proprietariamente.

Falaremos sobre os dois outros novos Ws
(Weblogs e Webservices) na sequência. Da análise acima fica a idéia de que o elemento que tem mantido a pressão por soluções decentralizadas é o fator humano na rede. As pessoas
vem percebendo que podem buscar novas formas de comunicar e colaborar além dos limites artificiais das organizações e da geografia, e que podem acessar a sua própria música, em seus próprios termos, da mesma forma como querem poder estar online de qualquer lugar, a qualquer hora.

" O processo de decentralização não é automático nem absoluto. O desafio é encontrar o ponto de equilíbrio - o tamanho ótimo dos grupos, os modelos viáveis e os compromissos sociais apropriados."
Kevin Werbach - (Tech's Big Challenge: Decentralization)

O importante, no âmbito da Ecologia Digital, é estarmos abertos à reorganização dos conceitos para não ficarmos falando bobagem, desperdiçando recursos, ou nos conformando com soluções limitadoras.

Decentralize, cause the Web is for the World, and it's Wide.
WWW again.

segunda-feira, novembro 18, 2002

O cumpadre cidadão João Arnolfo
Ecologista recebe título Honorário pelo ativismo ambiental em Brasília

Se
não fosse meu cumpadre, vizinho, amigo, irmão e companheiro de elocubrações
filosóficas sobre ecologias de todos os tipos, João
Arnolfo Carvalho de Oliveira
, candidato a Senador pelo PV-DF
nas últimas eleições majoritárias em Brasília,
ainda sim mereceria ser citado especialmente neste blog, na data de hoje. Já
teria conquistado a menção pela trajetória
destacada
em inúmeros ativismos e no ambiental especialmente, ainda
no tempo em que ecologia era um conceito alienígena.

Mas a significativa
cerimônia acontecida hoje pela manhã no plenário da Câmara
Legislativa do DF
, onde Arnolfo foi homenageado
com o título de Cidadão Honorário de Brasília, fez
da minha blogada pessoal uma notícia. Discursaram o senador eleito Cristóvam
Buarque
, o Deputado
Chico Floresta
(autor da moção), presidiu a mesa o chapa Rodrigo
Rollemberg
(meu candidato), e presentes estavam também representantes
do Forum das ONGs Ambientalistas do DF
(impulsionado pelo João), ativistas fardados da Patrulha
Ecológica
(João deu grande força), a turma da Comunidade
Céu do Planalto, que toca a Associação
Olhos D'Água de Proteção Ambiental - AOPA
(João
fundou), entre outros tantos grupos de ação ambiental.

Ainda
no sábado último, quando retornava do Seminário
das Rádios Comunitárias
, recebi a visita do cumpadre e filosofamos
um tanto sobre a importância dos movimentos sociais (e
outros ativismos
) se organizarem para que ocorra uma boa interlocução
na transição. E falamos sobre a Ecologia
Digital
, e sobre os mistérios da percepção humana que
ombro à ombro tantas vezes pesquisamos nas fileiras do Santo
Daime
, e mais uma vez insisti para que ele se iniciasse no mundo dos blogs.
Afinal o site da sua ONG ViaEcológica
e o jeitão de seu newsletter
já apresentam o estilo adequado - o João daria um ótimo blogueiro
ambiental. E seguimos nesta sintonia ecológica saudando o cumpadre cidadão.

domingo, novembro 17, 2002

Rádios Comunitárias na pauta: Evento da AMARC mobiliza agentes sociais por uma nova comunicação no país

O Seminário está se encerrando, e blogar offline realmente não é a "coisa real". Mas vou por aqui organizando os pensamentos ainda no clima de festa de um encontro efetivo e bem realizado. De onde estou vejo o Hudson Carlos da Rádio Favela (mais aqui) mandando ver no rap da Rádio Comunitária, acompanhado por Armando Coelho Neto, jornalista e Presidente da Federação Nacional dos Delegados da Polícia Federal, que está lançando o livro "Rádio Comunitária não é crime" (Ícone Editora, tel. 11 - 3666.3095) .

