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sábado, abril 18, 2009

Rede debate ‘gafe’ de Obama em sua primeira rodada de crowdsourcing

via Ecognitiva
e publicado originalmente no Trezentos

No primeiro encontro direto e oficial de Barack Obama com o público da Internet após eleito, evento que ele chamou de ‘online town hall‘, cerca de 93 mil pessoas submeteram 105 mil perguntas sobre o tema da vez: a economia. Para selecionar as questões a serem respondidas pelo presidente, o site do evento recebeu mais de 3.6 milhões de votos, e grande parte destes votos estavam relacionados à legalização da canabis.

A questão formatada para ser respondida por Obama no tema foi se a legalização da canabis poderia se tornar um elemento de auxílio na recuperação da economia do país. Não passou desapercebido na rede o comentário inadequado do presidente, que com um sorriso irônico disse não saber ‘o que a pergunta poderia revelar sobre a audiência online‘. A gracinha provocou risos contidos no público presente (veja vídeo), e na sequência Obama foi categórico ao dizer que não acredita ser a legalização da canabis uma boa estratégia para a recuperação da economia norte-americana.

A postura irônica de Obama frente à surpreendente mobilização dos ativistas da legalização da canabis logo no seu primeiro experimento de diálogo aberto na rede gerou reações interessantes na mídia e nos blogs. Alguns chegaram a indicar uma ‘captura indevida’ do processo colaborativo pelos grupos anti-proibicionistas, mas vozes influentes da web como Andrew Sullivan, do ‘Daily Dish‘, criticaram o presidente por tratar o tema da proibição como se uma brincadeira fosse.

Um artigo na revista Time (”Why Legalizing Marijuana Makes Sense“) chama a atenção para o fato de Obama ter alimentado, com sua ironia, a hipocrisia que domina o debate. O sentimento geral é de que foi desperdiçada uma boa oportunidade de dialogar criativamente sobre uma política pública que precisa ser reformulada.

O Jeff Howe, da ‘Wired‘, destacou em post (’Crowdsourcing and the President: A Failed Marriage?‘) a reverberação negativa do ocorrido na rede, e chamou a atenção para a inadequação do modelo de interatividade proposto (’idea jam‘) para esta primeira experiência. Segundo ele, ‘idea jams‘ são realizadas para prospectar questões (idéias, soluções) marginais ou periféricas, que então são tornadas visíveis e dessa forma discutidas e processadas pela rede.

Trata-se de uma estratégia utilizada por empresas, e um caso lembrado foi o ‘Idea Storm‘ da Dell, que em suas primeiras edições foi devidamente ‘capturado’ pela comunidade open source que sugeria (insistia) no lançamento de uma linha de computadores com Linux. Howe conta que estes ‘hackers’ foram à princípio tratados com desdém pela empresa, mas hoje a Dell produz um linha de máquinas Linux com destaque no mercado.

O que parece ter faltado a Obama é capacidade de processar devidamente as revelações de sua primeira rodada de ‘crowdsourcing‘. Se a idéia era apenas permitir a livre expressão dos cidadãos, então ok. Mas se a proposta é envolver este público em um debate nacional, que possa influenciar na formulação de políticas públicas, o presidente terá que evoluir bastante em seu entendimento de como o conhecimento, as opiniões, e a sabedoria popular podem ser coletadas na rede. Deveria, por exemplo, reativar a possibilidade dos usuários comentarem as idéias dos outros, recurso fundamental do modelo de ‘Idea Jam‘.

Para o movimento anti-proibicionista, fica a impressão de que presidentes investidos em seus mandatos parecem responder a motivações superiores quando o tema é a legalização das drogas. Neste sentido, o Aaron Houston, do Marihuana Policy Project (MPP), mandou bem (veja vídeo) ao declarar que os bilhões de dólares que circulam no tráfico da canabis estão diretamente ligados à ’surdez’ das autoridades constituídas frente às demandas pela legalização.

A realidade tem demonstrado que presidentes nunca são favoráveis a uma mudança na leis que criminalizam usuários de drogas durante seus mandatos. Mesmo aqueles que fumaram e tragaram (ou não), e ainda outros que se mostraram favoráveis à legalização enquanto candidatos. De fato, aqui na América Latina, a onda é ex-presidente vir à público para se manifestar sobre a óbvia necessidade de mudança na abordagem do tema.

segunda-feira, maio 26, 2008

A Conexão Obama

Fui convidado para participar de um debate sobre Mídias Sociais e eleições - Uso das ferramentas de mídias sociais para mobilização, autopromoção e propaganda política.

Não sei ainda se poderei participar, mas estava refletindo sobre o tema hoje, e me deparei com um op-ed no NYTimes do Roger Cohen que me pareceu absolutamente pertinente. Estando em uma apresentação pouco interessante, e com um bom wi-fi disponível, achei que valia traduzir e registrar aqui a íntegra.


A Conexão Obama
Roger Cohen - NYTimes (26/05/2008)

É a rede, estúpido.

Mais do que qualquer outro fator, foi a sacação de Obama sobre o papel central das redes sociais na Internet que impulsionou sua campanha pela indicação do partido democrata a obter uma vantagem insuperável sobre Hillary Clinton. A campanha da senadora é totalmente século XX, enquanto que Obama funciona em acordo com as referências do século corrente.

