Na rede

sexta-feira, outubro 11, 2002

O usuário contra-ataca
- Manifesto propõe que paremos de comprar música comercial e de ir ao cinema por 6 meses.

"Se não cortarmos a fonte de renda da indústria do entretenimento, eles cortarão nosso acesso à Internet"

O manifesto (It's Time to Stop the Music) é de Alex Herrel, o head lemur:, e foi escrito quando o site da RIAA foi hackeado (veja como ficou!) em final de agosto último. O lemur afirma que o ataque não
se justifica, pois negar o à RIAA o direito de publicar livremente o que quiser é negar a liberdade essencial da Internet. Mas informa que o nível de dificuldade da ação foi muito baixo, e que portanto o ataque foi um alerta instrutivo à deficiente segurança implementada. E, afinal, "isto é o que se recebe por chamar seus clientes, que são
a razão de sua existência, de ladrões e mentirosos."

"O computador pessoal mudou dramaticamente a forma como utilizamos nosso tempo livre. A criação da Web, construída sobre a plataforma da Internet
tornou a publicação de palavras, música, e mesmo vídeo, uma atividade que não mais requer uma "Indústria de Publicação" para a sua produção. Podemos fazer tudo isso em nosso computador
pessoal, em casa e agora mesmo. Mas depende de nós a manutenção desta possibilidade."

A web é uma fonte renovável que combina as habilidades de milhões de participantes, e conecta um verdadeiro forum democrático com possibilidades que há 10 anos não eram sequer sonhadas. A indústria do entretenimento falha em encontrar seu espaço neste novo ambiente, e passa a atacar seus usuários em atitudes desesperadas.

"O fim do mundo chegou para esta turma. Nada mais fácil para um servidor web
do que registrar arquivos acessados, e se os artistas buscarem por alguém disposto a prestar um bom serviço em contar estes downloads e administrar a entrada da grana, by by gravadoras. Temos a tecnologia rip, mix and burn (grave, mixe e queime), e o Napster e seus sucessores já demonstraram que queremos música, mas queremos nós mesmos empacotá-la. Todo mundo que conheço gosta de 1 ou 2 músicas em um CD, somente as gravadoras parecem não perceber..."

Talvez já seja tarde. Aproveitando para citar uma frase poderosa do nosso manifestante:

"O usuário é uma criatura que evolui muito rapidamente, sendo constantemente redefinido pela possibilidade".

quinta-feira, outubro 10, 2002

Procura-se o Kazaa
- Como é difícil achar o que está em todo lugar, e em lugar nenhum...

Update
(02/09/2003)
: Alerta
ambiental no espaço da rede


Donos do Kazaa usam o DMCA para censurar o Google

O Napster foi uma presa fácil. Tinha servidores próprios baseados em solo norte-americano e portanto caiu nas garras inapeláveis do DMCA.

O Kazaa, a grande curtição em P2P do momento, conta uma outra estória. Integrado como uma verdadeira rede distribuída, não possui nenhum servidor central - funciona com o conceito de "super-nós" (super-nodes), que cumprem papel semelhante mas de fato são meros usuários individuais que concordam em desempenhar a função.

A Sharman
Networks
, baseada na Austrália mas registrada em um ilha do pacífico sul chamada Vanuatu, é a dona do software. Seu código fonte foi visto pela última vez na Estônia, e acredita-se que seus desenvolvedores estejam sediados na Holanda, apesar dos servidores registrados da empresa estarem operando na Dinamarca.

As gravadoras (RIAA), percebendo que o inimigo está bem preparado para a batalha, estão abrindo múltiplas frentes de ataque para impedir que uma nova onda da "Cultura Livre" se estabeleça na rede.

Por um lado, tentam imputar à Sharman a responsabilidade sobre as cópias digitais não autorizadas, acionando-a por perdas e obrigando-a a parar imediatamente com a distribuição do software. A empresa nega a pertinência da ação afirmando que o negócio não funciona "realmente" nos EUA, e que a corte não tem jurisidição sobre suas atividades. Argumenta que a decisão de um juiz de Los Angeles iria afetar indiscriminadamente 60 milhões de usuários em 150 países - um contrasenso. Os
argumentos das partes serão ouvidos no próximo dia 18 de novembro.

Em outra frente, a RIAA ataca a Verizon, grande provedora de Internet dos EUA. A ação busca obrigar a empresa a informar quais usuários fazem uso do serviço, e como - tem como alvo inicial os chamados "super-users". Neste caso, usuários poderiam ser "delatados" com provas irrefutáveis da contravenção cometida, e as gravadoras teriam alcançado uma vitória significativa na questão. A Verizon têm lutado bravamente para não ser obrigada a "entregar" seus clientes, mas o resultado desta batalha ainda depende do grau de mobilização dos usuários e da conscientização da mídia e da sociedade em geral para a questão das liberdades individuais no ambiente digital.

Jogando pesado, a RIAA também patrocina o congressista americano que tenta aprovar lei que permite à indústria "hackear" o computador do cidadão comum em busca de arquivos "ilegais", bem no estilo "Big Brother". E em estratégias menos divulgadas, tem tentado infiltrar arquivos mp3 defeituosos nos diretórios Kazaa, a fim de atrapalhar a festa da "Cultura Livre". Quanta violência, hein?

Para a Ecologia Digital, este caso ilustra a necessidade de uma revisão geral do paradigma legal nas questões ambientais da rede. Até quando os tribunais americanos estarão dando o tom de como devemos conviver na Internet, sobrepondo-se sobre regulações (e especificidades) locais?

Viva a liberdade do Kazaa!!

quarta-feira, outubro 09, 2002

Eldred vs. Ashcroft ao vivo
- Acompanhe os comentários na blogosfera

O Lawmeme, da Yale Law School está acompanhando ao vivo a apresentação dos argumentos das partes no caso Eldred vs. Ashcroft. Isto significa Lawrence Lessig na Suprema Corte americana (foto) defendendo a Ecologia Digital.