A sensação que fica é que encontros deste tipo vão ser a boa onda da hora, e o entusiasmo da turma reflete a esperança que o novo governo inspira para os defensores da democratização das comunicações. Minha presença teve o objetivo de colocar a colher da Ecologia Digital neste caldo das Rádios Comunitárias, à princípio para conhecer a briga dessa turma pelo direito a comunicar, e na medida do possível apresentar as boas perspectivas do ambiente digital para o caso.

O peculiar momento político, acrescido da situação "estranha" do processo decisório do governo no setor da telecomunicação, indica que uma abrangente discussão sobre a democratização dos meios de comunicação é urgente. O programa do PT no âmbito da Comunicação Social, segundo informações no evento, está sendo formulado por Bernardo Kucinsky, o que tranqüiliza um pouco a turma. Mas a fragmentação política na abordagem a tão complexo tema indica que "as bases precisam ser ouvidas" (bordão do momento) para a definição do novo marco regulatório.

Nesta discussão tem papel de destaque o Conselho de Comunicação Social, que estava representado pela Berenice Mendes, integrante da Comissão de Trabalho do CCS e da Diretoria Executiva do Fórum Nacional de Democratização da Comunicação (FNDC). Ficou a idéia da AMARC (Associação Mundial de Rádios Comunitárias, promotora do evento) sugerir ao FNDC a realização de um evento abrangente que possa prover subsídios à formulação do programa de governo para o setor, assim como restabelecer o Fórum como espaço legítimo da discussão sobre a democratização da comunicação.

Mas existem questões práticas a serem atacadas, como as vozes, antenas e microfones (além de CDs, MDs, etc) ainda hoje retidos pela PF com mandatos da ANATEL, em virtude das distorções contidas na lei 9.612, que regulamenta o exercício das rádios comunitárias.

Para isso será lançada a campanha "Libertem nossos Presos", que estaremos apoiando diretamente aqui no Ecologia Digital. Formação de agentes comunicadores, advogados populares (para socorrer os comunicadores presos), e caravanas de visita entre as rádios para intercâmbio foram outras propostas surgidas em meio à animação do final da festa.

De nossa parte, a surpresa foi perceber que éramos o único notebook presente ao evento, e que apenas poucas das rádios representadas fazem alguma utilização das possibilidades da web para a integração de sua atuação. Fiquei sabendo da situação indesejável da lei que atualmente regulamenta o funcionamento das RC, que limita frequência, potência, e ainda por cima veta (!) a formação de redes.

Liberdade de rede seria o primeiro ponto onde poderíamos colocar a colher da Ecologia Digital no caldo das Rádios Comunitárias. Sugestões da comunidade?

Estaremos ligados nos resultados que irão surgir em decorrência deste evento, agradecendo o vibrante entusiasmo da Taís Ladeira da AMARC - Brasil (cérebro, motor e graça do evento) pela oportunidade de conhecer esta turma tão interessante da Rádio Magnífica (Goiânia), que também participa da seção local do Centro de Mídia Independente, da Rádio Bicuda (RJ), Rádio Muda (Campinas), Rádio Rala Coco (Brasília), TV Viva, Rádio Terra (Uberaba), etc...

Acesse os textos do Seminário aqui.

sexta-feira, novembro 15, 2002

Regulamentando a Comunicação Social Eletrônica: Rádios Comunitárias querem influir na política de CS

Hoje estou blogando diretamente do Seminário Nacional de Legislação e Direito à Comunicação: Regulamentando a Comunicação Social Eletrônica. É a minha primeira experiência de blogar um evento, e aos poucos vou me acostumando com os "detalhes" da função.

O evento reúne em Brasília representantes de 17 estados brasileiros, todos eles envolvidos de alguma forma com as rádios comunitárias e as atividades sociais relacionadas. Fiquei sabendo do Seminário pelo informativo do RITS, e confesso que me espantei pelo fato do evento não dispor de um site - apenas e-mail!

O primeiro painel do dia foi o mais interessante. O professor Murilo César Ramos, Diretor da Faculdade de Comunicação da UnB, esboçou um histórico interessante do desenvolvimento da ideologia na comunicação social no Brasil. O departamento que dirige foi criado nos anos 70, quando o enfoque era "comunicação e desenvolvimento", e esta diretriz funcional e instrumental foi, segundo ele, determinante na estruturação do curso.