Não é verdadeiramente uma surpresa. Obama passou apenas 10 anos de sua vida adulta no mundo partido da guerra fria, e o dobro disto na crescente inter-conectividade típica do mundo pós-muro de Berlim. Neste período, 'MAC' -- sigla para conectividade assegurada mutuamente ("mutually assured connectivity") -- tomou o lugar do 'MAD' -- destruição assegurada mutuamente ("muttually assured destruction") -- dos tempos da guerra fria.

Para Clinton, nascida em 1947, a equação é diferente. Seu paradigma mental é a divisão. Quando seu marido concorreu pela última vez para presidente em 1996, a Internet ainda era um fenômeno marginal. O pensamento e as pessoas daquela campanha provaram sua inaptidão em acompanhar o que aconteceu nos últimos 12 anos. Ficaram como que ofuscados pelas luzes de webcam do fenômeno Obama.

Esta falha cultural foi devastadora para Clinton. Como muito bem comentado por Joshua Green em um artigo importante no The Atlantic ("The Amazing Money Machine"), Obama utilizou as redes sociais e seu website amigável para desenvolver sua máquina de dinheiro e o engajamento dos jovens, aspectos fundamentais para a sua dianteira hoje.

Green observa que, "o registro de 1.276.000 doadores na campanha de Obama é tal que Clinton nem mesmo se preocupa em competir neste quesito". Ele fornece alguns outros números da campanha de Obama: 750.000 voluntários ativos e 8.000 grupos de afinidade. Em fevereiro, quando a campanha arrecadou 55 milhões de dólares (45 milhões via Internet), 94% das doações apresentaram valores menores que 200 dólares, um resultado também incomparável com as campanhas de Clinton e McCain.

Obama tem funcionado como um start-up clássico da Internet, um movimento que se espalha com intensidade viral e é impulsionado por algumas das mentes mais criativas do Vale do Silício. Tal como qualquer fenômeno online, ultrapassou as fronteiras nacionais, chamando atenção em Berlim tanto quanto nos EUA.

Tais condições não teriam sido realizadas sem uma percepção apurada do momento histórico, como a convicção de que a natureza do mundo pós-11 de setembro -- este que está além da 'guerra sem fim'-- será determinado pela sociabilidade e pela conectividade. No mundo globalizado do MySpace, LinkedIn e outros, a sociabilidade é tão importante quanto a soberania.

Tenho pesquisado, em vão, por esta percepção histórica na campanha de Clinton. Sua ameaça de 'aniquilar totalmente' o Irã, sua referência repugnante ao assassinato de Robert Kennedy em 1968 como um motivo para seguir na campanha, e suas invenções sobre o que aconteceu na Bósnia, tudo isto reflete a história como conteúdo a ser utilizado para fins políticos, e não como fonte de inspiração e reflexão.

Trata-se da história como referência pessoal: "Eu, eu, eu". Uma postura que pode ofuscar a percepção.

A cegueira mais séria da campanha de Clinton tem sido em relação às redes, nacionais e globais, e às conversas que vem gerando novas agregações e têm transformado a sociedade. Como diz David Singh Grewal em seu novo e excelente livro, "Network Power", uma tensão fundamental no mundo é que: "Tudo está sendo globalizado, menos a política".

Grewal diz ainda que "nós vivemos em um mundo no qual nossas relações de sociabilidade -- comércio, cultura, idéias, estilos -- são cada vez mais compartilhados, influenciados por conversas globais inovadoras que acontecem nestes domínios. Enquanto isso, a nossa política permanece inapelavelmente nacional, centrada nos estados-nações que constituem o locus do processo decisório soberano."

A administração Bush tem acentuado a percepção global deste descompasso. As pessoas conectadas mundo afora ficaram chocadas com algumas das políticas de Bush -- desde o ataque ao habeas corpus até as transferências de prisioneiros ('renditions') -- mas se viram impotentes em fazer algo à respeito.

O enorme interesse global no processo eleitoral norte americano está ligado em parte a uma crença de que o presidente dos EUA pode ser tão importante para a vida dos franceses, por exemplo, como o presidente da França.

A turma do Obama conhece bem tudo isso. A conectividade nos ensina que seguir sozinho é um erro: esta é uma lição básica aprendida no Iraque. Se Obama prometeu designar um coordenador geral de tecnologia com o objetivo de promover uma abertura no governo via web, e para desenvolver o diálogo ao invés de uma política centralizada, é porque ele sabe que precisa falar para o século 21.

Grewal diz que "a política é o único poder de contraposição efetivo disponível para redesenhar as estruturas que emergem através dos novos padrões de sociabilidade. O acúmulo de escolhas pessoais expressadas através das redes sociais desenham estes novos padrões de sociabilidade. Na falta de uma governança global, somente a soberania nacional pode canalizar estas tendências."

Clinton jamais enxergou estes aspectos. McCain, cuja arrecadação de recursos na web foi ridícula, também demonstra muito pouca compreensão do MAC.

Obviamente, conexão não é uma panacéia, e também não é uma garantia contra atentados violentos: afinal, a Al Qaeda utiliza a web de forma eficiente. Mas sem entender a conectividade e seus efeitos, hoje não é mais possível vencer o terrorismo ou ganhar uma eleição.

É a rede, estúpido, e as gerações que seguem com ela.


Tradução: José Murilo Junior