Copyfight está também fazendo boa cobertura, e destaca um relato das atividades do dia (em ScotusBlog):

"Não
há um vencedor claro hoje e os juízes expressaram ceticismo ante ambas as exposições.
A questão tocante à Primeira Emenda (liberdade de expressão) foi pouco explorada, e não parece que vai desempenhar papel importante na sequência do processo. É uma pena pois embasa o argumento mais forte, e a jurisprudência
da interação entre a Cláusula do Copyright (Copyright Clause) e a Primeira emenda está muito necessitada de revisão e melhora.
Mas de uma forma geral, sem que nenhum dos dois lados tenha marcado pontos relevantes, fica difícil imaginar a Corte revertendo a decisão do Congresso. Existem provavelmente alguns votos em favor da reversão, mas o benefício da dúvida geralmente vai para o Congresso."

Mais
informações de última hora em Slashdot, um relato e um comentário no NYTimes, e um bom artigo novo de Matthew Haughey. Lessig também deverá blogar algo, não é mesmo? Estamos ligados.

Update: - Bom relato da seção por Kwindla Kramer do AllAfrica

O futuro das rádios da Internet
- Acordo com gravadoras está perto, mas artistas reclamam

O ambiente digital tem outro assunto quente esta semana, que é o acordo entre os Webcasters (transmissores digitais de áudio, ou popularmente, rádios da Internet) e a poderosa Recording Industry Association of America (RIAA). O acordo fechado nesta segunda-feira (07/10) regulamenta que as rádios pagarão retroativamente a 1998, início de vigência do DMCA,
royalties baseados nas receitas das empresas. As cláusulas acordadas abandonam o formato de cobrança "per-play" proposto pelas gravadoras.

As rádios irão repassar 8% de sua receita ou 5% de suas despesas ou um mínimo de US$2.000 (qual seja o maior valor) pela atividade de 1998 a 2000. Pelos próximos 2 anos irão pagar 10% sobre receitas até US$250.000 and 12% por até US$500.000. Qualquer webcaster com receitas superiores a US$500.000 no primeiro ano e US$1.25 milhão no segundo ano
irá pagar as taxas arbitradas pelo Copyright Arbitration Royalty Panel (CARP) este ano. O acordo foi chamado de Small Webcaster Amendment Act, e os recolhimentos devem iniciar em janeiro.

Kevin
Shively
, da Beethoven.com afirma que as rádios não aceitariam este acordo se não estivessem sob o risco de fecharem se obrigadas a pagar as taxas da CARP. Por outro lado, as organizações dos artistas reclamam que o acordo deve implicar em retenções de pagamentos, e portanto alguns ajustes deverão ser necessários para a aprovação do acordo.

No momento, "ótimas" rádios como a SomaFM e RadioParadise festejam o resultado da semana, mas Doc afirma que este é "o acordo que não será". Notícias de útlima hora dão conta de que o acordo não está sendo apoiado no Senado americano.

terça-feira, outubro 08, 2002

Billy the Kid


O ano era 1977, e hoje o mundo poderia ser diferente se Billy não tivesse escapado...
***

segunda-feira, outubro 07, 2002

Eldred vs. Ashcroft
Um caso que pode ajudar a redefinir o conceito de copyright para o ambiente digital

Nesta quarta-feira (09/10) a Suprema Corte americana irá analisar de perto pela primeira vez, diante da nova situação imposta pelo paradigma da comunicação digital (leia-se Internet), o poder constitucional que permite a autores, inventores e outros agentes de criação, "por tempo limitado", o exclusivo direito sobre as próprias obras (veja no LATimes) - o copyright. Serão apresentados os argumentos de ambas as partes no caso
Eldred vs. Ashcroft.

A primeira legislação dos EUA sobre direitos autorais e patentes instituiu em 1790 o período de 14 anos de reserva de copyright para o autor. No entanto, desde o advento da indústria cinematográfica o Congresso americano tem extendido o tempo de reserva repetidamente, de forma que hoje as obras criadas por grupos (filmes) são protegidas por 95 anos, e os direitos de trabalhos individuais se extendem por 70 anos após a morte do autor.

Os ativistas da Ecologia Digital, tendo Lawrence Lessig à frente, argumentam que o estado atual da legislação distorce a função essencial do copyright na Constituição, que seria promover o progresso e a inovação. A extensão dos termos de copyright faz com que apenas alguns clássicos permaneçam disponíveis ao público em cópias impressas, CDs ou DVDs, enquanto mais de 400.000 títulos de livros, filmes e músicas tornam-se inacessíveis por contrato, e assim permanecem até 2019. Outro resultado palpável das extensões dos termos de copyright tem sido o de enriquecer os herdeiros de antigos autores, e também manter as margens de lucro da Disney e outros estúdios.

O caso Eldred começa em 1995 quando Eric Eldred resolveu auxiliar suas filhas em uma solicitação da escola. A tarefa era ler "The Scarlet Letter" de Nathaniel Hawthorne, e como as meninas acharam o texto desinteressante, Eldred achou que poderia ajudar buscando referências na Internet, onde acabou encontrando o texto completo mas com muitos erros de formatação e diagramação.

Escaneou o texto, reformatou, revisou erros, adicionou notas e glossário e também uma resenha escrita em 1879, e como o texto de Hawthorne é melhor entendido no contexto de suas outras obras, escaneou a obra completa complementando-a com os novos recursos e publicou tudo isto em um endereço na rede (www.eldritchpress.org). Ao final do trabalho seu site já estava recebendo 3.000 visitas diárias, e foi saudado como uma ótima ferramenta pelos estudiosos em Hawthorne -
chegou a receber uma comenda da National Endowment for the Humanities. Ninguém mais teria dificuldades em acessar Hawthorne.

Mas em 1998 entram em cena os políticos, e o Congresso americano aprova o "Sonny
Bono
's Copyright
Term Extension Act
", que homenageia o falecido cantor / político / ex-marido da Cher, que costumava declarar que "o copyright deveria ser para sempre". Ao extender o termo de proteção por mais 20 anos, o CTEA frustrou os planos de Eldred que já programava ampliar o seu projeto e lançar títulos de 1923, como "Three Stories and 10 Poems", de Hemingway.