O professor destaca que políticas nacionais de comunicação arrojadas foram concebidas no âmbito da UNESCO nos anos 80, resultando no Relatório McBride . A aliança neoliberal homogênica da era Reagan / Tatcher tratou de articular a saída dos EUA da UNESCO, esvaziando a discussão. Nesta época se estabelece a ideologia de CS que dá ao cidadão o direito de ser informado, mas não de informar - consumir informação, e não produzir.

O professor Murilo Ramos, que acompanha de perto o funcionamento recente do Conselho de Comunicação Social, defende que a formulação de uma real política nacional de CS carece de um marco regulatório. A dispersão e fragmentação do processo decisório entre os poderes, nas questões relativas à CS, impossibilita que o assunto seja abordado de forma integrada.

O final da apresentação trouxe uma frase forte: Toda nova tecnologia traz uma promessa civilizatória. A lógica do mercado têm pervertido estas iniciativas.

O segundo a se manifestar seguiu no mesmo nível, Márcio Iório, Coordenador do Grupo de Trabalho sobre Regulamentação das Telecomunicações e professor de direito da UnB. Iniciou demonstrando como a concepção jurídica brasileira sobre o regime público configura e determina a forma como se desenvolve o negócio da comunicação. Esta especificidade explica, por exemplo, o fato do sucesso da TV aberta no Brasil, diferentemente dos EUA.

Explicou também que o futuro governo não terá tanta autonomia para transformar a atual situação no setor, já que os contratos com empresas prestadoras delimitam direitos cuja revisão dependerá de avaliação do congresso.

Novas categorias foram incluídos recentemente, como o Serviço Multimídia regulamentado pela Anatel em 2001, e o conceito de Comunicação Social Eletrônica introduzido pela Emenda Constitucional 36. Este último, segundo o professor Márcio, cria as condições para que se evite a fragmentação e descompromisso dos atores envolvidos nestas iniciativas.

O recado principal que percebi foi de que o direito à comunicação exercido pela radiodifusão comunitária ligada a políticas públicas sociais poderá criar o ambiente necessário para que novas e mais interessantes categorias jurídicas possam aparecer.

Bem, isto foi o que eu pude captar, e os links eu faço amanhã pois agora estou bem ocupado.

quinta-feira, novembro 14, 2002

Para sua segurança
- Boicote os discos com proteção anti-cópia

A
galera do Metáfora está
agitando mais um movimento, e o dpádua que não perde tempo já
lançou até o banner (ao lado):


"Discos com proteção anti-cópia restrigem os consumidores e são uma
grande ameaça à memória da cultura nacional. Os consumidores de discos devem
dar um enfático não a estes produtos mutilados que nem ao menos podem ser chamados
de CDs. Esta é uma convocação de boicote aos produtos culturais com limitações
anti-cópia
."


Saiba mais sobre o assunto aqui. O "Tribalistas" é um dos CDs que está sendo comercializado com esta proteção. Saiba detalhes sobre o que acontece com o CD mutilado aqui.

terça-feira, novembro 12, 2002

Hollywood orgulhosamente apresenta: Movielink
- Para bom entendedor, não passa de estratégia de relações públicas

Depois de anos de desenvolvimento, cinco dos sete maiores estúdios de Hollywood (Universal,
Paramount, Sony,
Warner Bros. e MGM) estão anunciando o lançamento do Movielink, o site "oficial" de video-on-demand - certamente o de maior acervo, começando com 175 filmes. Arquivos para download custam entre US$1.99 a $4.99, expiram a validade 24 horas depois de executado pela primeira vez, podem ficar guardados em um hd por 30 dias, só irá rodar na máquina que fez o download, mas poderá ser pausado, avançado e retrocedido à vontade. Os títulos só estarão disponíveis no site 6 semanas após terem sido lançados em DVD e VHS.

O serviço está disponível apenas para os EUA, e mesmo assim exclui todos os usuários Mac (ou Mozilla, ou Opera, ou qualquer coisa que não seja Windows). Sem banda larga, nem pense em usar o serviço, e mesmo assim pode ser mais rápido ir até o vídeo clube da esquina do que "baixar" 500 Mb. A menos que você tenha seu computador ligado à TV, vais ficar pendurado na frente do seu monitor assistindo o tal filme, e a economia não é significativa em relação ao pay-per-view das operadoras a cabo. O marketing do Movielink, segundo porta-vozes, está voltado para os jovens, mas será que este público já não está bem distraído "pirateando" filmes no Kazaa na mesma semana em que são lançados?

A pergunta é: o que faz Hollywood gastar munição com um negócio para o qual à princípio não existe demanda? HudsonHawk.com, no Slate, sugere que o site e os milhões de dólares ali enterrados pelos estúdios configuram estratégia de RP para evitar a comparação com os executivos da indústria da música no seu retumbante fracasso em atualizar seu modelo de negócio às demandas do público da Internet. O principal objetivo seria demonstrar que Hollywood está disponibilizando uma alternativa legal aos cine-piratas da web.

A primeira iniciativa de video-on-demand na web foi o Intertainer, mas entre os muitos equívocos de seu modelo de negócio, além da já citada falta de demanda, estava a dependência em relação aos estúdios para o licenciamento de títulos. O site fechou recentemente, e está processando alguns dos estúdios fornecedores por suposto boicote com intenção de promover antecipadamente o Movielink. Situação típica do conceito de broadcasting mal adaptado aos princípios de funcionamento
da web.

Bem mais de acordo com a Ecologia Digital, o MovieFlix é por enquanto o único site que está conseguindo manter um negócio viável oferecendo filmes online. Disponibiliza títulos já em domínio público e produções independentes, os quais tem custo (quase) zero para o licenciamento. Isto parece indicar que, à parte do fenômeno P2P, o mercado para video-on-demand na web está mais para iniciativas de menor escala que explorem nichos de conteúdo.

quinta-feira, novembro 07, 2002

A nossa Ecologia Digital, e a outra...
- Nós defendemos o mundo novo,eles buscam refúgio da overdose de dados da web

Ao girar pesquisas no google, uma em especial me chamou a atenção, destacando um artigo sobre Ecologia Digital de Javier Castañeda, do portal Baquia.com. O autor considera que estamos "sucumbindo ante os encantos da Era da Informação", e que precisamos de defesas que nos preservem "do ruído e do stress da comunicação permanente" - por isso, afirma que a ecologia digital (dele) é extremamente necessária pois irá salvar a humanidade desta triste situação.

Mas que overdose de informação é essa? E afinal, o que realmente é a web? Dave Weinberger me socorre tão pertinentemente com este artigo que só posso traduzir (quase) na íntegra:

"Passo a maior parte do dia na web, e sabes quanto tempo gasto lidando com informação? Em um bom dia, nada. Eu leio, escrevo, me relaciono com pessoas que conheço
ou passo a conhecer, processo e-mails, evito trabalho, etc. Informação é a última coisa que tenho em mente, e portanto soa estranho que o foco do assunto seja informação quando estamos falando do real substrato da web.

É fácil entender como esta abordagem foi concebida: a Teoria da Informação reduziu a comunicação humana a sinal e ruído, como uma forma de entender matematicamente o desafio
de mover padrões de A para B. Então vieram as bases de dados que reduziram ainda mais o significado da informação, registrando-a como a correlação de dados armazenados em linhas e colunas. Informação passou a ser considerada "coisa de computador".
...
Mas qual a importância desta discussão? Talvez tenha tudo a ver com a forma como experienciamos a Internet, e assim, com o que pensamos que seja a sua real utilidade, e o que consideramos que deva ser feito com a rede. A velha idéia de que trata-se de uma "Information Highway" foi adequada para governos e corporações em um determinado momento, mas obscureceu o fato de que a web está mais para conexão do que para transferência de dados. Está mais para um espaço onde humanos pouco organizados produzem toda a sorte de coisas que podem ser realizadas com palavras, figuras e sons, do que para um local onde seres racionais estão engajados em pesquisas. E é este o motivo pelo qual a Internet é um mundo, e não apenas uma mídia. Mídias se encarregam de mover bits, bytes, fatos
e informação de A para B. Um mundo é um rico contexto, irredutível e imprevisível - provedor do espaço onde seus habitantes podem arrancar os cabelos, se inflamarem ou se apaixonarem.