Deprimido com a injustificável mudança nas regras do jogo, Eldred resolveu trilhar o caminho da desobediência civil mantendo o plano de publicar obras datadas de 1923 e 1924. Foi preso, fechou seu site, escreveu cartas, e se tournou um ativista. Foi assim que Lessig ouviu falar do caso, e tendo forte conceito formado sobre a inconstitucionalidade da extensão dos termos de copyright pelo Congresso, procurou Eldred e deu início ao caso em seu nome.

Lessig, em sua famosa conferência "Free Culture" de julho último (Buchicho na Blogosfera), destaca quatro pontos que traduzem bem a encruzilhada da sociedade organizada frente ao paradigma colocado pela possibilidade de livre distribuição
de conteúdo digital de um lado, e as forças conservadoras que buscam manter um status quo nos moldes de uma época que já passou, de outro:

  • Criatividade e inovação sempre são construídas
    sobre o passado.
  • O passado sempre tenta controlar o processo de criação sobre seus conteúdos.
  • Sociedades livres viabilizam o futuro ao limitar este poder do passado.
  • A nossa sociedade é cada vez menos uma sociedade livre.

Vamos acompanhar aqui o desenrolar desta novela e, conforme já comentado neste blog, a grande mídia parece já estar percebendo "algo estranho" na argumentação de Hollywood sobre a questão. Pode-se conferir aqui,
aqui, e aqui, e aqui também. E deu também na Exame.

quarta-feira, outubro 02, 2002

Ecologia Digital
Revisitando o conceito

Vasculhando referências e apontadores, encontrei um bom desenvolvimento do conceito de Ecologia Digital introduzindo uma seção de notícias (ou seriam artigos?) específicas do site do World Information.org. Com o patrocínio da Unesco e vários outros parceiros, a WIO apresenta um bom modelo de funcionamento e certamente será acompanhada de perto à partir de agora por este blog. Abaixo, a tradução do texto que acrescenta bons elementos ao que já haviamos apresentado (aqui, e aqui):

"A Ecologia Digital trata de entender os ecossistemas de informação. Ecossistemas de informação são constituídos por fluxos de informação sendo processados através de variados tipos de mídia. A informação tem se digitalizado amplamente, transformando-se em recurso a ser explorado, produzido e transformado de maneiras similares aos recursos naturais.

As tecnologias da informação, como meios essenciais de produção de valor, desenvolvem papel central na configuração e formatação das formas de comunicação, assim como em todos os aspectos da vida individual e social. Durante as últimas décadas a informação tornou-se o mais importante fator para o desenvolvimento cultural, social e econômico.

A Ecologia Digital estuda a produção, distribuição, armazenamento, acessibilidade, propriedade, seleção e o uso da informação em ambientes tecnologicamente determinados.

Um tema ecológico fundamental consiste na preservação e na promoção do valor de uso da informação para a humanidade como um todo, e de suas propriedades não-comerciais em oposição ao valor de troca. Esta aí incluída a questão da diversidade cultural e da qualidade de vida em um ambiente crescentemente baseado na informação digitalizada.

Forças econômicas e intervenções políticas colocam em risco o ecossistema da infosfera. Em ambos os casos, a oportunidade de se promover o pluralismo e a variedade de expressões culturais possibilitadas pela informação digital e as tecnologias de comunicação está sendo perdida.

A Ecologia Digital busca preservar e promover a diversidade cultural e a qualidade de vida no ecossistema informacional."

Novidades Google II
Algoritmos hackeáveis e as marolas do Gnews (ou Noogle) no cenário da mídia online

Sempre o Google. Quando fiz o link no post Após um mês...(o número #1 no Google na busca do termo "Ecologia Digital"), fiquei intrigado uma vez ao acessar e descobrir que meu Weblog não era mais o primeiro item, e sim o terceiro. Mais tarde, ao acessar novamente para checar, lá estava de volta à primeira posição. No mesmo dia voltou a ficar mais para trás, na sétima ou oitava posição, e depois
retornou ao primeiro lugar. Agora permanece lá, mesmo porque, Após um mês..., retomei a atividade e acho que isto ativa alguma coisa nos algoritmos do Google.

Estando eu a filosofar sobre a ocorrência, esbarro com uma discussão quente no Doc sobre GRankings.
- traduzindo: rankings baseados no ordenamento da resposta de uma busca no Google. O assunto é quente pois na medida em que o Google se torna referência na web para se medir a pertinência de uma url em relação a um determinado tema, imaginar que possam existir alguns truques que favoreçam um melhor posicionamento pode render uma longa discussão.

Vaí por também aí o comentário do post
anterior
, sobre a possibilidade de se hackear o algoritmo do novo news service com o objetivo de beneficiar determinadas notícias ou veículos. E por falar nisso, o bochicho sobre o efeito do lançamento do Google News continua: CNet dá a maior força,
desdenhando o editor, e o Yahoo acusa o golpe anunciando o contrataque dos portais. Sempre o Google.

segunda-feira, setembro 30, 2002

Novidades Google
Novas ferramentas reforçam a posição da marca como paradigma da Web

Postei o comentário
anterior
sobre o artigo
da BusinessWeek
linkando para a notícia
traduzida para o portugês
pela ferramenta
de idiomas
do Google. Foi a primeira vez que usei o recurso, mas tive aquela
sensação de estar fazendo algo que significa um salto. A notícia
traduzida para o portugês tem um link! (e reside no servidor Google!).
E não é só isso: você pode acessar a versão
completa da BusinessWeek online em português
!! Advogados de plantão na lista online news afirmam que isto certamente viola direitos autorais... ou seja, mais um item jurídico a ser repensado diante de uma nova situação criada pelos serviços Google.