A informação que aparece na web é parte do mundo da web. Mas você nunca chegará ao mundo da web começando apenas com informação.

Como você usa a web? Meramente para transferências?"

Espero que tenha ficado claro de que Ecologia Digital estamos falando.

Agradecimento à comunidade
- Testemunho da calorosa acolhida do universo do blog-ativismo

Assim como quando o Ecologia Digital foi citado pela Cora, não poderia agora deixar de destacar a receptividade da blogosfera nacional à nossa presença no ambiente.

O Hernani
Dimantas do Marketing Hacker já havia linkado uma vez destacando a definição de Ecologia Digital, e depois outra sobre o nosso artigo (Eldred vs. Ashcroft) no MetaOng que inaugurou a seção específica do tema. Desde que comecei a circular no pedaço pude perceber a importância da atuação do hdhd na mundo blog nacional, e seu papel no reconhecimento da competência brazuca pelos 'pros' da rede. Merecem destaque suas participações em projetos como o Manifesto Cluetrain, Buzzine, Metáfora, e nos power blogs Gonzo-Engaged (Marketing Muito Maluco) e Small Pieces (Para que serve a web) - diga-se de passagem, todos extremamente sintonizados com os princípios da Ecologia Digital.

Teve também muito significado ser citado nos fluxos do Daniel Pádua, a quem já havia anteriormente declarado meu reconhecimento devido à sua especial presença neste admirável espaço novo. O Blogchalking já é um fenômeno consagrado, mas o cara manda bem também em outras investidas como o GASLI (Grupo de Argumentação
para o Software Livre) que está formulando colaborativamente um guia técnico para respaldar a Bancada do Software Livre no Congresso a criar problemas para Bill Gates aqui na Microsoftlândia, e o PROVOS, que propõe ações descentralizadas de mídia tática (entre elas o ZineProvos,
em Wiki, onde já meti minha colher). É dele também o manifesto do Projeto Metáfora, e foi sua
citação
o impulso necessário para que eu pudesse me apresentar melhor à galera metafórica.

Ativismo real se conectando através do ambiente tecnologicamente determinado. Ecologia Digital.


UPDATE 26/02/2003: Felipe Fonseca define o Metáfora "para quem ainda não entendeu".

sábado, outubro 19, 2002

Uma questão de estilo
- Dois anúncios colocam Apple e Microsoft em evidência. Pior para Bill Gates.

Paralelamente ao evento MacWorld New York 2002 em julho último, a Apple lançou uma campanha denominada Switch (troca), onde são mostradas pessoas comentando vantagens do Mac sobre o PC. Os anúncios na TV mostram relatos convincentemente espontâneos de pessoas (até um tanto estranhas) que optaram recentemente pelos produtos da maçã. O que não se esperava é que uma das peças veiculadas se tornasse um tremendo sucesso, elevando sua protagonista ao status de estrela ´cult´ em pleno verão americano.

Trata-se de Ellen Feiss, estudante de 14 anos que aparece criticando o PC-Windows de seu pai por ter "devorado" o seu trabalho de escola. Até aí tudo bem. Acontece que Ellen atua como se tivesse, como dizem os americanos, "under the influence".
(veja vídeo original, aqui também / montagem).

Traduzindo, todo mundo fica com a impressão que Ellen estava na 'maresia' ("stoned"), e seguindo a onda 'legalize' que floresce em toda parte, a peça ganhou notoriedade imediata (Wired / Guardian / NYTimes). Fã-clubes de Ellen estão se espalhando pela rede (#1 e #2), e a musa virou a estrela da campanha da Apple. "Ellen Feiss, o verdadeiro motivo para mudar (switch)", está entre as muitas frases que aparecem nas discussões sobre o assunto da rede.

Enquanto isso, em Redmond, incomodados com a provocação da campanha da Apple, a turma de Bill imagina uma estratégia de contra-ataque, e publica no site da empresa (veja o capture) o relato e a foto de uma suposta escritora (anônima) que após 8 anos usando Mac, estaria migrando para o Windows XP e vendo grandes vantagens na troca (switch).