E na semana passada (ou séculos atrás) a empresa lançou
seu news service, trazendo inovações
que sacodem o ambiente das notícias online. A principal novidade é
que os itens são compilados diretamente de 4000 fontes e a interface
é consolidada unicamente por algoritmos matemáticos, sem nenhuma
intervenção humana - nenhum editor. O WPost já tinha dado
o sinal
na semana passada, e há apenas 2 horas (segundo o próprio
Gnews), a Time em sua versão online focaliza
o assunto
. Steve
Outing
aprofunda o tema na perspectiva dos editores, e rolou também
uma discussão no Doc sobre a possibilidade de se "hackear" o algoritmo para beneficiar determinadas notícias / veículos.


Vitória a vista?! BusinessWeek sinaliza mudança de humor da mídia em relação ao ativismo digital

Foi no último dia 27, há uma eternidade portanto, mas vale registrar pelo significado. A BusinessWeek publicou o artigo "Um Caso para definir a Idade Digital" (A Case to Define the Digital Age) onde se coloca claramente a favor dos ativistas capitaneados por Lessig contra os interesses corporativos na questão dos direitos autorais. O artigo foca o debate no caso Eldred vs. Ashcroft, que é uma confrontação direta ao CTEA (Copyrights Term Extension Act), que extendeu a proteção por mais 20 anos, totalizando 70 anos após a morte do artista.

Está marcado para o próximo dia 9 de outubro a sessão da Superma Corte sobre o caso, e pela primeira vez há chances claras de vitória para o ativismo dos direitos digitais. O enfoque da análise dos juízes será questionar se a extensão do termo de proteção tem como resultado efetivo a promoção do progresso das ciências e das artes. Uma decisão contra o CTEA abala diretamete os fundamentos jurídicos do DMCA.

Doc afirma que o artigo pode ser um sinal significativo da virada de jogo nesta disputa entre Hollywood e o resto do mundo digital. Até então só havíamos colecionado derrotas nas cortes americanas, e ícones como Napster, Audio Galaxy e Aimster foram atropelados por decisões judiciais que refletiram o resultado do articulado lobby dos estúdios em Washington.

A filosofia de Doc parte do princípio de que o Business precisa de mercados, e adora "Grandes Mercados". Mercados são formados por pessoas, grandes mercados são formados por milhões de pessoas - nada como um mercado gigante onde as pessoas se sintam à vontade. Nesta equação pode estar a dica para entendermos porque a causa de Hollywood começa a ficar tão impopular na grande mídia. Veja também na Wired, no SF Gate, no Pacific News e no LA Times.

Estando em sampa desde a sexta-feira para a "jam session" da Luiza e do Miguel (meus filhos que moram aqui), e sendo hoje 30 - dia de concentração - vou ativando o contato para subir o Pico do Jaraguá e me juntar aos irmãos do Céu de Maria, do amigo Glauco.

quinta-feira, setembro 26, 2002

Após um mês... Retornando a atividade blog... e lembrando

Depois de um mês de retiro para avaliação, retoma a atividade bloguística o Ecologia Digital. Depois das primeiras blogadas fez-se urgente esta parada para tomar pé da situação, e quem sabe, redirecionar algumas diretrizes editoriais.

O fato de ter alcançado o número #1 no Google na busca do termo "Ecologia Digital" me fez pensar que o espaço merecia algo mais do que escrita experimental. Por outro lado, as características específicas da edição blog facilitam uma liberdade de expressão que nos afugenta da objetividade e personaliza o discurso, e assim acabamos ficando demasiadamente honestos na manifestação. Os resultados começam a ficar um tanto imprevisíveis...

Empacado nesta encruzilhada, eis que vejo a notícia do passamento de Bob Wallace, uma grande figura a quem conheci fortuitamente em Manaus 1996, no Congresso Internacional de Psicologia Transpessoal. Ele me foi apresentado como o dono da Mind Books, editora especializada na literatura psicodélica, e fundador da Promind Foundation, dedicada à pesquisa e a educação no tema das substâncias psicoativas. E o contexto de nosso encontro foi uma cerimônia do Santo Daime realizada como atividade paralela para os participantes do Congresso.

Após a (fantástica) sessão, tivemos a oportunidade de uma conversa sobre a beleza do cenário (a floresta amazônica) e a força do sagrado avivada pelo ritual, e desde então tenho acompanhado suas postagens para a ayahuasca mailing list, e assim sempre mantive viva a sua lembrança. Para minha surpresa, ao ver seu obituário no New York Times (!), e no Seattle Times, descubro que Mr. Wallace foi um dos fundadores da gigante Microsoft!!!.

E não só isso! Foi o primeiro dos fundadores da empresa a abandonar o barco - saiu com 400 ações que depois vieram a valer 15 milhões de dólares(!). Mais tarde em uma entrevista sobre sua saída, comentou que sua filosofia era "trabalhar para ganhar a vida, e não a morte" ("I want to make a living, not a killing"). E tem mais! Foi o criador do conceito "shareware", significando software distribuído de graça no qual usuários voluntáriamente pagam posteriormente se aprovam o produto. A empresa que fundou com base nesta filosofia, a Quicksoft, tem hoje receita de mais de 2 milhões de dólares ao ano. Que grande ativista da ecologia digital!

Perceber o significado e a influência de uma personalidade como Bob Wallace em ambos os universos, concreto e digital, trouxe-me alguma reflexão crítica sobre o conceito de Ecologia Digital. Tê-lo conhecido da forma como o conheci e acompanhar sua atuação no ambiente digital da comunidade psicodélica foi um prazer. Saber de sua importância histórica na indústria do software foi uma surpresa e trouxe-me uma constatação: a expansão da consciência está intimamente ligada ao rompimento de paradigmas.

A partir daqui, Ecologia Digital expande um pouco mais a sua temática...

domingo, agosto 25, 2002

Ói nóis na fita!! Cora e Doc. Bons pais...

Como todo filho, o Ecologia Digital vai recebendo os incentivos e a formação de seus blog-genitores para ir ganhando espaço neste admirável mundo novo.

Não posso deixar de agradecer em público o "afago" de mamãe Cora, que resultou em inúmeras visitas.

E também gostaria de registrar (com aquele orgulho de quem faz algo parecido com o pai) que Doc Searls postou algo muito parecido com o "Buchicho na Blogosfera". Dê uma olhada: "An adult`s garden of clues" (juro que postei primeiro!).

Com o incentivo de mamãe e o exemplo de papai, tenho certeza que o Ecologia Digital está bem encaminhado. O editor, satisfeito, agradece...

sábado, agosto 24, 2002

Buchicho na Blogosfera: Fricção criativa embala o debate online

Poder ser animação de principiante, mas estou simplesmente fascinado com o nível e com o ritmo da conversa que se desenrola nestas paragens do universo web - a blogosfera. Para quem está chegando agora e não está ainda familiarizado com os conceitos e os personagens da cena do ativismo web, talvez seja bom dar uma atualizada no tema das ameaças à ecologia da rede, para não perder o fio da conversa que se desenrola abaixo.

Em 24 de julho último, Lawrence Lessig apresentou a já famosa conferência Free Culture (ótimo arquivo flash), na OSCON 2002 (O'Really Open Source Convention), onde avisou ao grande público presente que seria uma de suas últimas aparições neste contexto. E foi enfático ao desafiar geeks, coders e hackers a se envolverem mais diretamente no processo político que irá defender a inovação tecnológica e a liberdade da cultura no futuro. Chegou a ser rude ao afirmar que Washington não visita os blogs ativistas, e que depois de 6 anos de muitas campanhas inspiradas em lindas palavras de ordem e muito blá-blá-blá interno na comunidade, a batalha estava sendo perdida de goleada (o DMCA foi aprovado por unanimidade no senado americano) - e "ninguém estava fazendo nada" à respeito. Conclamou a hora de cada um sacar do próprio talão de cheques e injetar o necessário combustível para suportar os movimentos de defesa organizados - agir politicamente.

O primeiro a se indignar com os torpedos provenientes de Lessig foi Dave Winer (o da aposta blog com o NYTimes) do Scripting News, que contestou sua autoridade tecnológica. De fato, o posicionamento de Lessig, já devidamente expresso no sentido de reduzir o tempo de cobertura do copyright para softwares o coloca em rota de colisão com boa parte da comunidade de desenvolvedores, como mostra o artigo de Charles Cooper publicado no 'mainstream' News.com, da CNET.

No entanto, é interessante ver como Lessig não se faz de rogado e responde a altura em seu recém criado blog, e como a conversa não poderia ser mais aberta, o assunto se alonga e se aprofunda tecnicamente no blog de Doc Searls. Inspirada, simpática e bem-humorada é a resenha de Alex Golub , sugerindo a Lessig uma performance alternativa no evento (com direito a um show musical ao final).

Enquanto isso, em outro front, Declan McCullagh, também do News.com, resolveu defender o DMCA (Debunking DMCA myths). Seu artigo aponta que os ativistas da comunidade geek (geektivists), além de não conhecerem profundamente o texto da lei, pautam suas manifestações por um exagero que não costuma sensibilizar Washington. O comentário cita mais diretamente Ed Felten (veja artigo anterior), e classifica como desproporcional a reação de Princeton e de seu empregado diante das ameaças de enquadramento de ambos como infratores do DMCA, caso fossem reveladas as descobertas de Felten sobre o SMDI - McCullagh afirma que a possibilidade de Felten chegar a ser processado era quase nula. A discussão interessante e esclarecedora começou com uma resposta assinada por Felten, Ed Lazowska e Barbara Simons, enquanto McCullagh recebeu reforço logístico por parte de Alan Adler, da Association of American Publishers (APP). O debate está em pleno desenvolvimento - na última checagem o placar estava 2 X 1 para Felten e sua turma.

Retomo a poesia da última postagem (abaixo) para saudar o frescor desse espaço de intercâmbio, cheio de vida e energia criativa.

segunda-feira, agosto 19, 2002

Mergulhando no mundo Blog: Estaremos diante do jornalismo do futuro? Tem gente apostando que sim...


Imagem original perdida. Nova imagem publicada em 30/12/2010

Por algum tempo desdenhei a ferramenta blog, que a começar pelo nome, me passava a impressão de algo pouco produtivo, ou de significado limitado. Confesso que a primeira vez que o termo blog me chamou a atenção foi em março último, no anúncio da aposta de 1 milhão de dólares que Dave Winer (Scripting News), CEO da Userland.com, fez com Martin Nisenholtz, CEO do NYTimes Digital. O desafio será decidido em 2007, tendo como critério cinco buscas a serem realizadas no Google - se um blog figurar na frente do NYTimes.com na lista de resultados em três ou mais buscas, Winer vence.

Em caso contrário, ou na hipótese das empresas de mídia se apropriarem do formato blog para publicar seu próprio conteúdo, e um blog no NYTimes figurar no topo das pesquisas em 2007, Nisenholtz vence. Esta e outras apostas "visionárias" podem ser acompanhadas no site LongBets.com.

Dave Winer e a comunidade blog apostam que, no prazo de 5 anos, pessoas bem conectadas e informadas passarão a buscar análises confiáveis em blogs.

Isto se daria como resultado da incapacidade da mídia tradicional em especializar seus reduzidos quadros de redatores e editores no acompanhamento do amplo espectro de assuntos circulando na rede. Ainda segundo esta visão, a web acostuma seus usuários a esperar "sempre mais", e o sucesso dos blogs é condicionado pela incapacidade da mídia tradicional em disponibilizar, sob variados ângulos e na agilidade necessária, a sempre crescente diversidade multi-dimensional dos temas. De fato, a independência, transparência e agilidade editorial dos bloggeiros pode realmente significar um golpe no vigente paradigma dos grandes veículos de mídia na rede. No entanto, nada impede que as grande corporações assimilem o formato e o adaptem favoravelmente para seu próprio uso - o que, se for realizado com êxito, significa vitória para o NYTimes na aposta a ser conferida em 2007. Como exemplo, o jornal britânico Guardian
já disponibiliza seu próprio weblog.