Estaria tudo normal - a Microsoft em mais um plágio - se o relato fosse verdadeiro, mas a turma do Slashdot descobriu no mesmo dia que a foto da tal escritora era uma "stock image" disponível para ser alugada no site Getty Images (veja a semelhança). Com esta evidência de que algo estava errado com o anúncio da Microsoft, a blogosfera se mobilizou para desvendar quem afinal seria a tal escritora. E a turma não demorou a descobrir que tratava-se de Valerie G. Mallinson, funcionária de uma empresa de RP contratada pela Microsoft. Se os blogueiros não perdoam a Microsoft, a mídia também não deixou de registrar o mico (Wired / The Register / Salon / Geek.com).

As diferenças de estilo entre Jobs e Gates sempre foram bem conhecidas, mas o que salta aos olhos é que o público parece sempre torcer contra a Microsoft, e rir do mico deles é sempre mais gostoso. Por outro lado, será que a Internet e especialmente a blogosfera estão nos aparelhando no sentido de estarmos mais resistentes ao marketing desonesto? Certamente é um novo tipo de jornalismo.

We love Ellen Feiss. She rocks. Veja também no LATimes.

sexta-feira, outubro 11, 2002

O usuário contra-ataca
- Manifesto propõe que paremos de comprar música comercial e de ir ao cinema por 6 meses.

"Se não cortarmos a fonte de renda da indústria do entretenimento, eles cortarão nosso acesso à Internet"

O manifesto (It's Time to Stop the Music) é de Alex Herrel, o head lemur:, e foi escrito quando o site da RIAA foi hackeado (veja como ficou!) em final de agosto último. O lemur afirma que o ataque não
se justifica, pois negar o à RIAA o direito de publicar livremente o que quiser é negar a liberdade essencial da Internet. Mas informa que o nível de dificuldade da ação foi muito baixo, e que portanto o ataque foi um alerta instrutivo à deficiente segurança implementada. E, afinal, "isto é o que se recebe por chamar seus clientes, que são
a razão de sua existência, de ladrões e mentirosos."

"O computador pessoal mudou dramaticamente a forma como utilizamos nosso tempo livre. A criação da Web, construída sobre a plataforma da Internet
tornou a publicação de palavras, música, e mesmo vídeo, uma atividade que não mais requer uma "Indústria de Publicação" para a sua produção. Podemos fazer tudo isso em nosso computador
pessoal, em casa e agora mesmo. Mas depende de nós a manutenção desta possibilidade."

A web é uma fonte renovável que combina as habilidades de milhões de participantes, e conecta um verdadeiro forum democrático com possibilidades que há 10 anos não eram sequer sonhadas. A indústria do entretenimento falha em encontrar seu espaço neste novo ambiente, e passa a atacar seus usuários em atitudes desesperadas.

"O fim do mundo chegou para esta turma. Nada mais fácil para um servidor web
do que registrar arquivos acessados, e se os artistas buscarem por alguém disposto a prestar um bom serviço em contar estes downloads e administrar a entrada da grana, by by gravadoras. Temos a tecnologia rip, mix and burn (grave, mixe e queime), e o Napster e seus sucessores já demonstraram que queremos música, mas queremos nós mesmos empacotá-la. Todo mundo que conheço gosta de 1 ou 2 músicas em um CD, somente as gravadoras parecem não perceber..."

Talvez já seja tarde. Aproveitando para citar uma frase poderosa do nosso manifestante:

"O usuário é uma criatura que evolui muito rapidamente, sendo constantemente redefinido pela possibilidade".

quinta-feira, outubro 10, 2002

Procura-se o Kazaa
- Como é difícil achar o que está em todo lugar, e em lugar nenhum...

Update
(02/09/2003)
: Alerta
ambiental no espaço da rede


Donos do Kazaa usam o DMCA para censurar o Google

O Napster foi uma presa fácil. Tinha servidores próprios baseados em solo norte-americano e portanto caiu nas garras inapeláveis do DMCA.