Mas, independentemente da disputa que me chamou a atenção, o fato é que ao fim de poucas horas de pesquisa me rendi completamente ao fenômeno e estou encantado com as possibilidades desse novo formato de mídia. Também saltam aos olhos, num primeiro momento, as formas de interatividade que estão sendo propostas pela comunidade engajada com o objetivo de conferir visibilidade aos blogs que surgem em profusão. Para não ficar olhando a festa do lado de fora, fui direto ao Blogger, referenciado como o melhor serviço de hospedagem de blogs na rede. Alguns momentos depois já estava devidamente "iniciado" - o feliz proprietário
de um blog novinho em folha.

Com alguns cliques configurei meu novo endereço, incluíndo comentários e estatística de visitação. Uma rápida olhada no Google me deu a dica de blogs relacionados ao tema que escolhi, aonde pude colher referências interessantes para ajustar minha idéia inicial às especificidades do formato. O estilo e a temática dos blogs de Doc Searls (um dos autores do Manifesto Cluetrain - veja entrevista em português) e de David Weinberger (JOHO), dois grandes ativistas do meio ambiente digital, serviram como ponto de partida.

O acompanhamento de diretórios como o Blogging Ecosystem me permitiu sentir o "clima" do que está rolando no meio bloggeiro mundial, e em termos nacionais não posso deixar de citar o simpático InternETC. da Cora Rónai como ótima fonte de inspiração.

Uma vez publicado, o blog carece de um item importantíssimo - visibilidade - , e é exatamente neste quesito que a comunidade blog apresenta as idéias mais criativas. Para começar, cada blog dispobiliza o seu "blogrolodex", ou listas que indicam as recomendações do autor, e linkar outros blogs nos próprios textos disponinilizados também é prática usual, fazendo do universo bloggeiro uma grande corrente. Mas o marketing dos blogs não para por aí: vasculhando nas ferramentas de divulgação deparei com o BlogTree, um serviço gratuito aonde você pode registrar os "pais" conceituais do seu blog. E então, ganhei inúmeros irmãos (filhos dos mesmos blogs que registrei como pais). Ao testemunhar no universo blog tamanha dinâmica e apelo aos nossos instintos editoriais, percebo que minha aventura na área está apenas começando...

quarta-feira, agosto 14, 2002

Defcon reúne 'hackers', 'geeks' e 'coders' em Las Vegas: Evento consagra os novos conceitos que fundem o ativismo digital no concreto

Dando um descanso para o tema das ameaças ciberbéticas (voltaremos oportunamente a elas), vamos falar um pouco sobre os "cerébros" da resistência libertária na rede - hackers, os legítimos - e de seu "braço armado": a comunidade geek.

*Geek = alguém que faz uso social do seu computador (chat, multiuser games, grupos, blogs, sites etc.). Quem só trabalha com computador não é Geek.

E o momento é propício pois aconteceu em Las Vegas, entre os dias 2 e 4 deste mês, o Def Con 10, conhecido como "o maior encontro underground de segurança na Internet do planeta". Algo assim como a convenção internacional dos hackers.

Vários temas na pauta, desde a possibilidade de tranformar um Dreamcast (console de videogame) numa ferramenta para invasão de sistemas corporativos, apresentada por Chris Davies, da RedSiren Technologies, até a discussão ética sobre possíveis "contra-ataques" cibernéticos a servidores que emitem vírus através de seus protocolos de e-mail, promovida por Timothy Mullen, da AnchorIS.

Desafiando o FBI, que no ano passado neste mesmo evento, e por muito menos, "grampeou" o nosso simpático russo Sklyarov, Adam Bresson mostrou ao público como fazer cópias caseiras de DVDs e vídeos com um aparelho chamado Canopus. A mensagem é a mesma: todos têm direito de fazer cópias de trabalhos que adquiram legalmente, e este direito está sendo ameaçado pelas proteções que estão sendo desenvolvidas pelas corporações do entretenimento. A palestra foi devidamente gravada por Adam e seus advogados para uso em possível ação judicial.

Mas o assunto do momento, na Def Con e nos sites da comunidade "geek", são mesmo as redes sem fio (Wi-Fi) que operam com base no padrão 802.11b. Esta tecnologia tornou-se muito competitiva em termos de preço nos últimos meses (Cheap Residential Gateways), e na pressa de se livrarem dos cabos de conxão, empresas, indivíduos, e seus respectivos ambientes de rede estão se tornando vulneráveis a um novo tipo de intrusão. O fato é que o novo contexto tem criado novos comportamentos, e todo mundo mundo só fala em "war driving", "warchalking" e "redes públicas de Wi-Fi". O que é isso? Aí vai uma pequena atualização para os que ainda não estão familiarizados com os conceitos.

Ao transitar por qualquer cidade relativamente bem aparelhada em termos tecnológicos, e neste caso estamos falando principalmente de Estados Unidos e Europa, você estará entrando e saindo das chamadas "bolhas" de conectividade. Se você entrar em algumas dessas "bolhas" e estiver portando um PDA ou um notebook equipado com um cartão Wi-Fi (conexão sem fio), um pequeno ícone irá aparecer em algum lugar da sua tela informando que, epa!, você está conectado à rede - e de graça!

Mas afinal, porque estas bolhas de conectividade estão dando sopa? As bolhas são projetadas por pontos de acesso Wi-Fi nos prédios ao redor, e são ocasionadas por dois tipos de administrador de sistemas:

  1. o relapso, que foi incapaz de configurar a capacidade do ponto de acesso em eliminar o acesso não-autorizado, e
  2. o altruísta, que acredita na "distribuição da riqueza" e por vezes instala potentes antenas para aumentar o raio de alcance de sua própria bolha, e assim disponibilizar acesso gratuito a mais gente.

E aí chegamos em "war driving", derivado de "war dialing" - que consiste na ultrapassada estratégia hacker de programar o sistema para chamar milhares de números de telefones em busca de conexões dial-up desprotegidas. WarDriving, termo cunhado por Peter Shipley, é circular pelas ruas da cidade de notebook com cartão de conexão Wi-Fi ligado a uma antena Lucent, e um receptor GPSanexo para anotação das coordenadas - em poucas horas este kit hacker pode localizar mais de 80 redes abertas para conexão numa cidade como San Francisco.

A Def Con 10, como não poderia deixar de ser, promoveu um concurso de WarDriving paralelo aos Foruns e às (famosas) FESTAS (foto ao lado) que caracterizam o evento. Os resultados assinalando os locais e as características das redes detectadas, os quais ainda serão consolidados para melhor divulgação, já podem ser acessados na rede. Não passou desapercebida aos simpáticos contraventores inscritos no concurso de WarDriving a tentativa do FBI em monitorar seus passos - interceptaram mensagem de um agente alertando a corporação sobre o plano da turma.

E a novidade agora é WarChalking, pois melhor seria se estas bolhas de alguma forma se tornassem visíveis aos usuários. E se de repente, andando pela rua, você encontra sinais marcados em giz (chalk) lhe dando todas as dicas sobre como conectar a rede ali disponível? Warchalking (www.warchalking.org) é um movimento para mobilizar a comunidade "geek" a decidir uma iconografia padrão para a "rede Wi-Fi pública". Partindo da iconografia hobo, que marcou época nos EUA como meio informal de comunicação para viajantes, a turma do WarChalking já está mapeando a "rede pública" e gratuita de acesso à Internet de posse dos cartões (modelo ao lado) que são disponibilizados em arquivo pdf.

Não estamos realmente diante de um novo meio ambiente? No caso do WarChalking, a esfera digital se confunde com o concreto e manifesta a a sua virtualidade nas paredes e muros das grandes cidades. Sinais do futuro?

sexta-feira, agosto 09, 2002

As ameaças ao meio ambiente digital (1)

Hoje começarei a explicitar quais as ameaças ao ambiente digital justificariam a formação de um movimento ecológico preservacionista para a rede. Vamos enumerá-las em capítulos, começando pelo vilão mais conhecido - o DMCA.

O"Digital Millenium Copyright Act" (DMCA) é um ataque violento, sob a forma de lei, ao renovado domínio público proporcionado pela Internet, e está em vigor desde 1998.

É claro que estamos falando de uma lei americana, que vale por lá, mas é bom ter em mente que as regras que padronizam o funcionamento de hardware, de software, da rede e dos copyrights para os EUA terão grande chance de se tornarem hegemônicas no mundo. Ou não?! Comentários?

O fato é que em seus quase quatro anos em vigor, o DMCA tem possibilitado inúmeros ataques à livre expressão, ao justo direito de livre uso à obras adquiridas, e ao desenvolvimento da pesquisa científica. Maiores detalhes sobre os efeitos indesejáveis do DMCA podem ser conferidos em: "Unintended Consequences: 3 Years under DMCA" (arquivo pdf) - Relatório de Fred von Lohmann, consultor de propriedade intelectual do "Eletronic Frontier Foundation" (o mais importante movimento organizado no assunto). Vamos citar os fatos mais relevantes para o entendimento da questão, e também as devidas referências:

Liberdade de Expressão e a pesquisa científica sofrem constrangimento sob
a seção 1201 do DMCA:

(1) Ação judicial contra a 2600 Magazine (veja as últimas
atualizações sobre o caso
), pela publicação do código do programa DeCSS, desenvolvido por Jon Johansen (foto). Trata-se de um simples aplicativo Windows que permite a decifração do CSS ("Content Scrambling System"), que é o sistema de encriptação mais usado pelos DVDs comerciais,
tornando possível a cópia dos arquivos contidos no original para o HD pessoal. Ou seja, um aplicativo que permite que se manipule a nível privado conteúdos adquiridos de forma justa e legal no momento da compra
do DVD. No entanto, sob as premissas do DMCA foi engendrada a ação contra a revista e a prisão de Jon, nosso "nerd" de plantão, na Noruega.

(2) As ameaças ao professor Edward Felten e sua equipe, de Princeton, que aceitaram (e venceram) um desafio proposto pelo SMDI (Secure Digital Music Initiative) - organização encarregada de criar mecanismos anti-pirataria nos CDs de áudio através de marcas-d'água
digitais. A tarefa do desafio era decifrar o código e retirar as marcas que impediam a cópia, e aos vencedores estava reservado um prêmio em dinheiro, com a condição de se manter sigilo sobre o que fosse descoberto. O professor Felten considerou que seria mais interessante compartilhar sua descoberta com a comunidade de desenvolvedores, o que ajudaria a expor as contradições do DMCA - que tem como resultado o bloqueio ao avanço de novas tecnologias de segurança. Em função desta decisão, o pesquisador passou a ser ameaçado por advogados corporativos. O caso
gerou a disputa Felten v. RIAA (Recording Industry Association of America, o todo poderoso cartel das gravadoras), que contesta a constitucionalidade do DMCA em permitir a censura a divulgação de conhecimento científico.

(3) A perseguição do FBI ao programador russo Dmitri Sklyarov foi o primeiro caso criminal a ser conduzido com base no DMCA, que deve prosseguir com a audiência marcada para o próximo dia 26 deste mês. Dmitri ajudou a desenvolver o software Advanced E-Book Processor para a empresa russa Elcomsoft, e foi preso em Las Vegas em julho de 2001 num dos encontros DEFCON (encontro mundial de hackers) sob a acusação de distribuir produto destinado a burlar medidas de proteção de direito autoral.

O software permite aos possuídores de eBooks (formato proprietário da Adobe Systems)
traduzir do formato "seguro" para o formato pdf, facilitando sua re-instalação em outra máquina e possibilitando o justo re-aproveitamento do conteúdo do eBook para fins pessoais. Após 6 meses preso nos EUA longe dos familiares, Dmitri (foto com a família) hoje aguarda em Moscou o desenrolar do processo.

Continua...

quinta-feira, agosto 08, 2002

Ainda sobre o termo Ecologia Digital


Depois de publicar o Blog ainda fiquei em dúvida sobre o título: Ecologia Digital.