O Kazaa, a grande curtição em P2P do momento, conta uma outra estória. Integrado como uma verdadeira rede distribuída, não possui nenhum servidor central - funciona com o conceito de "super-nós" (super-nodes), que cumprem papel semelhante mas de fato são meros usuários individuais que concordam em desempenhar a função.

A Sharman
Networks
, baseada na Austrália mas registrada em um ilha do pacífico sul chamada Vanuatu, é a dona do software. Seu código fonte foi visto pela última vez na Estônia, e acredita-se que seus desenvolvedores estejam sediados na Holanda, apesar dos servidores registrados da empresa estarem operando na Dinamarca.

As gravadoras (RIAA), percebendo que o inimigo está bem preparado para a batalha, estão abrindo múltiplas frentes de ataque para impedir que uma nova onda da "Cultura Livre" se estabeleça na rede.

Por um lado, tentam imputar à Sharman a responsabilidade sobre as cópias digitais não autorizadas, acionando-a por perdas e obrigando-a a parar imediatamente com a distribuição do software. A empresa nega a pertinência da ação afirmando que o negócio não funciona "realmente" nos EUA, e que a corte não tem jurisidição sobre suas atividades. Argumenta que a decisão de um juiz de Los Angeles iria afetar indiscriminadamente 60 milhões de usuários em 150 países - um contrasenso. Os
argumentos das partes serão ouvidos no próximo dia 18 de novembro.

Em outra frente, a RIAA ataca a Verizon, grande provedora de Internet dos EUA. A ação busca obrigar a empresa a informar quais usuários fazem uso do serviço, e como - tem como alvo inicial os chamados "super-users". Neste caso, usuários poderiam ser "delatados" com provas irrefutáveis da contravenção cometida, e as gravadoras teriam alcançado uma vitória significativa na questão. A Verizon têm lutado bravamente para não ser obrigada a "entregar" seus clientes, mas o resultado desta batalha ainda depende do grau de mobilização dos usuários e da conscientização da mídia e da sociedade em geral para a questão das liberdades individuais no ambiente digital.

Jogando pesado, a RIAA também patrocina o congressista americano que tenta aprovar lei que permite à indústria "hackear" o computador do cidadão comum em busca de arquivos "ilegais", bem no estilo "Big Brother". E em estratégias menos divulgadas, tem tentado infiltrar arquivos mp3 defeituosos nos diretórios Kazaa, a fim de atrapalhar a festa da "Cultura Livre". Quanta violência, hein?

Para a Ecologia Digital, este caso ilustra a necessidade de uma revisão geral do paradigma legal nas questões ambientais da rede. Até quando os tribunais americanos estarão dando o tom de como devemos conviver na Internet, sobrepondo-se sobre regulações (e especificidades) locais?

Viva a liberdade do Kazaa!!

quarta-feira, outubro 09, 2002

Eldred vs. Ashcroft ao vivo
- Acompanhe os comentários na blogosfera

O Lawmeme, da Yale Law School está acompanhando ao vivo a apresentação dos argumentos das partes no caso Eldred vs. Ashcroft. Isto significa Lawrence Lessig na Suprema Corte americana (foto) defendendo a Ecologia Digital.

Copyfight está também fazendo boa cobertura, e destaca um relato das atividades do dia (em ScotusBlog):

"Não
há um vencedor claro hoje e os juízes expressaram ceticismo ante ambas as exposições.
A questão tocante à Primeira Emenda (liberdade de expressão) foi pouco explorada, e não parece que vai desempenhar papel importante na sequência do processo. É uma pena pois embasa o argumento mais forte, e a jurisprudência
da interação entre a Cláusula do Copyright (Copyright Clause) e a Primeira emenda está muito necessitada de revisão e melhora.
Mas de uma forma geral, sem que nenhum dos dois lados tenha marcado pontos relevantes, fica difícil imaginar a Corte revertendo a decisão do Congresso. Existem provavelmente alguns votos em favor da reversão, mas o benefício da dúvida geralmente vai para o Congresso."

Mais
informações de última hora em Slashdot, um relato e um comentário no NYTimes, e um bom artigo novo de Matthew Haughey. Lessig também deverá blogar algo, não é mesmo? Estamos ligados.

Update: - Bom relato da seção por Kwindla Kramer do AllAfrica