Mais em dúvida fiquei ao rever a referência que deixei na publicação sobre Domínio Público, de ontem: "comuns
informacionais"
(information commons). Muito difícil de
traduzir para o português... (sugestões)

Parece que estamos diante de uma real escassez de termos adequados para bem denominar e comunicar nossas percepções a respeito do meio ambiente digital. De acordo com Laurence Lessig (a principal estrela internacional de nosso tema, autor do livro "Future of Ideas"*), é necessário desenvolver um vernáculo próprio ao novo contexto para que possamos discutir as políticas do ciberespaço.

Foi James Boyle, autor de "A Politics of Intellectual Property: Environmentalism For the Net?", quem em 1997 primeiro lançou o termo "ambientalismo da rede". Usando de analogia com o movimento ambientalista cita que Rachel Carson, Aldo Leopold e outros ativistas dos anos 40 / 50, perceberam a necessidade de se formular um discurso que popularizasse a compreensão em relação ao desastre ecológico para onde a sociedade se dirigia. Objetivamente, o surgimento do ambientalismo como movimento cultural e político se tornou possível através de uma nova linguagem, que permitia que os abusos diversos ao ambiente fossem percebidos de uma forma unificada. Foi canonizado o conceito de "meio ambiente" (environment), que passou a delimitar o espaço onde se discutem as políticas relacionadas ao assunto - uma mesa de negociação onde sentam-se interlocutores tão heterogêneos como o Greenpeace e as grandes corporações petrolíferas. Sem a criação deste espaço específico, seria difícil estabelecer as conexões temáticas para uma compreensão adequada dos novos paradigmas por parte do público, e também viabilizar os foruns de decisão legítimos e representativos para o assunto.

Daí surgiu a idéia de Ecologia Digital. Um movimento que advoga um equilíbrio neste novo ambiente criado no espaço digital, mas que tem como tarefa inicial conceber e popularizar conceitos que possam bem representar e descrever esta nova topografia cultural e econômica de nosso tempo.

Information Commons, ou "communs informacionais", é a proposta de David Bollier (Diretor do Projeto Information Commons e co-fundador da Public Knowledge) para denominar o novo ambiente de domínio público viabilizado pela Internet e suas múltiplas possibilidades de interação e comunicação.

Sugestões? Comentários? josemurilo@yahoo.com
Depois continuamos...

quarta-feira, agosto 07, 2002

Parem com a privatização do conhecimento: O domínio público em perigo

O mais ameaçado e menos reconhecido bem comum em nossos dias é o domínio público de obras de criação e informações. O domínio público sempre foi concebido como um peculiar "ferro-velho" cultural, instalado na periferia da sociedade afluente. De acordo com a visão corrente, é o lugar onde o explorador de antigüidades pode encontrar inúmeras jóias culturais misturadas a livros, ilustrações e música merecidamente esquecidos.

O domínio público é geralmente visto como uma coleção estática de obras cujos direitos autorais (copyrights) e patentes expiraram, ou que não puderam ser registrados à princípio, como documentos governamentais e teorias científicas. Segundo a lei, o domínio público consiste também de objetos que não podem ser protegidos legalmente, como estórias populares, títulos, temas e fatos. O domínio público, de acordo com o senso comum, não é visto como uma fonte de muito valor criativo ou econômico.

No entanto, tem se tornado cada vez mais claro que o domínio público não é estático, marginal ou trivial. Milhões de pessoas hoje possuem seus próprios websites, utilizam software de código aberto (open source), interagem através de jogos online e sites colaborativos, e compartilham arquivos de dados livremente.

Agora que a Internet disponibilizou o poder de cada usuário tornar-se um criador, e rapidamente compartilhar informação com outros, o abrangência do domínio público tem aumentado consideravelmente. Este é o motivo para que vários especialistas nesta nova questão venham usando o termo "information commons" (comuns informacionais). Querem com isso enfatizar que a comunicação pública na era digital possui dinâmicas radicalmente novas, tornando ainda mais difícil - porém importante - preservar aberto o acesso ao compartilhamento da informação.

Para maiores e melhores informações sobre o conceito de "Information Commons", acesse o site http://www.info-commons.org/.

Pois bem! Estamos inaugurando este espaço de informações (em português) sobre a Ecologia Digital

O objetivo principal é acompanhar os movimentos e fatos que atuem direta ou indiretamente na promoção da noção de domínio público para os bens comuns da informação disponíveis no ambiente digital.

O que é Ecologia Digital?*
A Ecologia Digital trata de entender os ecossistemas informacionais. Estes são constituídos por fluxos de informação sendo processados através de mídias variadas. A informação tem passado por um amplo processo de digitalização e se transformou em recurso a ser explorado, produzido e transformado de forma semelhante aos recursos materiais.

As tecnologias da informação como meios de produção de valor estão protagonizando o papel de formatadoras das novas formas de comunicação, assim como de muitos outros aspectos da vida individual e social. Nas últimas décadas a informação tornou-se o mais importante fator de desenvolvimento cultural, social e econômico.

A Ecologia Digital busca entender a produção, distribuição, armazenagem, acessibilidade, propriedade, seleção e uso da informação em ambientes tecnologicamente determinados.

Uma questão ecológica fundamental está relacionada à preservação e a promoção do valor de uso da informação para a humanidade como um todo, e de suas propriedades não-comerciais, em oposição ao seu valor de troca. Inclue-se aqui a questão da diversidade cultural e da qualidade de vida num ambiente crescentemente baseado em informação digitalizada.

Forças econômicas e intervenções políticas ameaçam o equilíbrio do ecossistema da infosfera. Em ambos os casos, o pluralismo e variedade de expressões culturais oferecidas pelas tecnologias de informação e comunicação estarão sendo desperdiçados.

A Ecologia Digital busca preservar e promover a diversidade cultural e a qualidade de vida no ecossistema informacional.

(*) elementos desta definição podem ser consultados em World-Information.org, que tem uma seção de notícias (em inglês) especializada em Ecologia Digital.

ps: a imagem à direita não tem muito a ver com o tema, mas eu tinha que testar os recursos do blog...